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Categoria - Outras histórias Odiosa realidade Autor(a): Modesto Laruccia - Conheça esse autor
História publicada em 26/03/2014
Gostaria de falar sobre amenidades, sobre infância, escolas, bailes de formatura, sobre famílias, enfim como as redações enviadas por quase todos, nos últimos anos. Assuntos saborosos que encantam todos e dão muito prazer a quem ler e comentar. Gostaria, mas não posso. Não devo ter e ser alegre, feliz, testemunhando uma avassaladora onda de violências, misérias, abandono de crianças que “teimam” em nascer no mais odioso, ingrato e selvagem ambiente que se possa imaginar. Nós, moradores do Parque Continental, Zona Oeste desta nossa querida cidade, eu principalmente, somos quase que partícipes do que vem se formando no extremo final da Av. Antonio de Souza Noschese, onde moro. Um fato aparentemente corriqueiro, mas degradante: o aumento inimaginável de crianças pelos escaninhos e tortuosas vias de acesso aos casebres, na mais imunda, pobre e miserável das condições humanas que já pude assistir.
 
É de cortar o coração ver elas brincando, rente ao asfalto onde passam carros, caminhões, basculantes que descarregam entulhos, lixo, imundices, pondo em risco a vida destas criaturas; de onde vieram esses pequenos seres? Das barrigas de garotas de, no máximo, 15 a 16 anos, em busca do enganoso e deprimente salário família. Habitando casebres de baixo do viaduto, na divisa com o município de Osasco, surgiram do nada, ocupando áreas nas vizinhanças de um grande terminal de gigantes caminhões, sobrevivem em condições... Que condições, que nada! Porque respiram! Isto por baixo do viaduto. Por cima, então, é outra visão antidiluviana: casebres montados rente ao asfalto, de uma pista de duas mãos, estreitas, tão apertada que, se alguma criança sair do casebre e der um passo, só um passo de criança, é estraçalhado por qualquer carro ou caminhão que vem a toda pela via.
 
Pequerruchos, lânguidos, olhos tristes, as meninas sempre mais sensíveis, desde criança, o instinto materno se manifesta nessa criaturinha tão meiga, cuidando de outro menor. Que quadro desolador, quanta tristeza, olhando e pensando, estas crianças poderiam ser meus filhos, netos, minhas sobrinhas, qual é a diferença? Por que nascem com tanto desencanto, tão desprotegidos? E depois, quando crescem (se chegam a isso) o que será da vida deles, quem lhes garante alguma proteção, alguma escola que ampare o futuro deles? Mas eles vão reaparecer, o aprendizado nas ruas, nas aglomerações de marginalizados de tudo que se entende como vida decente e segura, vão reaparecer, vão querer cobrar de nós, seus direitos usurpados ao nascerem.
 
Estas mesmas crianças, já crescidas, armadas por adultos, que também nasceram e cresceram como eles, vão roubar, assaltar, estuprar, bater, matar, violentar com ímpetos de elevadíssimo grau de crueldade, agindo com rancor impenetrável. Na busca de uma razão para tal procedimento, por parte de estudiosos do comportamento humano, tem enorme dificuldade em estabelecer a razão desse hediondo perfil, chegam a conclusões de que não adianta pesquisar porque não estão lidando com seres humanos.
 
De uma coisa podemos ter absoluta certeza, nossa parcela de culpa não é pequena. A ambição desenfreada da sociedade tem seus destemperos na desigualdade abissal dentro da própria sociedade.
 
 
E-mail: modesto.laruccia@hotmail.com
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Publicado em 04/04/2014

Dura realidade de nossos tempos, as mazelas desse nosso Brasil só estão aumentando. Enos sentimos cada vez mais impotentes de fazer qualquer coisa.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 31/03/2014

Infelismente e dolorosamente acredito que ninguém mais muda este país

Quando eu era jovem,ao saber que uma moça engavidava,os pais faziam o casamento e acompanhavam o crescimento da criança, mas isto era de vez em quando em algum bairro.Hoje as meninas aos milhares engravidam não só de um,mas de vários filhos e as vezes ao mesmo tempo que a própria mãe pois parecem fábricas de fazer bebês mãe e filha,e depois despejam na sociedade achando que o governo é que tem que cuidar,dando moradia escola e educação Já escrevi um texto "Quer casa, trabalhe.." e continuo enojada com tanta vagabundice da maioria desta população no qual seu único trabalho é fazer filhos!!!

