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Categoria - Personagens Como cheguei em São Paulo (Parte II) Autor(a): Samuel de Leonardo - Conheça esse autor
História publicada em 26/03/2014
Sofríamos duplamente com as condições das ruas do novo loteamento no São Domingos, quando chovia era barro por todo lado, na seca a poeira dominava todo o ambiente... Exageros à parte, posso afirmar que a cada espirro um tijolinho saia de nossas bocas.
 
Por um período minha mãe cozinhou em um fogãozinho a lenha e a primeira aquisição dos meus pais, via carnê, foi um fogão a gás acompanhado por dois botijões com a marca Heliogas, comprados na Mesbla da Rua Butantã, no bairro de Pinheiros. Junto veio também uma formidável peça, pelo menos para minha mãe, a panela de pressão Rochedo. 
 
Com o passar dos meses outras casas ao redor foram construídas e, no início do ano de 1961, finalmente chegara a energia elétrica instalada pela antiga Light. Daquele momento em diante tudo começou a mudar em nossas vidas. Meu pai adquiriu um extraordinário rádio Semp de 4 ondas, passamos a dormir mais tarde, estávamos expostos à mídia e passamos a fazer parte do “público-alvo”. Meu pai gostava de ouvir a Rádio Piratininga, o jornalístico “Rotativa no Ar” e o “Grande Jornal Falado Tupi”, com os comentários de Corifeu de Azevedo Marques, famoso naqueles tempos. Precisamente às 19h com o tema musical O Guarani e a locução: “Em Brasília 19h”, entrava no ar “A Hora do Brasil”. Bastava para que papai desligasse o aparelho e só após as 20h voltava a ouvir seus programas. Vem dessa época a frase “Não estou nem aí com a hora do Brasil” e sem dúvida alguma o meu encantamento pelo meio rádio. Contudo os menores depois do escurecer não saiam mais à rua, pois acreditávamos que o vizinho da rua de baixo, o velho Elói, virava lobisomem.
 
Em junho de 1961 chega o meu irmão caçula, o Ezequiel, que veio para desbancar o meu espaço, que mesmo precário não deixava de ser o meu espaço, oras bolas.
 
Recordo de uma viagem de trem, em janeiro de 1962, eu, meus pais e meus dois irmãos, saindo da Estação da Luz com destino à cidade de Rinópolis onde moravam minha avó japonesa, era assim que a chamávamos, e todos os irmãos de minha mãe. Residiam em uma grande fazenda de café, eram colonos.
 
Aqui em São Paulo todo domingo era sagrado, encontrávamos com meus avós paternos e meus tios para almoçarmos macarronada com frango e polenta.
 
Todo fim de tarde era comum as vacas do Toninho, ou melhor, o gado do dito cujo passar em frente da nossa casa morro acima em direção à chácara dos Fonsecas. Curiosamente eu não me lembro delas passarem no período da manhã.
 
Com a chegada de novos moradores, a nossa rua que não tinha nome, mas o número 5, começou a ter movimentos de comerciantes. Duas vezes ao dia, de manhã e a tarde passava a carrocinha furgão do Seo Lourenço vendendo os pães, que naqueles tempos eram chamados de filão, e um pouco menor e mais barato a bengala, mais o leite Paulista em garrafas de 1 litro. Eventualmente comprávamos um pão doce que trazia uma cobertura de creme. Era uma briga na hora de repartir a guloseima, ninguém queria ficar com a menor parte, principalmente por causa do creme. Eu, guloso que era e menor, tomava porradas do Daniel. Já naqueles tempos aprendi que o creme não compensa as pancadas que a vida nos dá.
 
Às sextas feiras era a vez do Seu Reinaldo, português, passar com um cesto na cabeça e aos berros anunciava: “sardinha, sardinha, sardinha, peixeirooo!”. As despesas do mês eram feitas antes no Largo do Mercadinho, na antiga Estrada de Itu, atual Avenida Corifeu de Azevedo Marques, homenagem ao radialista da rádio Tupi, e por vezes no Armazém os Gregos. Papai, mamãe e meus irmãos todos iam juntos como se fosse um programa em família e na hora de pagar, em dinheiro, vinha o brinde: uma lata de goiabada Cica, que meu irmão já nas primeiras letras não cansava de ler “se a marca é Cica, bons produtos indica”. Que delícia era comer aquele manjar e depois transformar a embalagem em brinquedo. Assim fazíamos com os carretéis de linha, latas de leite em pó, caixas de fósforos... Meu Deus, como éramos criativos! Também era por necessidade, não tínhamos acesso aos brinquedos. Naqueles tempos as entregas eram feitas em domicílio e não cobravam nada por isso, agora a entrega é chamada de “delivery”, que bobagem.... 
 
Continua...
 
 
E-mail: samuel.leo@hotmail.com.br
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Publicado em 24/06/2014

Você me fez viajar ao passado, um tempo de vida que compartilhamos. Meu pai sempre ia à São Paulo em busca de uma representação, um novo negócio, um lançamento. Um dia voltou a Itabuna-BA, onde morávamos, propagandeando uma grande novidade, um belo e útil presente para minha mãe: "Comprei um aquacilificador". Era um liquidificador.

Enviado por Ygor Coelho - ygor.coelho@hotmail.com
Publicado em 28/03/2014

Bons e velhos tempos né Samuel. Aqui na São Paulo minha cidade a gente volta ao túneo do tempo e mata saudades, graças a milhares de autores que sentem prazer em contar sua história. Parabéns, abraços.

Enviado por joaquim ribeiro oliveira ribeiro - oliveira-joaquim2011@bol.com.br
Publicado em 28/03/2014

Samuel, eu nasci em São Paulo no bairro da Penha e passei por quase tudo isso que você relata. Minha mãe teve fogão com botijão de querosene, depois que veio o gás. Criatividade realmente não nos faltava e ainda hoje quando minha neta vem ficar aqui na casa da vovó, faço pra ela brinquedos com caixas de papelão, barbante, fitas e etc. Ela adora me ajudar na construção e depois cuida com carinho. Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 28/03/2014

Ótimo, Samuel. Parabéns pelo texto. Você nos faz visualizar a realidade com perfeição. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 26/03/2014

Caro colega, vida difícil né?

Eu cheguei em Sampa em 1962 e não foi nada fácil também.

E estamos aqui para contar nossa história.né?

Um abraço

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 26/03/2014

Samuel . Cada um de nós passamos por quase tudo isso, cada um em seu bairro. No Tatuapé não tinha as marginais, Radial Leste e Metro. As pontes sobre o Tiete eram de madeiras. Única diferença é que tínhamos a luz elétrica. Comecei a trabalhar em Osasco em 1958 e trafegava pela estrada de Itu (Antiga Corifeu) e não era asfaltada, um poeirão danado. Lindas lembranças e aguardamos o complemento. Forte abraço ...

Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
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