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Categoria - Personagens Senhorinhas Autor(a): Abilio Macêdo - Conheça esse autor
História publicada em 25/03/2014
Quem não conhece alguma história pitoresca envolvendo essas doces (às vezes nem tanto) senhorinhas que fazem parte da nossa família ou da dos amigos ou até desconhecidas que encontramos pela cidade?
 
Nem é preciso considerar as que tiveram a participação das nossas mães, porque de tão habituados, nada mais que elas façam nos surpreende e acabamos achando tudo natural.
 
Senhorinhas sempre tem alguma coisa para nos ensinar e normalmente dedicam seu tempo apenas às coisas úteis e interessantes e não gostam de futilidades.
 
Tenho certeza que todas aquelas senhorinhas, personagens de filmes, livros, programas de TV e até de desenhos animados foram inspirados em pessoas reais.
 
Imagino que a cada dia ocorram muitos casos dignos de registro com essas senhorinhas, e considerando as previsões de que no futuro a média de idade da população da cidade de São Paulo será maior, o número tende a aumentar.
 
Vou contar aqui três casos, sendo que o primeiro, que me fez lembrar os outros dois, aconteceu na semana passada e poderá até evitar que alguém também perca seu tempo ou tenha um transtorno maior.
 
 
1.
 
Recebi pelo correio um novo cartão magnético do banco e, seguindo as orientações, solicitei o desbloqueio por telefone e depois fui até um caixa 24 horas para fazer uma operação.
 
Tentei em três caixas diferentes e em todos apareceu a mesma mensagem de erro de leitura e que eu deveria procurar o balcão da agência.
 
Fui atendido por uma atenciosa funcionária que, depois de ouvir minha explicação, levou meu cartão até um terminal em sua mesa onde digitou alguma coisa, depois fez uma cara de dúvida, em seguida chamou um colega, que também ficou em dúvida, então falou com alguém por telefone, retirou e inseriu o cartão novamente no terminal, digitou mais alguma coisa e finalmente balançou a cabeça em aprovação e abriu um sorriso.
“Até que enfim resolveu” – pensei eu.
Foi ainda sorrindo que ela se levantou e veio me devolver o cartão:
- “Está com defeito. O senhor tem que solicitar um novo, mas tem que ser na sua agência” (do outro lado da cidade).
E voltou para sua mesa e me deixou lá com cara de bobo.
 
Resignado, já ia embora quando uma senhorinha que estava ao meu lado no balcão, com um ar impaciente e autoritário, me pediu o cartão:
- “Deixa eu ver!”
Minha vontade era não dar, mas ela praticamente o pegou da minha mão.
Sem dizer nada, ela usou a unha para tirar um pedaço da etiqueta colada no cartão, onde constava telefone da central de atendimento do banco e outras informações:
- “Toma. Vê se agora funciona!”
- “Mas a senhora rasgou o numero do telefone...”
 
Ela me fuzilou com os olhos:
- “Ah...meu filho esse telefone tem tudo que é cartaz espalhado por aí. Pega uma caneta e anota!”
 
“Era só o que me faltava...”, pensei eu, aborrecido. Guardei o cartão com a certeza de que aquela senhorinha tinha algum problema, e na saída, passando a área onde ficam os caixas 24 horas, como não havia fila, resolvi arriscar mais uma vez e adivinhem... O cartão funcionou. Para ter certeza, fiz outra operação em outro caixa e também funcionou.
 
Já com noção do que poderia ter acontecido, entrei novamente na agência para agradecer a senhorinha, que já estava de saída, mas ela nem me deixou falar:
- “Como é que a máquina ia ler o cartão com a ponta da etiqueta colada em cima do chip? Ninguém presta mais atenção em nada! Vai lá e ensina a aquela mocinha que ela é funcionária nova!”
 
 
2.
 
Anos 1980. Seguia de metrô quando na estação São Bento entra uma senhorinha com roupas humildes carregando uma sacola. Alguém se levanta e lhe oferece o lugar. Após a parada na Estação Luz, no momento em que soa o aviso de fechamento das portas, uma mulher pega alguma coisa na bolsa da senhorinha e sai apressadamente do trem.
 
