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Categoria - Personagens Indigente Autor(a): Samuel de Leonardo - Conheça esse autor
História publicada em 24/03/2014
Andando pelas ruas desta cidade é comum vermos pedintes em profusão. São meninos, são meninas, jovens e velhos sem outra opção a não ser esperar o que não se sabe. Cada um segue em sua sina se assim podemos chamar, atirados à sorte, que sorte? Quanta indignação.
 
Ao vê-los caminhando ou estendidos pelas calçadas -  calçadas da vida, calçada de toda gente, calçada do indigente, os observo e fico a pensar de onde teriam vindo tantos indivíduos, como chegaram a esta situação e quantos deles tiveram uma família, um dia um lar ou quantos puderam frequentar um banco de escola? Quantos? Então me pergunto o que os teria levado a este estágio e os transformados em escória da sociedade. Não tenho resposta.
 
Como ficar sem a solução contraria o meu sentido de ser e para confortar o sentimento de cólera insisto em querer adivinhar quem teria sido aquela criatura, escolho aleatoriamente um infeliz e fico a imaginar a sua trajetória de vida até chegar à fase em que se encontra e traço um paralelo. Então em meus devaneios enumero dezenas de situações:
Vejo um homem vestindo uma surrada camiseta da seleção brasileira, se escorando em um par de muletas com pinta de que foi um jogador de futebol, mas hoje não marca mais gols, está impedido. Uma senhora portando velhos óculos sem lentes trajando trapos e carregando um amontoado de livros e revistas velhas junto ao peito tem o jeito de professora daquelas dedicadas. Pobre alma muito ensinou, pouco recebeu.
 
Observo ainda outros elementos, como um velho sentado no banco do jardim alimentando os pombos, com aspecto de apresentador de programa de humor, a praça é só dele. Ainda, a senhora mulambenta vestida de negro do outro lado da rua segurando um terço, que repetidamente olha para o céu, abaixa a cabeça e faz o sinal da cruz, voltando a olhar para o alto, vai ver foi uma freira e fez o voto da pobreza.
 
O interessante é que em todas essas minhas imaginações não consigo ver ninguém com aspectos de político, ainda não vislumbrei um miserável sequer.
 
Em uma das idas ao centro antigo, em um dia normal se é que possa existir normalidade em uma cidade tão anormal o acaso marcou presença. Seguia apressado pela Rua Direita em direção à Praça da Sé quando, repentinamente, uma figura esquelética saída sabe-se lá de onde com um boné branco encardido cobrindo uma vasta cabeleira, rosto abatido e barbas branqueadas pelo tempo, camiseta estampada com a foto de um famoso político para diante de mim e surpreendentemente chama pelo meu nome, não só pelo primeiro, mas completa com o sobrenome e até o apelido que eu tinha nos tempos de escola.
 
Evidentemente fiquei estupefato, até porque eu não estava portando um crachá que me identificasse e sem entender direito o que acontecia perguntei:
- Como sabe o meu nome, você me conhece?
Com voz rouca e ofegante, um hálito insuportável e me encarando:
- Claro! Citando o meu nome. - Fomos amigos de escola nos tempos do ginásio. Já se passaram mais de vinte anos e vejo que você pouco mudou. Não envelheceu como eu. - tosse muito e sem cerimônia vira-se para o lado e escarra uma grande quantidade de sangue que se espalha pelo chão.
Entre uma tosse e outra espontaneamente responde com um sorriso desdentado: 
- Se me pagares um rango, eu lhe dou uma dica.
Acometido por uma sensação de desconforto tento abreviar o diálogo:
- Está bem, então fale logo que eu lhe pago o almoço.
Inesperadamente sou agarrado pelo homem que estende seus braços entrelaçando-os ao redor do meu pescoço e em um gesto de desespero pronuncia uma vez mais o meu nome e dá um agonizante suspiro. Antes que pudesse me desvencilhar da situação os seus membros se soltam e escorado ao meu corpo o cadáver lentamente escorrega até sucumbir aos meus pés batendo com a cabeça na dura calçada, provocando um ruído que ainda ecoa em meus ouvidos.
 
Olho para a minha camisa branca e uma lista vertical vermelha escura e gosmenta deixada pelo deslizamento do corpo se confunde com a gravata causando-me náuseas. Enquanto pessoas se aglomeram ao redor do corpo abro caminho e atônito procuro um local para me limpar.
 
