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Categoria - Personagens O apagão Autor(a): Samuel de Leonardo - Conheça esse autor
História publicada em 21/03/2014
Duarte desde muito jovem sempre se mostrou esforçado, além de sua capacidade eminente, tinha gosto pelos estudos. O legítimo nerd como comentavam as pessoas que o conheciam. Passou por todos os estágios escolares com louvor, formou-se em Administração em uma conceituada universidade pública e nunca mais parou de evoluir, como profissional.
 
Nunca pensou em se casar, não tivera tempo sequer para namorar, apenas ficava o tempo necessário para satisfazer os seus instintos. Amigos, na verdade nunca os teve, apenas os chamados puxa-sacos que não são amigos, são os interesseiros; ainda mais agora que mal chegara aos trinta e cinco e já ocupava importante cargo em uma grande empresa multinacional, diretor de novos negócios, responsável pelas contas dos mais importantes clientes do planeta.
 
Residia com a mãe em um luxuoso condomínio nos arredores de São Paulo. Como fazia todos os dias ainda cedo, se dirigia para o trabalho e era sempre o primeiro a chegar e o último a ir embora. Reuniões em cima de reuniões, viagens e mais viagens, cursos de especialização, MBA, Pós nisso e naquilo, curso da língua alemã e até de mandarim, cursos e mais cursos. Há anos não sabia o que era a palavra férias, mas conjugava o verbo trabalhar em todos os idiomas e em todas as formas usuais e possíveis.
 
Academia de ginástica, nem pensar, entendia ser tempo perdido. Era coisa de quem não tinha o que fazer. Vida social somente eventos de cunho profissional ou de negócios desde que agregassem algo substancioso ao seu cabedal, jamais sacrificaria momentos de sua existência para ficar com conversinhas inconvenientes, improdutivas. Considerava ser imprescindível no trabalho. Tentara o tênis, o hipismo, a natação, mas tudo o aborrecia e não dava sequencia à nenhuma atividade, sequer ao lazer. O mundo em que vivia então abrangente para ele, na verdade era apenas uma condensação de um mundo maior que a sua ambição. Quando havia um feriado, nem pensar, ficava irado, pois era perda de tempo. Invariavelmente levava trabalho para casa.
 
Nos últimos dias vinha percebendo que sua memória falhava, não conseguia lembrar-se de imediato dos compromissos, de simples senhas e de números de telefones. Tornara-se ainda mais ríspido às reuniões. Fatigava-se constantemente, sentia apertos no peito e fortes dores de cabeça, mas como era jovem, pensava que um final de semana na Riviera resolveria. Mas como sempre adiava para outro final de semana e mais outro e mais outro. Não se abria com ninguém, era autossuficiente.
 
Em uma manhã quando seguia para importante reunião de negócios bruscamente estaciona o automóvel em plena Avenida Vinte e Três de Maio, atrapalhando ainda mais o tráfego já tão caótico. Os agentes de trânsito agem com rapidez e deparam com ele dentro do carro com aparência de alguém fatigado ao extremo. É então retirado do carro e como não apresentava gravidade submeteu-se a um breve interrogatório e logo foi dispensado, pois deduziram tratar-se de uma pequena indisposição do motorista e que o mesmo já estava em condições de prosseguir.
 
Sem saber para onde ir limitou-se em seguir o fluxo até parar em um posto de combustível, porém já não conseguia se lembrar de absolutamente nada, nem do próprio nome, quem era e o que fazia.
 
Saiu do carro sem os seus pertences, deixando a chave no contato. A pé sem a mínima noção de onde estava e para onde ia, seguiu por uma avenida, a esmo caminhando para lugar algum como que conduzido por um controle remoto cujo controle não estava em suas mãos.
 
Poucos sentiram a sua falta. O carro e os pertences foram encontrados intactos. Um boletim de ocorrência foi registrado. Suspeitas sobre possível sequestro foram levantadas, mas nunca houve pedidos de resgate. Desde então se tem discutido onde andaria o Duarte. No início a mídia divulgava algumas notas do seu desaparecimento e fotos, porém decorrido algum tempo outros desaparecidos ocupam aquele espaço do jornal.
 
