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Categoria - Personagens Professor Pachecão e Diamante Negro Autor(a): Abilio Macêdo - Conheça esse autor
História publicada em 28/04/2014
A ampla divulgação pela imprensa do centenário de nascimento do lendário Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, considerado um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, me fez lembrar um episódio acontecido com ele, em 1972.
 
Mas para melhor ilustrar o caso, antes tenho que falar sobre o outro personagem, que também era uma figura singular (aliás, uma figuraça): meu professor de projeto mecânico do colégio técnico, o engenheiro Pacheco:
 
Pachecão, como gostava de ser chamado, era daquelas pessoas apaixonadas pelo que fazia, parecia que tudo em sua vida era relacionado à mecânica e máquinas e que ele respirava tecnologia 24 horas por dia. Para ter uma ideia, ele foi conhecer a fábrica da General Motors em Buenos Aires durante sua viagem de lua de mel...
 
Além de lecionar, ele também prestava consultoria a várias empresas e se mantinha atualizado sobre os avanços tecnológicos fazendo um curso de especialização atrás do outro e importando livros e revistas técnicas da Europa, Estados Unidos e até do Japão. Já naquela época (do milagre econômico brasileiro) ele nos passava uma clara ideia das profissões que seriam extintas na indústria (inclusive a de projetista mecânico), por conta da automação, robótica, informática, etc...
 
Embora dissesse que era apenas um hobby, Pachecão tinha ainda outra atividade à qual dedicava algumas horas do seu dia (ou da noite): a restauração de antiguidades. Relíquias de guerra, brinquedos, caixas de música, utensílios... Qualquer coisa danificada que entrasse na oficina superequipada que ele tinha em casa voltava a funcionar perfeitamente. Nunca se soube de algo que Pachecão não tivesse conseguido consertar.
 
Mesmo com encomendas de antiquários e colecionadores, Pachecão vivia garimpando na sucata de ferro velho da cidade, e foi assim que encontrou os restos enferrujados de uma máquina manual para moer carne e grãos, fabricada na Inglaterra nos anos 40, que depois que ele deixou como nova acabou sendo comprada pelo próprio fabricante, com quem trocara correspondência durante a restauração.
 
Ele era um professor muito exigente, mas não tinha quem não gostasse dele, que além de paciente estava sempre de bom humor. Teve um aluno que tentou tirá-lo do sério pendurando no quadro da sala um desenho da personagem da série de TV “Os Jetsons”, a empregada robô Rose, de biquíni, e com os dizeres “A mulher dos sonhos do Pachecão”, mas Pachecão foi quem mais achou engraçado e ainda fez questão de mostrar o desenho aos outros professores.
 
 
Pachecão sempre nos levava em alguma fábrica para uma aula prática sobre manutenção e montagem mecânica. Era uma farra quando ele fazia a gente se espremer na sua perua Kombi, dividindo espaço com barras de aço, parafusos, rolamentos e outras peças espalhadas pelo piso e bancos do carro, para conhecer empresas como a Fundição Brasil, Puma (automóveis), Villares, Alpargatas, Antarctica e Fruehauf, entre outras.
 
Foi em uma dessas visitas, à antiga fábrica de chocolates Lacta, no Brooklin, que Pachecão desviou sua atenção para um senhor que acabara de entrar na recepção, e depois, como que hipnotizado, não tirava os olhos dele.
 
- Professor? Pachecão?
- "Hã"? Desculpem. Estava me lembrando dele. Viajei no tempo...
- O senhor conhece? – perguntamos.
- E como... Dizem que só Pelé jogou mais que ele, mas tem muita gente que não concorda. Inclusive eu.
- Quem é ele?
- Leônidas da Silva. Vi muitos jogos dele pelo São Paulo. Só em Ribeirão Preto fui pelo menos umas três vezes...
 
