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Categoria - Outras histórias Terra prometida Autor(a): Clesio de Luca - Conheça esse autor
História publicada em 02/04/2014
Era o mês de março de 1967. "Sai de tua terra!". A alusão a Gênesis 12, 1-4, trata da vocação de Abrão. Deus chama Abrão a abandonar sua casa e sua terra para andar pelo caminho que ele mostrar. Abrão é o protótipo da fé.
 
Um pouco antes desse tempo, por duas oportunidades, fiz o exame de quartel para servir o exército. Nas duas chamadas, 1965 e 1966, fui reprovado. O exército brasileiro, na apresentação não quis o meu acesso por uma razão explicável. Não tinha a altura necessária, pois media 1,56m, portanto um pouquinho mais de um metro e meio. Nos anos seguintes, em 1967, dei um salto para 1,72, medida que conservo até hoje. O exército não considerou um possível crescimento e me reprovou. Minha intenção era a formação e a disciplina militar de quartel. Os soldados que procederam à apresentação, na segunda vez, me dispensaram para o serviço militar.
 
Já estava por assumir a “nanice”, pois meu saudoso pai era de estatura baixa. Mas Deus quis que crescesse em tamanho e porte. Muito vaidoso, ansiava uma bela expressão: alto, magro, olhos azuis, cabelos louros, era de tão claro, branquinho, apelidado de queijinho por ser branquinho como um queijo.
 
Tal jovem, exceto pela aparência, já acumulava muitos pecados em sua tenra existência, que Deus pensou que o havia desconsiderado plenamente, pois ali praticava uma formação de caráter e personalidade que haveria de crescer. Um dileto amigo me dizia que tinhas ares inteligentes, o que para meu ego foi um incentivo.
 
Já estava empregado para minha sorte e com carteira assinada na função de auxiliar de contabilidade, pois em meu currículo ostentava o curso técnico de contabilidade, obtido três anos de estudos, feitos na Escola Técnica de Comércio de Criciúma, minha terra natal. Um irmão e colega, Clóvis de Luca, também cursava comigo, apesar de ser dois anos mais velho do que eu.
 
Meu contrato de trabalho era com a Organização Irmãos Campos de São Paulo, localizada no Centro Velho, na Rua Marconi, esquina com Rua 7 de Abril e Barão de Itapetininga. Bastava descer cinco andares e já estávamos na porta do edifício e da cidade de São Paulo. À frente do edifício frontal ficavam a Praça da Sé e o viaduto do Chá, portando do lado direito de quem sobe a Marconi, de fronte ao Mappin, loja de departamentos.
 
Na cidade tinha disposição de tudo: o trabalho a moda, o mundo do rock and roll, aventuras amorosas e as festinhas americanas, as roupas da moda, calças boca de sino, cabelos compridos...
 
Sai de tua terra. Eu precisava de isolamento para desenvolver minha independência, o que não se conquista com a proximidade dos pais e irmãos. Aquela reprovação do quartel havia me tolhido a oportunidade de me disciplinar, nem que custasse ao meu corpo, custasse o que custasse em sacrifícios até sentindo fome. O salário era pago mensalmente, mas para as despesas diárias era preciso dinheiro em caixa e isso eu não tinha, aliás era bem escasso.
 
A hora da refeição era ao meio dia, os lanches eram às 10h e às 16h. Fazia do almoço um lanche na esquina da Rua 7 de Abril, que dá acesso à Praça da República. O bar, sempre movimentado, servia o churrasco grego com os funcionários atendendo no balcão. O cortador ficava na calçada da Marconi. Ao seu lado, uma cesta de pães frescos e fatiados. O churrasco era colocado no pão aberto. Servia-me de um refrigerante caçula e em pouco tempo a refeição havia acabado.
 
O bar de prateleiras comuns exibia garrafas de bebidas para o mais apurado paladar. São registros da memória de quarenta e sete anos atrás.
 
Bom esse tempo passou. O apóstolo São Paulo, na carta aos Filipenses, nos conta em exortação à concórdia e à alegria cristã: “alegrai-vos sempre no Senhor!" (Filipenses, 4,1-23).
Destaco pela afinidade de situação, os versículos 12 e 13: "Sei viver na penúria e sei viver na abundância. Aprendi a viver em toda e qualquer situação: estando farto ou passando fome. Tudo posso naquele que me dá força.”
 
Há algum tempo continuei o meu caminho, a exemplo de Abrão, que sai da sua terra, rumo à terra prometida.
 
