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Categoria - Personagens Aquele disco de vinil Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 19/03/2014
Em um silêncio profundamente denso, a atmosfera nostálgica banhava a alma da minha avó.
Sentada no seu pufe verde, ela ouvia algumas músicas italianas no sobrado do Cambuci.
Com linhas coloridas entrelaçadas nos dedos, a outra mão dava vida à sua agulha de crochê de cabo azul.
 
A minha avó não conversava naquele momento: o disco de vinil rodopiava calmamente sob a sensível agulha da vitrola Telesparker, de madeira brilhante após receber uma camada generosa de Lustra-móveis.
 
Enquanto eu aplicava o produto com um pano seco, também calada, eu observava a intensidade do silêncio da dona Noêmia. Eu percebia que ela sentimentalmente se transportava para os primeiros anos nas suas Minas Gerais, tempos da recém-chegada dos italianos ao Brasil. Foi da Calábria a raiz dos seus antepassados, aquele pedaço de terra onde os mais simples não tinham onde colocar os pés. Muito menos os sonhos.
 
Resolveram então idealizar um literalmente Novo Mundo, onde haveria terra fértil e dali sairia, certamente, a sua casa. Em uma Itália convulsiva e faminta, a emigração seria o caminho único para tantos deserdados. E o retorno praticamente seria uma utopia.
 
Nascida no anoitecer do século XIX, a dona Noêmia tinha o trabalho nas veias, essência herdada daqueles “calabrezes” que atravessaram o oceano com a certeza de que prosperariam com a plantação do café nas Minas Gerais. E a ideia de prosperidade, nesse caso, seria ter trabalho, casa, comida, dignidade e alguma possibilidade de estudo para os futuros herdeiros. Herdeiros? Sim: da honra, da lisura, da sabedoria.
 
E ouvia atentamente “Torna a Sorrento”, “Arrivederci, Roma”, “Santa Lucia”. Cantarolava baixo “Mamma, soi tanto felice...”. Eu percebia na minha avó, enquanto “crochetava” e ouvia as canções, um respeito profundo ao passado, à história de pobreza da família, as mudanças que, lentas, teimaram em acontecer. E não exibia tristeza propriamente, mas amor por tudo aquilo que foi.
 
Inúmeras saudades mudas ela tinha cravada na alma. Dos que já haviam partido, da sua pequena plantação, dos tempos em que lia várias vezes um pedaço de jornal que vinha embrulhando alguma mercadoria trazida de Poços de Caldas pelas mãos do meu avô. Lia as notícias velhas e repetidas vezes sobre o balcão da vendinha que jamais conheci.
 
Vez ou outra ela contava casos dos irmãos, do seu trabalho em fazer pães, biscoitos, queijo, do tanto que fazia para ajudar na criação dos filhos.
 
O tempo em que viveu se entrelaçou com as duas guerras, com a mudança para São Paulo, fixando-se na Cantareira, com o trabalho numa pensão, com a vitoriosa alegria de enxergar a filha estudando na Caetano de Campos e o outro filho entrar na USP em primeiro lugar no curso de Farmácia.
 
Ela crochetava cuidadosamente naquele canto da sala nos anos setenta e ouvia “O sole mio”.
O som saía da vitrola direto para aqueles ouvidos tão humanos e arranhados pelo tempo.
E hoje, quando toco no teclado essa canção, sinto pelo passado uma saudade doída, com um desejo exacerbado de retorno àquele tempo. Tempo em que a sabedoria era garantida e sem meias palavras. Apenas existindo e cantarolando: “mamma, soi tanto felice”.
 
 
E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 25/03/2014

Cara Vera o imigrante italiano que, com garra e muita determinação, ajudou na construção dessa cidade cosmopolita. Nossas raízes são essenciais para compreendermos melhor a cultura, os conceitos individuais de nossos antepassados porque a sociedade atual está em perigo de ficar cada vez mais alheia às tradições deixadas de fora e esquecidas, porque nós mesmos somos estéreis, egoístas, muito diferentes de nossos ancestrais.