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 28/03/2014

Modesto, meu caro amigo, a situação é de uma tragicidade inominável. A nossa sociedade tem vícios amargos e, o pior, gosta desses vícios. Exemplo: todos dizem que pagam impostos e, portanto, têm direitos. Claro que pagamos impostos abusivos e temos direitos , mas e DEVERES? Já escrevi muito sobre isso. A sociedade deveria ter obrigações para com os demais, seja oferecendo alguma oportunidade, via voluntariado, ONGs,valorizando muito mais os estudos, menos com o mau desempenho das escolas públicas, mas caminhando, mas, acredito, deveria ser mais intensa a participação social.

Quanto ao seu texto, primoroso como sempre, com emoções sinceras. Parabéns, meu amigo. Um grande abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 27/03/2014

Modesto, sua cronica é real, tem algo de estranho acontecendo nessa cidade, a miséria sempre existiu ela é inerente ao ser humano, mas atualmente é impressionante o que etá acontecendo,invasões e pobreza por todos os lados, hoje dia 27, estive nos fundões da zona sul, altura no nº9.000 da Estrada de M'BOi Mirim, nunca vi tanto barraco de plasticos preto num só local, um morro devastado por invasores, parecia praça de guerra com barracas de lonas para atender os feridos, crianças e adultos numa miseria de dar pena ou não, será que isto não é orquestrado, quanto mais o governo constrói moradia mais aparece esse pessoal, parece formiga, mas é muito estranho, São Paulo ainda é a terra prometida? parabéns pelo tema.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 27/03/2014

caro modesto,concordo plenamente com voce, mas o povo continua votar em candidatos errados. dizem que a dilma vai vencer as eleicoes no primeiro turno. o que fazer, cada povo tem o governo que merece.

o pt esta atolado em corrupçoes, e ninguem faza nada,

e MENSALAO< ESCANDALO NA PETOBRAS,O MINITERIO STF ESTA CONRROMPIDO PELO GOVERNO,

Enviado por João Cláudio Capasso - jccapasso2@hotmail.com
Publicado em 26/03/2014

Caro Modesto essas crianças com certeza não terão um futuro feliz.

Pensei muito nisso, no dia do assalto na minha cidade,essas pessoas com certeza tiveram um infância assim, sem amor, sem pão, sem esperança de futuro.

E revoltadas com a sociedade que não deu oportunidade para eles serem cidadãos de bem.Abraço

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 26/03/2014

Modesto, terrivelmente horrível esta odiosa realidade. Imagine você, que aqui perto de casa, eram em dois, depois passaram a ser três e hoje são em cinco. Vivem como você cita em seu texto e as crianças só aprenderam que para viver é só pedir, elas se baseiam em seus pais. Sinto demais, afinal estas crianças não deveriam estar correndo entre os carros, deveriam ter uma casa descente. Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 26/03/2014

Fica nesta reflexão a seguinte indagação tão pertinente para este texto:

“NÃO IMPORTA O QUE FIZERAM DE VOCÊ, MAS O QUE VOCÊ VAI FAZER DAQUILO QUE FIZERAM DE VOCÊ” (Sartre)

Esta sensibilidade do transcrito acima deveria sensibilizar os governantes para acabar com esse estado de coisa em todo o país.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 26/03/2014

Você esta sendo até modesto com a realidade atual. Os caras pintadas estão sonhando acordado nesse momento. Qualquer hora dessa eles vão despertar e esperamos que mude alguma coisa nesse Brasil varonil. Forte abraço ...

Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
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