Leia as Histórias

Categoria - Personagens Aquela mulher Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 13/03/2014
Impossível esquecê-la. Foi apenas de passagem que eu a vi. Não sei seu nome. Idade? Uns 30 e poucos, quem sabe.
 
Sempre fui fascinada pelo ser mulher. O feminino sente profundamente a arte de enxergar mais além, de lapidar sonhos, de construir relações. A mulher busca a arte no infinito, nas cores e nas suas ausências.
 
Jovem ainda, eu me sentia fascinada pelas novas buscas, pelo feminismo, pela mudança dos paradigmas. Quando lia Simone de Beauvoir eu me sentia na plenitude da existência, sabendo que era possível ter o domínio da palavra, conhecer as estradas através de cada passo dado, muitas vezes com imprecisão e angústias. Lendo Beauvoir eu lia “esperança”.
 
Eu ia me sentindo capaz de ser e de estar. Não ser sombra. Ser dona. Mesmo calada para não me sentir desgastada na voz. Mas sendo dona. E pronto.
 
E fui buscar as expressões, tentar os rostos, os gestos, os sinais. E tenho o feminino como tema recorrente das peças de escultura que elaboro: uma mãe da Praça de Maio, outra que acalenta o seu filho pequeno. Tem também aquela sentada em um banco de praça, ladeada por duas crianças. A outra gestando, calada e na sua sublime solidão. Tem a que abraça o marido com meiguice... E o filho à espera de ver o sol.
 
Ser mulher é mágico. Infinito. Ensolarado.
 
Mas a lua iluminando tempestades pode chegar e surpreender. Para baixo.
 
Mas eu jamais me esqueci daquela mulher!
 
Eu caminhava com pressa e determinação para as aulas da noite. Saída da estação Belém do metrô, lá ia eu lecionar para adultos humildes da Zona Leste. Eram operários, trabalhadores da Eletropaulo, faxineiras, cozinheiras...
 
Eu ia feliz, consciente da minha missão e que o meu trabalho poderia transformar algumas vidas. Esse sentimento era o meu oxigênio, que me fazia levantar cedo ainda com o corpo cansado das aulas do dia anterior.
 
E no caminho eu vi aquela mulher. De uma casa, próxima à padaria onde eu diariamente comprava pão, eu ouvia um barulho exagerado, confuso, chamativo. Era ela.
 
Munida de uma vassoura de pêlo, a mulher quebrava todas as coisas que havia na casa, as vidraças, surrava com decisão a porta de entrada. Ela não se cansava. Não ficou um vidro intacto. Os cacos invadiam sem precisão parte da calçada e os transeuntes não falaram nada.
 
No Belém, a mulher quebrava tudo.
 
Pobre mulher! Se estava cansada de agressões, verbais ou não, se fora traída ou abandonada pelo marido. Se foi humilhada, xingada... Não sei.
 
Mas ela pode ter sonhado. Sonhado muito. Sonhado em subir as escadas da vida com a pessoa amada e quando chegou ao último degrau, o mais esperado, o companheiro largou-lhe o braço e lançou-a pelo mundo abaixo. E os sonhos se esvaíram qual nuvem negra e ela percebeu que teria que subir novamente todos os degraus, com todos os ossos quebrados em inúmeras partes, pele lanhada, com hematomas exuberantes. Olhos imensos de choro convulsivo e duradouro. E teve que começar a subir a escadaria sozinha, sabedora da sua solidão.
 
Aquela mulher!
 
Será que se chamava Eva? Antônia? Dirce? Luísa?
 
Nem imagino.
 
Mas aquela mulher, possivelmente, estava sendo honesta. Quem sabe pela primeira vez estava dizendo ao mundo a que veio, deixando de ser sombra, obscura, mórbida. Era a forma, quem sabe a única encontrada, para dizer que tinha vontades, direitos, desejos e uma insaciável fome de beleza.
 
Parabéns a você, que, para não morrer de uma vez, resolveu quebrar parte do seu mundo para deixar nascer o novo.
 
E que esse novo seja colorido, criativo e com as realizações que todas as mulheres merecem ter.
 
