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Categoria - Paisagens e lugares A fábrica Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 25/04/2014
O tempo passava com rapidez estonteante na Rua Independência do meu Cambuci. Pelo menos para quem era criança naqueles anos sessenta. Os ônibus faziam o trajeto de Pinheiros ao Sacomã, passando por ali, em mão única, exibindo uma fumaça ainda não tão sufocante pelo carburador.
 
A pé íamos, vez ou outra, à fábrica.
 
O momento mais marcante da minha visita à fábrica foi no final de 1962 quando, pela primeira vez, os trabalhadores puderam contar com o décimo terceiro salário.
 
Sorridente e com o semblante aliviado, a minha mãe recebeu o benefício naquela tarde tão próxima ao Natal e deu um pequeno valor para mim e o meu irmão. De imediato, a decisão de irmos à fábrica tomou conta do nosso imaginário ainda tão dócil e carregado de inocência.
 
E era uma visão celestial, literalmente “uma promessa de vida no coração”. Do final daquele corredor escuro e de pouca ventilação vinha um odor inebriante, mágico, característico do chocolate derretido em banho-maria. Íamos, aos poucos, nos afastando do barulho das buzinas, das brecadas rápidas dos carros, do atravessar a rua a passos ligeiros na tentativa de se evitar um desastre maior. E, ao mesmo tempo, nos aproximando de uma outra possibilidade de viver: o mundo da paixão.
 
Eu fui descobrindo que, com o chocolate, tudo era possível. O sabor único, inconfundível, a embalar um tempo de dificuldades sem conta, dadas às enfermidades crônicas do meu pai. Acho que a alma lhe doía mais que o estômago. Diuturnamente. A nossa vida ia se acabando com isso. A cada dia o meu pai ia morrendo um pouco. Quantas vezes fui ao colégio sem saber se, na volta, ele ainda estaria vivo. O chocolate seria o nosso conforto espiritual, um ombro caloroso e mudo, o nosso oxigênio para um tempo que não deixou nenhuma saudade.
 
Foi o chocolate que acompanhou a evolução da humanidade desde 1500 a.C. Considerado sagrado pelos maias e astecas, a bebida foi levada para a Europa pelos colonizadores espanhóis, que, evidentemente, se achavam os novos deuses do lugar a ser dominado. Na Espanha, o líquido era consumido por sacerdotes e pela nobreza. Quando em 1519 o conquistador Hernán Cortez chegou ao México, o imperador Montezuma o recebeu com honras. Apreciador do chocolate, Montezuma ingeria a bebida em copos de ouro. Esse copo era lançado fora após o último gole. Isso para mostrar que a bebida valia mais que o tão cobiçado metal.
 
Anos mais tarde, Cortez aprisionou o imperador e, gradualmente, conquistou o México para o rei da Espanha. Quando retornou para a metrópole, em 1528, Cortez levou grãos de cacau para o rei, apresentando o produto naquela forma líquida. Por um século a Espanha teve o monopólio do comércio de grãos de cacau, graças às plantações ordenadas por Cortez.
 
Nesse meio tempo, a bebida começou a ficar conhecida em outros países da Europa Ocidental. Diversos países europeus passaram a plantar cacaueiros em suas próprias colônias tropicais onde o clima era favorável.
 
Em 1700 as "Casas de Chocolate" começaram a competir com as "Casas de Café" em Londres. Uma xícara de chocolate quente não era mais um artigo de luxo. O nascimento e o desenvolvimento das indústrias tornaram possível a produção em massa, além de tornar os produtos mais baratos, e o chocolate ganhou espaço nesse contexto.
 
Em 1875, um fabricante suíço criou uma barra de chocolate ao leite, usando leite fresco, sendo o mesmo, mais tarde, popularizado pelo farmacêutico Henry Nestlé.
 
E eu respirava aquela fábrica! No balcão simples, o atendente nos deixava experimentar algumas das preciosidades expostas. Sem sombra de luxo, o chocolate produzido em poucas variedades de formas, dava a entender se tratar de uma pequena empresa familiar. Quem sabe, uma família de operários natural do próprio Cambuci...
 
Poucas coisas na minha infância marcaram tanto como as nossas breves passagens pela fábrica Toy. Eu nem imaginava que seria possível, um dia, eu aprender a lidar com essa magnífica arte de produzir.
 
