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Categoria - Personagens Personagens do Centro Autor(a): Almir . - Conheça esse autor
História publicada em 24/04/2014
Trabalhei no Centro por alguns anos, nas décadas de 70 e 80. Era comum a aglomeração de pessoas em torno de algum show de rua. Alguns personagens estavam lá todos os dias. Na Barão, a estrela era o “Diabo Loiro”, figura folclórica que apareceu em diversos programas de TV. Sua especialidade era andar e deitar em cima de garrafas quebradas e outros objetos afiados. Nunca o vi machucado, nem arranhado.
 
Acho que ele foi o predecessor do conhecido Super Maluco. Um vendedor de bilhetes de loteria, tinha seu bordão: "Borboleta 13, vai dar o 13." Repetia por horas. Anunciava sempre o mesmo número, todos os dias, o dia inteiro.
 
Na Praça do Patriarca, em frente ao Unibanco, ficava um senhor com um objeto na boca imitando gatos. Ficou por lá muitos anos. Falando de gatos, um rapaz andava com um saco e um pedaço de pau. De repente ele começava a bater no saco e imitar o grito de gatos sendo espancados. Na primeira vez que vi pensei ser real e que ele fosse muito cruel. Era tudo brincadeira para vender o objeto que simulava os gritos dos bichanos.
 
Na Praça da República, em frente ao Bradesco, uma senhora ficou durante muitos anos vendendo pentes. Não gritava, não anunciava. Apenas esperava. Em março de 1981, voltando do primeiro show do Queen no Brasil, passei pela República a caminho de casa e ela ainda estava lá com sua pequena barraquinha, em silêncio. Detalhe: já era madrugada.
 
Certa vez por volta das 9h da noite, saí da Mesbla e ouvi um rapaz com uma voz lindíssima, cantando músicas clássicas e com uma caixa de sapatos ao lado recebendo ofertas de quem tinha seus ouvidos contemplados com seu talento. Alguns anos depois ficou muito famoso. Era Edson Cordeiro, hoje morando na Alemanha.
 
Falando de música, como não lembrar-se do talentosíssimo flautista Charles, que junto com seu pai e irmãos tocava chorinhos, MPB e clássicos, principalmente na Barão de Itapetininga. Infelizmente, parece que ele está perdendo a luta contra o crack.
 
Meu irmão cita um personagem que imitava a Xuxa na região da Praça do Correio com uma pequena caixa de som e um microfone, e que cantava durante as greves juntamente com a Banda do Peru. Durante uma greve dos bancários, a turma do sindicato direcionou as potentes caixas de som para o alto do prédio da sede da Nossa Caixa, na XV de Novembro, e ele cantou “Maria Helena”, de Altemar Dutra, em clara provocação, à diretora de RH da Nossa Caixa, que se chamava Maria Helena; fato que lhe rendeu uma crônica de Lorenço Diaferia que classificou a interpretação como “inesquecível”.
 
Na Dom José de Barros, quase esquina com a Sete de Abril, um músico alemão e seu violino fazia a alegria de quem gostava de boa música. Bach, Beethoven, Chopin, etc. Impossível enumerar todos eles.
 
A vida me pregou uma peça e faz muitos anos que não circulo pelo Centrão, mas imagino que figuras como essas não existam mais.
 

 

E-mail: almir1960@hotmail.com
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Publicado em 29/04/2014

Almir, no meu bairro tinha a Maria que a chamavam de " Maria Louca". Em nossa cidade sempre tem um personagem desses que marcam nossas vidas, um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 25/04/2014

Artistas de vários instrumentos com aparições desordenadas, lugares incertos, horários desencontrados, muito bem relatado, tudo pra angariar alguns trocados, alegrar os passantes que conseguem quebrar o lânguido e denso passar das horas do dia. Parabéns, Almir.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 24/04/2014

Almir, tive oportunidade de conhecer alguns dos personagens que você citou em seu excelente texto, muitos deles já se foram, a modas agora são as figuras imitando estátuas, parabéns.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 24/04/2014

Almir,notei que voce de vez em quando lembra deste site, sua última hiatória foi escrita em 2012,e que por sinal lhe trouxe muita sorte,agora nós também tivemos a sorte de ler uma descrição muito interessante sua do centro de São Paulo nos anos 70/80 coisas que nos dão saudades pois muitos de nós também andávamos no centro nesta época e temos saudosas lembranças...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 24/04/2014

Está havendo uma concentração de músicos na Rua XV de Novembro, alguns com violão, outros com contrabaixo e até saxofone, não sei se vai virar uma rua musical, "competindo" com as estátuas vivas que dá uma certa beleza ao cinza local. Na Sé ainda se vê muita pregação em voz alta e alguns jogos que insistem em iludir incautos.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 24/04/2014

na esquina da Xavier de toledo x praça ramos de Azevedo em 1960 tinha

O FAMOSO GUARDA LUIZINHO.EM FRENTE AO MAPPIN,

Enviado por João Cláudio Capasso - jccapasso2@hotmail.com
Publicado em 24/04/2014

Almir, cheguei a ver também coisas extranhas no centro,e ainda há, como estátua humana, joguinho de bolinha na tampinha de engana trouxa,vendedor de canudo para bolinha de sabão e pedinte aos montes, parabéns,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 24/04/2014

Almir, existem, sim, muitas figuras interessantes pelo centro. A gente tem é que andar com mais calma, prestando muita atenção, mais cuidado e paciência, voltar pela mesma calçada quando tem a quase certeza de ter visto algo interessante e pitoresco. Sempre vale a pena. Gostei muito as suas recordações. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 24/04/2014

Existem sim Almir, o dia que elas acabarem o Centrão terá chegado ao fim.

Parabéns.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
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