Sem a mesma agilidade, a senhorinha ainda tenta acompanhá-la, mas não cosegue. Ela se desespera e começa gritar e bater na porta que já havia se fechado. Cambaleando, é amparada pelas pessoas e volta a se sentar. Chorando, a senhorinha explica que a mulher tinha roubado o dinheiro da pensão do marido, que tinha acabado de receber, e agora não teria como pagar o aluguel nem comprar seus remédios.
 
Ficamos toso penalizados e sem saber o que fazer. Foi aí que um rapaz articulado e bem vestido apelou para nossa solidariedade, pedindo que contribuíssemos para pelo menos amenizar o prejuízo daquela pobre senhorinha:
- “Vovó, eu só posso lhe dar esse dinheiro (calculo, hoje, algo em torno de vinte reais), mas se cada um também puder colaborar, a senhora não vai passar necessidade. Pessoal, vamos ajudar a vovó que foi assaltada.”
 
Teve até gente até fazendo discurso em favor da pena de morte e foi até comovente ver as pessoas se aglomerando para dar dinheiro à senhorinha.
 
Alguns meses depois, agora indo de trem para São Caetano, ouvi um alvoroço no final do vagão. Continuei sentado, lendo meu jornal, mas apesar do barulho do trem e do burburinho das pessoas uma ou duas frases me chamaram a atenção.
 
“Engraçado. Parece que já ouvi isso. E essa voz não é estranha...”- pensei eu tentando me lembrar. Apurei os ouvidos e logo caiu a ficha. “Será possível? Não pode ser...” - pensei.
 
Levantei e fui até lá. Adivinhem quem eu encontrei? A mesma senhorinha e mesmo rapaz articulado repetindo aquela cena do metrô: Ele pedindo contribuição das pessoas e ela chorando e sendo consolada.
 
Fiquei revoltado:
- “Já vi esses dois dando esse golpe no metrô.”
Quando eu falei isso, o rapaz se enfiou entre as pessoas e desapareceu, passando para outro vagão. A senhorinha já foi devolvendo o dinheiro que recebera e tentando se justificar:
- “Eu só fiz isso porque sou viúva, não posso trabalhar e tenho um filho doente, mas eu não roubei ninguém, só me deu dinheiro quem quis.”
 
Não me arrependi do que fiz, mas senti um pouco de pena quando chegamos à estação da Mooca e vi a senhorinha saindo de cabeça baixa e puxando de uma perna.
 
Mas foi por pouco tempo, porque quando o trem partiu novamente, a senhorinha o acompanhou até o final da plataforma, andando normalmente, e naqueles poucos segundos, ela me dirigiu pela janela quase tantos palavrões quanto a torcida do Corinthians quando o juiz anula um gol do seu time.
 
 
3.
 
Anos 1990. Eu e uma colega do trabalho chamada Dinorah fomos almoçar no restaurante “O Gato que Ri”, no Largo do Arouche. Já estávamos na porta do restaurante quando passou uma senhorinha com um cachorrinho York Shire no colo. Apaixonada por cachorros daquela raça, da qual ela tinha dois em casa, Dinorah não resistiu e foi falar com a senhorinha.
 
Foi aquela conversa típica de dono de cachorro: “Que gracinha / Qual o nome dele / Quantos anos ele tem? / Que pelo lindo / Qual ração ele come? / Ele tem mania de...”, e por aí a fora.
 
Tudo ia bem, com a senhorinha feliz e orgulhosa com os elogios, até que Dinorah cismou que o cachorro estava com sede.
- “Não esta não, filha. Ele bebeu água agorinha mesmo quando saímos de casa” – disse a senhorinha.
 
Mas Dinorah insistiu e entrou correndo no restaurante e voltando uma garrafa de água mineral e uma daquelas embalagens descartáveis de comida para viagem. Não sei como coube tanta água dentro de um cachorro daquele tamanho. Parecia que o coitado do bichinho estava há uma semana sem beber água.
- “Não falei?” –disse Dinorah.
 
Pensei que a senhorinha fosse agradecer, mas para nossa surpresa, ela ficou muito brava e começou a gritar com o cachorro.
- “Você não pode fazer uma coisa dessas comigo. Isso é só para a moça pensar que eu não cuido de você. Seu ingrato!”
 
E depois explicou:
- “Ele morre de ciúmes do meu neto. Toda vez que o menino vai lá em casa não pode nem chegar perto de mim que esse danado avança nele para morder. E depois fica de birra e fazendo malcriação desse jeito.”
 