Cara Vera essa é uma homenagem que você presta aos velhos imigrantes italianos que vieram para fazer a "Mérica"... eles eram certamente mais altruístas e de melhores comunicações, especialmente na vida cotidiana. Devemos cultuar o passado que, temos de resgatar, preservar e passar adiante para as novas gerações, evitando, assim, de sermos uma árvore sem raízes. Parabéns pelo seu magnífico texto das lembranças de sua querida vovó Noêmia. Um abraço do Grassi

Enviado por Roberto Grassi - jr_grassi@yahoo.com.br
Publicado em 24/03/2014

Vera, que forma mais suave escrever sobre sua avó e o disco de vinil.Lembrei não da minha avó, porque não tive a oportunidade de conhecê-la, mas da minha tia e minha mãe que adoravam ouvir O sole mio, Mama soi tanto felice e todas que você citou. Muitos cenários formei e com certeza bateu uma grande emoção.Adorei o texto, meus parabéns! Um grande abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 22/03/2014

Texto lindo, emocionante o seu relato.

A gente vai ficando cada vez mais saudosista e sensível às lembranças.

Desa forma, outro dia fiz um texto o qual compartilho contigo, se asim permitir:

Crepúsculo

Agora o que resta de dessa vida afinal?

Viver intensamente, eu vivi.

Felicidade plena, não consegui.

Alegrias muitas tive,

Tristezas umas tantas.

Se fiz sofrer, talvez,

Se fiz chorar, quem sabe.

Sei que as mágoas apaguei.

Num dia eu aprendi,

Noutro eu ensinei.

Caminhos segui,

Lugares alcancei,

Por vezes não cheguei.

O tempo passou,

Amores se foram,

Canções se perderam,

Amigos partiram,

A velhice chegou.

Antes que a alma se aquiete

Só peço uma outra vida, perene.

Enviado por Samuel de Leonardo - samuel.leo@hotmail.com.br
Publicado em 20/03/2014

Vera, assim voce maltrata a gente, pois ainda não sou avÔ e nem conheci os meus avós, sou filho unico e senti na sua história como é bom ter pais de nosos pais, ms disco de vinil ainda conservo muitos, parabéns,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 20/03/2014

Uma vitoriosa sua avó, teve a graça de ver seus filhos bem encaminhados.

Com certeza enquanto crochetava e cantarolava ela o fazia para sua mamma.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 19/03/2014

Vera nós dois sabemos bem que, um povo que não tem passado, não constrói o futuro. O sole mio, sai fronti a te......

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 19/03/2014

Vera querida, essa deliciosa crônica deveria ser chamada de "A vovozinha do Cambuci", tão deliciosa a menção do querido bairro onde morava a Myrtes e onde morei por 8 meses. Mudei pro Braz novamente um mês antes de nascer meu primogênito. Mas, seu relato, como sempre beirando a divina ordem das coisas, uma soberba interpretação da alma de um ser humano tão sencível como a sua, querida Moratta. Muito bem condicionada a menção das canções napolitanas, revelando o bom gosto da vó. Dna. Noemia, onde estiver, deve sentir uma alegria inusitada, por ter uma neta tão bela e amorosa pela dedicação recebida. Parabéns, Vera.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 19/03/2014

Vera, sua avó foi uma grande guerreira.

E musica italiana, amoooooo.

Beijos Vera, ler os textos aqui do site, é viajar sempre.

Parabéns.

Abraço.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 19/03/2014

Estimada Vera

Vó e vô são tudo de ótimo,tenho saudades deles até hoje e muita,lembro-me muito deles,ainda mais que meu vô era maestro,compositor,tocava clarinete,comerciante,juiz de paz,marceneiro,tesoureiro,ele dizia -"São sete profissão e quatorze necesidades",essa é ótima.

Ainda bem que nós brasileiros sentimos saudades e muitas dos nossos entes queridos,palavra que dizem só existir em nossa lingua.

Saudades é uma delicia,sempre viajo nela,gosto muito,mas precisamos tomar cuidado.

Um abraço

Enviado por Vilton Giglio - viltongiglio25@gmail.com
Publicado em 19/03/2014

Vera – Sou apaixonado por Avós e Avôs – Bonito texto – Agora para arrebentar corações você acrescentou e deu o titulo de “ Disco de Vinil”. Tenho uma porção deles que fui guardando com tanto carinho e hoje está guardado em um caixa num quartinho no fundo do quintal. Dentro de casa em todo o lugar que eu colocava atrapalhava. Conheço cada um como um filho meu. Sei dizer sobre cada musica se está no lado “A” ou “B” e em qual faixa está localizada. Como dizem : O que acontecera com eles “Só Deus sabe” – Forte abraço ...

Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
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