Todos nós já tínhamos ouvido falar em Leônidas da Silva, que na época era comentarista esportivo da Rádio Jovem Pan.
 
- Então vamos lá falar com ele – disse eu.
- Negativo. Estamos aqui para outra coisa. Todo mundo sentadinho aí.
 
Normalmente ninguém se atreveria desobedecer, mas não aguentei ver Pachecão olhando fascinado enquanto Leônidas da Silva passava bem à sua frente e sumia de vista saindo por uma porta no fundo da sala. Em um impulso, me levantei e fui atrás dele, e quando o alcancei não foi fácil me aproximar porque ele já estava cercado por várias pessoas que tinham ido recebê-lo.
 
Mas antes vou esclarecer o que Leônidas da Silva fazia lá:
 
Naquele dia, a Lacta, que ainda era controlada pela família do ex-governador Ademar de Barros, estava oferecendo um coquetel pelo lançamento da nova campanha publicitária do chocolate “Diamante Negro”, e Leônidas havia sido convidado por ter sido o primeiro garoto propaganda da marca, cujo nome fora inspirado no apelido que recebera na Copa do Mundo de 1938, na qual além de artilheiro foi eleito o melhor jogador da competição.
 
Apesar dos protestos de alguns, Leônidas da Silva gentilmente aceitou me acompanhar quando lhe pedi (em tom de apelo) para ele conhecer o nosso professor:
- É um grande admirador seu, mas é muito tímido. Ele achou que lhe incomodaria se fosse falar com o senhor.
- Que bobagem. Incomodar por quê? Agora eu faço questão de dar um abraço nele. Vamos lá, garoto.
 
Eu sabia que tinha feito a coisa certa, mas tive mais certeza disso ao ver que minutos depois de se conhecerem, Pachecão e Diamante Negro conversavam como se fossem amigos de infância, inclusive nossa aula prática ficou para outra ocasião porque ele fez questão que o acompanhássemos ao coquetel.
 
O evento era uma superprodução, com música ao vivo, sorteios de brindes e muitos convidados e representantes de TVs, rádios, jornais e revistas. Por isso foi uma grande surpresa quando vimos Pachecão subir ao palco e pedir o microfone ao locutor Antonio Del Fiol (aquele dos comerciais do Mappin), que fazia a apresentação.
 
“Quem é esse sujeito?”. “Deve tá de porre”. “Aposto que vai puxar o saco do Adhemar” (de Barros Filho). Foram alguns comentários que ouvimos enquanto ele pedia a atenção de todos dizendo que não poderia perder a oportunidade que o destino lhe dera para prestar uma homenagem a uma pessoa ali presente.
 
Mas eles estavam enganados e não sabiam que Pachecão possuía o dom da palavra (ou da oratória, se preferirem) e uma grande capacidade de encantar e prender o ouvinte e usaria esse talento para dizer algumas palavras sobre Leônidas da Silva:
 
Desde sua chegada a São Paulo, desacreditado e criticado pela imprensa, passando pelos títulos que ajudou a conquistar e descrevendo algumas de suas jogadas geniais que tinha presenciado: gols, dribles, lançamentos, e como, contrariando as leis da física, em um movimento acrobático, ficava suspenso no ar para imortalizar os gols de “bicicleta”. Tudo, graças à sua memória prodigiosa, com uma riqueza de detalhes tão grande que parecia até que estávamos assistindo a um filme.
 
Para encerrar, ele disse que fazia parte da geração que o tinha como grande ídolo e ficou órfã quando ele pendurou as chuteiras e que podia garantir que só existia uma diferença entre Pelé e Leônidas da Silva: o videoteipe.
 