Sua mãe estressada pela incerteza embarcou com o novo namorado em um cruzeiro para a Europa sem ideia do retorno. Na empresa outro profissional hoje ocupa o seu lugar.
 
 
 
E-mail: samuel.leo@hotmail.com.br
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Publicado em 25/03/2014

Oh!!Samuel,me perdoe o êrro,no comentário quiz dizer: "Para que muitos Duartes repensem sua vida..." e acabei repetindo seu nome.Eu tento me policiar para não escrever,atender telefone e falar com alguém ao mesmo tempo,mas....as vezes escapa pois faço isso no período de trabalho.Me desculpe!!! Walquiria

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 25/03/2014

Nossa Samuel, esta foi para que muitos Samuéis repensem sua vida...já tivemos históris diversas neste site de colegas que lembraram a falta de tempo dos pais para eles,e deles próprios quando adultos,também não tiveram tempo para os pais...mas que agora tentam ter tempo para seus filhos por saberem o quanto isto é importante para ambos...sem contar que a maioria já estão na fase dos netos...

O que chocou mais foi o embarque da mãe,com o namorado para a Europa isto nos deixa bem claro que só recebe amor preocupação e carinho quem também o oferece...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 24/03/2014

Sobre o texto "O apagão" publicado em "São paulo minha cidade" e comentado por alguns leitores, tenho a dizer

que ele alcançou os objetivos, isto é, fazer refletir o "Duarte" que existe em cada um de nós que muitas vezes vive

para o trabalho em metrópoles que, paradoxalmente, ao mesmo tempo em que engole a nossa individualidade nos faz ser apenas mais um número nessa imensa cadeia de competitividade.

O Duarte (Pseudônimo) foi inspirado em um colega de trabalho que de tantos afazeres se afastou de todos.

O Duarte pode ser eu, você, um amigo, quem sabe?

Grato pelos comentários.

Enviado por Samuel de Leonardo - samuel.leo@hotmail.com.br
Publicado em 23/03/2014

Samuel,uma pena o Duarte ter sumido dessa forma. Espero que o encontre e possa ser tratado.Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 22/03/2014

Desculpe, Samuel, se foi um texto ficcional, esqueça o que eu disse na primeira apreciação. Se o Duarte nunca teve namorada e amigos, como vc sabia destes detalhes... A narrativa está muito bem contornada, compreencível, bem redigida. Parabéns.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 21/03/2014

Samuel, mais uma vitima do estress causado pelo excesso de trabalho e a loucura da cidade grande, onde andará o Duarte? parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 21/03/2014

Há certas histórias que intrigam nosso raciocínio e nos faz pensar porque sempre pensamos no futuro esquecendo o momento presente! Esta história é um caso de investigação em todos os campos da ciência para entender o que é ser humano no conteúdo global do sistema e nossa contribuição na sociedade.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 21/03/2014

Samuel, vou te contar um segredo: eu tinha essas tendências e sempre trabalhei ferozmente. No final da minha vida profissional, uma colega, professora de Português e uma coordenadora - conhecida pela sua ignorância - deram um jeito de me arrastar o tapete. Exausta ao extremo, pedi acordo e saí dali. Hoje sou grata a elas. Gratíssima. Hoje trabalho decentemente, cuido da casa, faço até curso de música, de cerâmica... nessa semana fiz até um curso de comida de boteco e estou felicíssima, longe daquele inferno de vida que eu mesma havia me imposto. Espero que o Duarte tenha se emendado. Se não nessa vida, na próxima. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 21/03/2014

Samuel, quase que eu entrei na do Duarte, mas certo dia, cheguei em casa, peguei meu filhinho no colo e ele chorou compulsivamente, porque me estranhou. Não me conhecia direito. Dei um breque, graças a Deus.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 21/03/2014

Samuel, desculpe, não estou duvidando de nada de sua crônica, porem se o Duarte tinha realmente o perfil que vc nos apresentou, como vc sabia seu nome e como vc tomou conhecimento de sua regradíssima vida? Se era seu amigo, que tipo de relacionamento (se é que existia)vc tinha com ele?

Parabéns, Samuel, pela... ah, deixa pra lá.

modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
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