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Categoria - Personagens Inclusão digital Autor(a): Samuel de Leonardo - Conheça esse autor
História publicada em 31/03/2014
Fulano Brasileiro, sujeitinho mal tratado, quatro crianças pequenas para criar, mais a mulher prenha com outra a esperar. Mora bem para lá do fim do mundo, em uma casa, que casa! Acorda cedo, joga uma água no rosto para poder acordar. Beberica uma miserável caneca de café puro, nem um pãozinho para a fome saciar.
 
Corre, passa logo pela catraca e rápido entra no trem apinhado de gente, segue em pé por horas para um ônibus ainda pegar. Desce, padece. Outra condução. Não esmorece, em um esforço de fazer dó.
 
Da vida faz o que pode, é um laço que só ata e não desata, nunca desmancha esse nó. Não reclama, só lamenta um destino melhor. Hoje está contente, se sentindo um cidadão de verdade. A firma onde trabalha, só doutor trabalha em empresa afirma, vai lhe dar um cartão do banco para receber o ordenado, um salário mínimo, ou no mínimo um salário.
 
Já no trabalho veste os EPI’s (Equipamento de Proteção Individual), que luxo. Segue firme na labuta, com coragem e determinação. Somos todos irmãos – fala para os colegas - embora uns sejam filhos de Deus, outros não passam de uns filhos da luta.
 
Hora do almoço: arroz, feijão, quando não tem ovo, tem a sardinha ou macarrão, assim todo dia, servida em uma mísera quentinha, que tinha que ser quente. Engole mais que depressa, tem ainda que passar na farmácia para fiar o remédio da mulher que o homem do rádio anunciou e ainda ir ao banco para sacar com o cartão que acabara de receber.
- Olhe seu Fulano - homem dos recursos humanos passando as instruções - preste muito atenção, não se esqueça de a senha digitar. São quatro números e mais duas letras para decorar, depois é só apertar o botão verde, é mais fácil do que votar.
 
Segue então pensativo e na sua imensa sabedoria fala consigo mesmo – é melhor do que votar, eu aperto e sai dinheiro, uai, quando voto só merda sai.
 
No banco, uma fila que só vendo. Quando chega a sua vez percebe que o papelzinho onde tinha anotado a senha com ele não está. Vai pela memória, digita uma vez e nada, digita outra vez, qual o que. Pela terceira, o caixa engole o cartão. Desolado chama o funcionário que não lhe dá a mínima atenção.
 
Desespera-se - e agora, não posso ir para casa sem o dinheiro. Em um gesto insano esmurra, soca, chuta o painel, em vão. Apanha um pedaço de madeira e desce a lenha naquela chocadeira. Para o seu azar o alarme dispara e de imediato é enquadrado por dois policiais.
 
No distrito tenta se explicar, mas o delegado não dá chance para ele falar e vai logo gritando – Vagabundo bandido ladrão, comigo não - Pede ao escrivão: - põem para tocar piano. Mete todos os dedos na almofada e inclui suas digitais na ficha policial. O pobre coitado não consegue argumentos convincentes. Sem piedade a autoridade manda enjaular o miserável que entre feras se pega a chorar.
 
Divide a cela com mais dez elementos. Só ó Cidão Brucutu, por incrível que pareça se comove com aquela situação – fica assim não mano, a gente logo se costuma.
- Porque você tá aqui? - pergunta Fulano.
- Eu? Eu assaltei bancos pra cacete, e você?
- Acredite se quiser – responde Fulano – um cacete de banco me assaltou!
 
 
E-mail: samuel.leo@hotmail.com.br
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Publicado em 01/04/2014

Samuel, o que me assusta nesta ficção sua, é o quanto ela se aproxima da realidade, e o pior é que na realidade, é mais fácil o Cidão Brucutu sair da cana que o coitado do Fulano.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 01/04/2014

Tanta falta de inclusão que as vezes comete-se o crime de nada se ter, pois do pouco que se tem não está incluso ter qualidade de vida e educar-se para não ser excluído pela sociedade!Boa rima e leitura agradável, parabéns.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 01/04/2014

Samuel, esses casos ficcionais que você escreve me emociona um bocado, porque sempre tem um fundo de verdade. Parabéns. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 31/03/2014

Samuel, por esta razão que sempre insisto em dizer, educação é tudo. Se ele tivesse estudo nada disso estaria acontecendo. Agora que os bancos assaltam, isto é verdade.Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
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