Anos depois, me deparei com uma outra fábrica, na saída da Cidade Universitária. Comprei ali algumas vezes, mas o romantismo da Toy, a longa espera para poder entrar ali, o sabor paradisíaco, o encontro com o melhor da vida... Fica com aquela fábrica da Rua Independência do meu Cambuci.
 
Frequentar uma fábrica de chocolate na infância, dura infância de solidão, dores e incertezas, é aprender a esperar. Esperar longas horas, meses, anos até para se ter a certeza de que a vida sempre vence. E que todas as primaveras terão o sol a brilhar para todos aqueles que se prestam a viver em paz.
 

 

E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 05/05/2014

Vera, não sou muito fanático em chocolate mas seu relato me deu água na bôca, sorrateiramente vou ao armário e belisco um pedaço do ovo de páscoa de meus netos! que delícia! parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 29/04/2014

Vera, hoje em dia tem o filme "Fabrica de Chocolate" que encanta a meninada e os adultos também, dá sentir até o cheirinho, uma delicia! Atualmente não estou comendo chocolate, apenas um pedacinho daquele bem amargo, mas aqui em casa ainda tem muito chocolate que sobrou da Pascoa. Lindo seu texto como sempre, um grande abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 28/04/2014

Vera vc foi uma privilegiada em conhecer uma fábrica de chocolates ainda na infância.

Como diz a Ana Maria Braga: HUUUUUUUUUUUUUUUUUUMMMMMMMMMMM!

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 28/04/2014

Vera, vendo o titulo de sua narrativa comecei a leitura e só depois descobri que a mesma era sobre uma fabrica de chocolate, e eu tomando sinvastatina para baixar o colesterol, estou agora aqui babando e lutando para não fuçar armários, gavetas e sacolas no intuito de encontrar algum resto de chocolate da ultima pascoa, que foram por mim evitados e rejeitados , mas que agora depois dessas sua narrativa tornaram-se uma grande tentação, E eu pergunto, e agora José.

Grande abraço e parabéns.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 28/04/2014

Meu querido Modesto, e não sei te dizer o número da rua Independência onde se localizava a fábrica. Na realidade, era uma fabriqueta e nem tinha anúncio na porta. Coisa de fundo de quintal mesmo . Eu me lembro que era do lado esquerdo da rua - na direção de quem vai do Cambuci ao Ipiranga - e pouco antes da curva que ia dar no laboratório Andrômaco. Era isso. Um abraço, meu querido e obrigada pela gentileza do seu comentário.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 25/04/2014

Belas lembranças Vera. Não ligo muito para chocolate, mas todo final de semana a Neta está aqui em casa e é para mim que ele vem pedir o "tete" Todo babão vou logo pegar o Nescal e fazer a mamadeira dela. É grudada na vó, mas o "tete" sou eu que tenho que fazer... Abraços ...

Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
Publicado em 25/04/2014

Vera, realmente chocolate faz a vida e me fez lembrar que nasci em Santo Amaro ao lado da Lacta, até hoje sinto o aroma do mesmo todos os dias, parece incrustado nas minhas narinas, parece que estou sentido o cheiro dele agora, vou aproveitar e comer um pedaço de ovo de páscoa que sobrou.- Está servida?. parabéns,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 25/04/2014

Não sei tratar meu chocolate como a Vera, mas que adoro seu perfume, suas artesanais manipulações, suas disfarçadas coberturas, o meio-amargo cobrindo a cereja com recheio de casquinha de folhado semm sabor. ahhhh, que gostozura...

Vera, satifaça uma curiosidade, a Myrte nasceu na Climaco Barbosa, paralela a Independência e eu que ia namorar lá, nunca ouvi falar numa pequena fábrica de chocolates na parte entre a Lins de Vasconcelos e a av. D. Pedro. "Formigões" como ela e eu, saberiamos de pronto a existência de tal manufatura. Veja bem, casamos em 1957. Moramos só 7 meses, até julho do mesmo ano, na Teodoreto Souto e depois fomos pro Braz. Em todo caso, gostei da sua nobre literatura, uma ode ao chocolate, Vera. Parabéns.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
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