Foram tantos aplausos, com as pessoas agora pensando que aquilo tinha sido ensaiado e fazia parte da festa, que Leônidas teve que subir ao palco para agradecer e dar um abraço emocionado em Pachecão. Antes de terminar, tem ainda uma coisa que aconteceu naquele dia que também nunca esqueci:
 
Pachecão me chamou em um canto e disfarçadamente retirou um bombom de um envelope pardo e falou:
- Toma. Come escondido que ninguém pode ver.
- Por quê? – perguntei surpreso.
- Porque esse é só para exportação. Eles não dão para ninguém e é proibido pegar.
- Como você conseguiu?
- Segredo. Tenho um amigo na produção. Esse é o melhor chocolate do mundo.
 
Com um cuidado exagerado, ele mesmo desembrulhou o bombom e antes de guardar a embalagem em seu bolso, me fez colocá-lo na boca de uma só vez.
 
Mastigar com a boca tão cheia até que não seria problema para alguém guloso e louco por chocolate como eu, se aquilo não fosse tão ruim. O recheio era de pasta de amendoim e bananada, que misturados com chocolate ficava com um gosto pior que óleo de rícino com açúcar. Tive que beber dois copos de água para conseguir engolir aquela massa que não desgrudava do céu da boca e dos dentes, e até meu estomago de avestruz ficou meio embrulhado.
 
Até hoje não sei se Pachecão gostava mesmo daquele bombom ou se ele descobriu que fui eu quem colocou o desenho da Rose dos “Jetsons” no quadro da sala e aproveitou para se vingar.
 
E-mail: abilio.macedo@bol.com.br
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Publicado em 04/05/2014

Abilio, acho que o Pachecão não lhe perdoou pelo desenho da Rose, oferecer um bombom secreto! parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 01/05/2014

Uma bela demonstração de respeito e carinho por um craque de um passado recente, como Leonidas da Silva. Na esteira de homenagem a um profissional do ensino como Pachecão. enfeicha um trabalho de fôlego, muito bem elaborado com sinais de conhecedor bem íntimo da Lacta, local que trabalhei, como fornecedor por várias décadas. Parabéns, Macedo.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 28/04/2014

Abílio, que crônica maravilhosa! Vou reler e recomendar. Fiz alguns cursos, o que me deixou muito feliz,porque chocolate tem tudo a ver com alegria e partilha. Quando eu consegui produzir o meu primeiro Diamante Nero, contei prá todo mundo e as pessoas não compreendiam o motivo de tamanha satisfação. E eu explicava que na Lacta, só um mestre fazia esse chocolate Mas eu não gostaria de te chatear não, mas deve ter sido vingança do Pachecão mesmo te oferecer um chocolate com aquele recheio. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 28/04/2014

O sonho de trabalhar com dispositivos mecânicos estiveram sempre presente e por muito tempo os projetos industriais de grandes empresas como Villares, CSN, Mercedes Benz, Belgo Mineira, Siderúrgica Tubarão, Companhia Vale do Rio Doce e tantas outras fizeram parte da vida deste missivista, trabalhando na expansão das industrias de base para a aquisição de tecnologia de ponta no ramo siderúrgico, de mineração e fundição de ligas metálicas. Quanto a Lacta veja texto AS INDÚSTRIAS E A DESINDUSTRIALIZAÇÃO EM SANTO AMARO

http://carlosfatorelli27013.blogspot.com.br/2010/11/as-industrias-e-desendustrializacao-em.html

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 28/04/2014

Macedo gostei muito dessa sua historia, primeiro por eu ter visto pessoalmente em pleno Pacaembu em 1947. O grande Leônidas da Silva jogar pelo São Paulo contra o meu time o Corinthians. e depois pela bela sacada de colocar a Rose dos "Jetsons" de biquíni no quadro da sala de aula. Parabéns.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 28/04/2014

Abilio, muito boa a cronica e melhor o fato, ouvi dizer que o diamante negro que deu nome ao chocolate até hoje vendido com sucesso, o Leonidas praticamente não ganhou nada em termos de dinheiro para essa propaganda, ahh se fosse hoje, até os bisnetos dele estariam ricos, parabéns,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
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