O livro de Josué, capítulo 1,1-9, explica o rumo que era destinado a Moisés, líder hebreu agora substituído por Josué, filho de Num, ajudante de Moisés. “Eu vos dou todo lugar que a planta de vossos pés pisar, conforme prometido a Moisés. Se estenderá do deserto e do Líbano ao grande rio, o Eufrates, por toda a terra dos heteus, até o grande mar (Mediterrâneo) a ocidente. Ninguém te poderá resistir enquanto viveres. Assim como estive com Moisés, estarei contigo. Não te deixarei nem te abandonarei.”
 
"Sê forte e corajoso, pois farás este povo herdar a terra que jurei dar a seus pais. Sim se forte e muito corajoso e cuida de agir segundo a lei que Moisés, meu servo te prescreveu. Não te desvies nem para a direita nem para a esquerda, a fim de que tenhas êxito por onde quer que andes. Não cesses de falar desse livro da Lei medita nele dia e noite, para que procures agir de acordo com tudo o que nele está escrito. Assim prosperarás teus caminhos (empreendimentos) e serás bem sucedido. Não te ordenei que sejas forte e corajoso? Não tenhas medo, não te acovardes, pois o Senhor teu Deus estará contigo onde quer que vás".
 
É difícil definir esse caminho, mas as cenas que se passaram em São Paulo, na Rua Marconi, por semelhança à caminhada da terra prometida, cidade esta construída pelos jesuítas. A canonização de José de Anchieta que se avizinha pelo papa Francisco, vai dar a Anchieta a glória dos altares. Anchieta que nascido nas Ilhas Canárias e fundador da cidade de São Paulo junto com o padre Manoel da Nóbrega, evangelizador será canonizado. Para isso lhes atribuem milagres feitos. Ensina a doutrina da Igreja que ele proteja a nossa cidade de São Paulo que junto com Abrão, Moisés, Josué, Paulo repousam na glória do Senhor pelos séculos e séculos, amém.
 
É evidente que as comparações que faço em relação aos atores bíblicos, são apenas uma suposição e se existe semelhanças são mera coincidência.
 
O que posso dizer sobre mim mesmo, dito por uma psicóloga e pedagoga em um curso que fiz, durante um treinamento é que eu era uma pessoa ligada e sendo ligado iria longe. Isso não deixou de ser um estímulo para mim.
 
Essa história eu denomino de “Terra prometida”.
 
E-mail: clesiodeluca@yahoo.com.br
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Publicado em 04/04/2014

Muito bem Clésio pelo jeito toda sua vida foi pautada nas promessas divinas, você veio para a cidade grande, viu e venceu. Hoje relembra tudo isso com gratidão.

Abraços.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 03/04/2014

Clésio, depois de tudo isso veja só que coisa boa, agora temos o Santo José Anchieta , o fundador de nossa querida São Paulo.Parabéns pelo texto, um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 03/04/2014

Parabéns, Clesio. Um primor a maneira como você fez a correlação de passagens de sua vida com o Evangelho.

Enviado por Abilio Macêdo - abilio.macedo@bol.com.br
Publicado em 03/04/2014

Meu irmão mais velho serviu o exército nesta época,e ele queria servir pela necessidade de morar e estudar no quartel que era no Bairro da Agua Fria,pois morávamos em casebre sem água luz e as escolas dos bairros vizinhos tinham no máximo o curso colegial,mesmo assim era muito longe...Passaram-se os anos e meu filho mais velho foi convocado.Fizemos de tudo para livrá-lo,mas não teve jeito,posso lhe assegurar que foi um período difícil.Hoje o exército está falido,só serve quem quer,ou quem os pais estão bem financeiramente,pois eles tem que arcar com a farda ou despesas como refeição ou material de higiene etc...etc...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 03/04/2014

Clésio, chamou-me a atenção a sua vontade de servir o Exército, na nossa época era comum os pais rezarem e até pedir a quem de direito para que o filho não fosse convocado, hoje praticamentre ninguem é chamado e quanto a terra prometida admiro seu amor por São Paulo, mesmo estando aqui por pouco tempo, parabéns,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 02/04/2014

Realmente você citou a Biblia.

Parabéns.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 02/04/2014

BELO TEXTO CLESIO, AGORA SÃO PAULO JÁ ESTA RECEBENDO MAIS UM SANTO E ESSE FOI UM DOS FUNDADORES DA NOSSA CIDADE JUNTAMENTE COM PE. MANOEL DA NOBREGA,NÃO CONFUNDIR COM O COMEDIANTE E CRIADOR DA PRAÇA É NOSSA. NÃO É MESMO? (RISOS).

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 31/03/2014

Correção: Em tempo, ...quase defronte as Lojas Mappin, fica a Rua Quirino de Andrade e não a rua Marconi; no 14º paragrafo, onde está a silaba 'ra', leia-se era.

Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
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