Dinorah, sem graça, então tentou contornar a situação, consolando a senhorinha e fingindo dar uma bronca no cachorro:
- “Ai! Ai! Ai! Que coisa feia!Fazendo a mamãe ficar triste. Não pode fazer assim.”
 
Que cena...
 
- “Não fica triste. Ele tem ciúme porque gosta muito da senhora.”
-“ Você acha, minha filha?”
- “Claro. Lá em casa é a mesma coisa. Eles são igual criança.”
- “Mas não precisava fazer isso na frente de vocês.”
- “Será que a senhora não deu nada para ele comer depois que saiu de casa?”-perguntou Dinorah
- “Não, nada...”
 
Então a senhorinha tirou da bolsa um pacote de biscoito de polvilho já aberto e pela metade.
- “Só uns biscoitinhos. Eu não deixo ele comer em casa porque ele faz muita sujeira.”
- “Acho que esse biscoito é muito seco...” - ponderou Dinorah.
 
Despedimos-nos com a senhorinha já mais calma. Quando terminamos o almoço e pedimos a conta o garçom nos avisou que já havia sido paga.
- “Quem pagou?” – perguntamos, procurando algum conhecido no salão.
- “Ela mandou dizer que foi a mãe do Valter.”
- “Que fofa.” – disse Dinorah.
- “Mãe do Valter? Que Valter?” - perguntei
 
Valter era o nome do cachorrinho e sua “mãe” a senhorinha.
Que fofa.
 
 
Posso estar enganado sobre os dois pontos abaixo, e peço que me corrijam se for o caso:
“Senhorinha” embora seja um termo antigo, passou a ser usado com mais frequência depois da onda do “politicamente correto”, substituindo “velhinha”, considerado depreciativo.
Penso que isso teve início na cidade de São Paulo, onde o ouvi pela primeira vez e o ouço com mais frequência, além de ser muito pouco usado ou até desconhecido fora daqui.
 
O comportamento de crianças, jovens e adultos de hoje é muito diferente dos de antigamente, principalmente pela evolução da tecnologia e necessidades da vida moderna, mas observo que isso não aconteceu com as senhorinhas, que praticamente nunca mudaram seus hábitos.
As senhorinhas que conheço hoje são idênticas às que conheci há cinquenta anos, aliás, nunca vi nenhuma senhorinha viciada em telefone celular, usando o aparelho durante as refeições, ao mesmo tempo que conversam com outras pessoas, andando pela rua, na igreja, no metrô...
 
E-mail: abilio.macedo@bol.com.br
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Publicado em 27/03/2014

Abílio, seu texto quer dizer que os canalhas também envelhecem, tanto homem como mulher, deu oportunidade para a mulher ela se iguala ao homem no crime, na malandragem,e também nas boas atitudes parabéns.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 26/03/2014

Abilio, certa ocasião uma senhorinha deu-me um golpe, pela sua conversa fiquei com dó e dei todo dinheiro que tinha na carteira.Passado alguns dias, a mesma senhoria tentou dar o golpe em minha filha que a reconheceu. As senhorinhas existem e vão sempre existir. Muito bom seu texto, um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 26/03/2014

Três simpáticas histórias do cotidiano, muito bem escritas, com detalhes significativos, alertando para estarmos sempre preparados. Bem distribuidos, os parágrafos contendo diálogos bem concatenados. Parabéns, Abilio.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 25/03/2014

Abilio, as senhorinhas de hoje são as mesmas de ontem, os jovens de hoje com certeza amanhâ estarão diferentes, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 25/03/2014

Muito legal, Abílio. Existem senhorinhas de todo jeito, afinal as mulheres simplesmente ficam mas velhas. As que tê honra, permanecem na sua beleza, mas as que não têm...

Parabéns e receba o meu abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 25/03/2014

Abilio- Lindo - Muito gostoso de ler e alegrar essa tarde aqui em Vera. Forte abraço...

Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
Publicado em 25/03/2014

Cômico se não fosse triste...quantos de nós já presenciamos golpes de todos os gêneros e idades,os meios de comunicação mostram sempre...Mas a do cartão magnético do Banco é o exemplo de como nós correntistas somos atendidos por pessoas de má vontade e que no fundo tem muita preguiça ou sabem menos que nós.

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
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