Por mais que eu me esforce não consigo identificar aquela pessoa com a qual provavelmente convivi um dia, nem tampouco projetar um personagem. Lembro-me com nitidez do odor fétido e dos olhos negros e profundos a me fitarem como que pedindo por socorro.
 
 
E-mail: samuel.leo@hotmail.com.br
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Publicado em 26/03/2014

Já tirei um amigo da rua dormindo em bancos,um sr. projetista,amigo de infância,até a filha abandonou-0,é ainda diz que é culta,estudiosa,o sujeito deu tdo. a eles,Tudo. Virou mendingo,dormiu as vezes nos bancos da Igreja-Comercio,dentro de guaritas dos "seguranças de rua",etc.

Muito triste os indigentes ou não.

Enviado por Vilton Giglio - viltongiglio25@gmail.com
Publicado em 25/03/2014

Samuel, cada uma dessas pessoas devem ter um motivo para chegarem a tal estado de penúria, pode ser familiar, desilusão amorosa enfim, só Deus sabe as razões, merecem pena, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 25/03/2014

Samuel, toda vez que me deparo com o que você tentou mostrar eu sinto como se todo a peso do mundo apoiasse em minhas costas. Não suporto ver humanos relegados a este estado.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 25/03/2014

Vamos fazer um trato, de Leonardo, de início vou encarar essa crônica, muito bem redigida por sinal, como realidade.

No seu preâmbulo, vc prepara o encontro com o infeliz que reconhece vc de algum lugar ou época, nos extertores de uma vida miserável. Até hoje vc não lembra dele, apesar de contar com boa memória, demonstrada pela descrição com que vc presenteia seus leitores, explorando detalhes do cotidiano, sobre o muco sangrando lambuzar sua camisa branca, (que nojo...),etc.

Agora se for ficção, vc usou e abusou do neo-realismo do saudoso cinema italiano. Bem engedrada, cenas que deixam de ser rotineiras, apesar de se tratar vulgaridade, vc consegue levar o leitor até o final pedindo mais. Parabéns, Samuel.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 25/03/2014

Conteúdo pesado e depressivo de se ler.Cada vez que vejo um mendigo ou pedinte na rua ,meu coração dói...Nunca mais fui ao centro de S.Paulo naquelas ruas e praças fatídicas onde existem centenas deles espalhados por todos os lugares nem as igrejas escaparam...

Nos lugares e faróis por onde ando até tem alguns que já me familiarizei com a presença deles,estou sempre lhes dando algo,seja um lanche ou até mesmo dinheiro no qual eu sei que se transformará em droga,mas as vezes a gente enxerga a necessidade dele e sabe que ele não quer roubar para se drogar por isso pede...e eu ajudo por saber que é um infeliz viciado em drogas e não um ladrão.

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 24/03/2014

Samuel, dar visibilidade com alguma ação pontual é o mais complicado e, certamente, algo quase impossível de um cidadão comum fazer. Como sempre, um relato de um excelente escritor. Um abraço, meu querido.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 24/03/2014

Samuel - É o mundo em que vivemos hoje. Acontecem coisas que nem acreditamos, só passando com agente para acreditarmos.É um mundo precisando da presença de Deus. Forte abraço ...

Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
Publicado em 24/03/2014

Emocionante!

Qualquer um pode ir para a sarjeta se parar de lutar pela vida.

Quanto aos meninos, ainda tem tempo, se os governantes pensarem menos em si mesmos e mais naqueles que os elegeram.

Mais escolas,mais trabalho, acho que ajudaria para que a sociedade fosse mais justa e mais humana.

Um abraço

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 24/03/2014

Samuel, que surpresa foi pra você este encontro inesperado!Já soube de vários encontros de amigos, mas como este que você relata é o primeiro. Dos meus amigos do ginásio, soube de apenas um que se deu mal na vida. É triste saber que alguém que frequentou a mesma escola se perdeu pelo mundo.Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 24/03/2014

A vida nos prega cada peça, já encontrei com pessoas que me reconheceram depois de decadas,em estado lamentável, mas não como no seu relato, esse caso é um alerta para quem não segue as regras de uma vida normal, parabéns.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
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