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Categoria - Personagens Como cheguei em São Paulo (Parte I) Autor(a): Samuel de Leonardo - Conheça esse autor
História publicada em 20/03/2014
“Mas o que conforta mesmo é saber que nessa imensidão de mundo composta por plurais eu sou um singular vencedor” (frase de eu mesmo)
 
 
Não surgi como Macunaíma, mas de certa forma nasci no mato, de cara suja e de bunda limpa, mais precisamente em uma fazenda de café, auxiliado por uma parteira. Assim cheguei neste mundão de meu Deus, lá pelos anos de 1956, em um dia de Iemanjá, 02 de fevereiro, por volta das sete da manhã, quase na hora do almoço para aqueles camponeses que ali viviam. 
 
Nasci sob o signo de aquário e no dia da rainha das águas, que na verdade não significava nada naqueles anos em que o calendário era em preto e branco, e na cidade de Inúbia Paulista, que só passou a ter esse nome três anos após o meu nascimento - antes era um distrito de Lucélia de nome Ibirapuera, o que quer dizer que sou mais velho que minha cidade natal (O então distrito de paz Ibirapuera, em 18 de fevereiro de 1959, pelo Decreto Lei número 5.282, foi oficialmente elevado a município, com o nome definitivo de Inúbia Paulista, comarca de Lucélia desde 1949. O decreto somente foi posto em execução no dia 1º de janeiro de 1960 e é o marco de criação do município).
 
O que poderia saber de astrologia e de cultura africana a Maria? Uma pobre e jovem lavradora semianalfabeta, filha de pai brasileiro e de uma genuína japonesa, somada a um marido, o Antonio, filho de italianos portando nas mãos calos deixados pela enxada e as marcas nos rosto cansado de tantas colheitas do café e do algodão, eventualmente recebia informações pelas ondas sonoras de um precário aparelho de rádio de galena.
 
Conta minha mãe que naquele segundo dia do mês de fevereiro relampeava e trovejava tanto que ao nascer nem ouviram o meu choro, é por isso que hoje choro bem alto para que todos me ouçam. Freud explica, é trauma. Vim fazer par com o meu irmão Daniel, o Nenê, quatro anos mais velho. Fui registrado com a alcunha de Samuel de Leonardo apenas e recebi da família o carinhoso nome de Tuti, até hoje pronunciado pelos familiares, mas confesso que faltou acrescentar um ingrediente que daria um belo complemento à macarronada, o sobrenome Omya.
 
Como fizeram milhares de caipiras no final dos anos 50, meus pais em busca do eldorado também vieram para São Paulo trazendo na bagagem meus avós paternos, Luis de Leonardo e Hermínia Bertolin, mais os meus quatro tios:  Salvador, Onofre, José e Joel - dos quais dois ainda eram menores de idade. Como a família era grande, fixamos residência em uma chácara no quilometro 14 da Rodovia Raposo Tavares. Dias difíceis aqueles, contavam meus avós. Pouco trabalho, pouca comida e um frio de matar.
 
Com dignidade meu avô tocava a lida na chácara e subsistíamos com o que ali se plantava: verduras, mandiocas, muitas abóboras, muitos chuchus e criação de galinhas. Desde criança aprendi a gostar de galinhas. Meu pai ingressou na construção civil, foi ser servente de pedreiro. O que poderia mais conseguir um semianalfabeto que dos 30 anos vividos frequentara a escola apenas dois?
 
Decorrido pouco tempo o meu pai consegue ingressar na Prefeitura Municipal de São Paulo, no cargo de gari, com isso passara a ganhar um pouco mais. Assim como todo brasileiro, a casa própria era o seu sonho. Com muito sacrifício consegue adquirir um terreno em um loteamento novo em São Domingos, lá pelos lados do Butantã.
Lembro-me vagamente dos dias vividos na chácara, a bola colorida, presente dada pela mulher que era a dona do local, a minha queda de cima do barranco quando soltava bolhas de sabão com canudo de talo de mamona feita pelos meus tios... Tenho vivo em minha memória, quando aos três anos pela primeira vez entrei em um veículo motorizado, um caminhão. Foi o dia da mudança para a casa nova, um cômodo apenas, perdido em uma imensidão de terra vermelha, mas que para nós era um lar. 
 
De frente àquela casinha olhando um pouco mais para alto podia-se avistar um imenso milharal e uma imagem feita com uma colcha de retalhos em várias tonalidades de verde repleta de verduras. Era a chácara dos Fonsecas. À direita uma estreita rua subia rumo às casas que se perdiam de vista espalhadas colina acima. À esquerda, a poucos metros da casa, uma imensidão de sapezais e, mais abaixo, um córrego com várias taboas ao seu redor. Ainda ao longe uma estradinha que terminava em uma granja e um pouco mais à frente podia-se contemplar os telhados de uma olaria. Aos fundos outra colina em menor escala onde a uns 200 metros passava uma estrada de terra batida, caminho principal daquele então modorrento lugarejo onde existia um comércio capenga formado basicamente por uma única avenida que abrigava uma padaria, a farmácia do Zé, o salão de barbeiro do João, o Ligeirinho, o Armazém dos Gregos, um açougue que não me recordo o nome do dono, e mais de uma dezena de botecos, desses onde o estoque principal é variado, variado nos tipos de cachaças, e ainda as mesas de bilhar. Perceba que morávamos em um grande buraco.
 
 
 
E-mail: samuel.leo@hotmail.com.br
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Publicado em 25/03/2014

Lendo um tanto atrasada esta sua história,me obriguei a parar tudo e reler pausadamente alguns trechos que me reportaram ao meu passado...Os tempos difíceis naquela chácara...terra vermelha,muitas bocas para sustentar,e o grande sonho da casa própria tão humilde mas que era o nosso lar...Tudo era tão difícil e longe da civilidade...Um boteco uma quitanda,um açougue...tudo muito simples e distante...E o melhor disto tudo foi o final feliz que tivemos,acredito que saimos

daquele buraco com tanta garra,que subimos os degaus da vida e das conquistas sem tropeçar e sem medo...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 23/03/2014

Que historia de vida, Samuel! Movimentada com garra e muita emoção, meus parabéns.Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 21/03/2014

Uma estonteante aventura na conquista de novos desafios. Os detalhes espalhados pelos vários parágrafos, contam uma historia digna de um livro. Parabéns, Samuel

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 20/03/2014

Estou aguardando a continuação. E vou cobrar.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 20/03/2014

Samuel, aprendi a ler os seus textos com o coração carregado de emoções e sentimentos puros. Que brilhante história de superação, trabalho, união e o essencial amor à vida. Parabéns a todos vocês, que souberam abrir caminhos tendo à frente sempre o respeito ao próximo. Um grande abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 20/03/2014

Caberia aqui a frase costumeira “se houver semelhança é mera coincidência”, e realmente o é: nossas histórias se assemelham no trato da terra, com as dificuldades costumeiras e a baixa escolaridade de então, pois havia a necessidade de trabalhar na roça, no campo, o cuidado com a plantação e criação de aves e animais. A luta árdua de nossos pais para se conseguir “um cantinho” e chamar de seu, a mudança de ares, tudo bem assemelhado mesmo. Parabéns!

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 20/03/2014

Eu também nasci no mato, e que mato , tinha até macaco .

bugio.

Eu morria de medo quando eles gritavam.kkk

Bela história.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
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