 
E-mail: vmoratta@terra.com.br
Localização da história
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 18/03/2014

A sua fascinação pelo ser feminino, em tudo que te diz respeito, em paradigmas respeitosos e convincentes, vindo de uma mulher, carece de um ponto importante: vc é feminina. Sendo assim, um masculino teria uma conclusão mais próxima da realidade, seria o oposto na apreciação, sem a presença de uma condição parcial no conceito emitido. Parabéns, querida Vera, sua escrita, no mínimo é divina.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 18/03/2014

Querida Vera, sua intrigante narrativa, me faz pensar, pensar, pensar... por que a Vera fez questão de destacar, nessa escrita, uma mulher que, cada leitor daria um conceito diferente nas atitudes porém, senão todos, a maioria poria em dúvida sua saúde mental. Mas, vc Vera, soluciona com sua humana sensibilidade, vê, simplesmente, uma sonhadora na derrocada de seus sonhos desfeitos. Moddesto(1ªparte)

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 14/03/2014

Benê, minha querida, eu também gosto muito de ler os seus textos. Fico agradecida por me ter como amiga - eu também a considero muito mesmo. Curta a chegada da sua filha com tudo o que você puder. Muitas felicidades para vocês duas, abraços e beijos e carinhos sem ter fim.

Eu também já li o livro que você citou. Ótimo. Um beijo, amiga.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 14/03/2014

maravilhosa sua homenagem às mulheres, está claro que essa mulher que você homenageou não conseguiu aguentar e por isso resolveu colocar tudo para fora desta maneira. Quantas e quantas aguentam caladas e nem a lei Maria da Penha resolve.

Com certeza essa resolveu a seu m odo.

Como sempre vc merece os nossos parabens com louvor. Obrigada por agraciar à todos nós com seus textos.

Beijos

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 14/03/2014

Vera, estou lendo" Crianças de Grozni."

da autora de" O livreiro de Cabul"

Irá se emocionar.

Beijos

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 14/03/2014

Vera, gosto muito de ler seus escritos,se vc escrever um livro, irei compra-lo com certeza!!!

Pena que vc mora longe, seriamos muito amigas...

Hoje estou feliz, minha filha virá, só faltam dois meses.

Depois de quase três anos,sem abraçar minha filha imagine, quanta saudade...

Um beijo

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 14/03/2014

Vera – Assisti um filme na TV sobre uma Ministra ( não sei dizer qual país ) até então não estava dando valor ao filme. Esse país tinha soldados no Afeganistão, e num final de semana morreram alguns de seus soldados. Ela como mulher já tinha lá o preconceito pelo cargo ocupado, e a pressão era enorme, sendo atacada pela maioria dos políticos e alguns cidadão machistas. Agora imagine após essas mortes para retirada dos soldados. Gostei da visita de uma Afegã, recebida pela ministra em que ela pergunta a ministra se ela tem um a carteira com documentos. Ela cede a carteira e a Afegã pede licença para abri-la. Retira o documento de Habilitação e diz que hoje em dia ela também tem o direito de dirigir seu automóvel no seu país, retira a carteira de trabalho e diz que também está podendo trabalhar, retira o titulo de eleitor e diz que já está podendo votar. Que são algumas das lutas internas que as mulheres estão conquistando dentro do seu país, evidentemente com a ajuda dos soldados cedidos por ela. Só assistindo para ver como o filme é formidável, a exemplo de sua maravilhosa crônica sobre vocês mulheres. Forte abraço ...

Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
Publicado em 14/03/2014

Muito forte esta cena,e este pensamento...Talvez fosse uma doida qualquer que no surto quebrava tudo...mas a sua conclusão foi a melhor e muito além de qualquer imaginação e eu amei!!! Para não morrer de qualquer mazela ou dor, resolveu quebrar parte do seu mundo e deixar nascer o novo...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 13/03/2014

Sabe Vera, se tem alguém que realmente não gosta de violência é este aqui, mas que chega uma hora em que se tem de chutar o pau da barraca, isso tem. Acho que foi o caso desta mulher. A mulher é o outro lado do homem, veja bem o outro lado, lado a lado, iguais.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 13/03/2014

Vera, a mulher nunca teve o valor que realmente merecia e merece.Ainda ontem circulando pelos canais da TV, parei pra ver um filme onde as mulheres pararam de trabalhar como costureiras da Ford, em 1960 se não me engano, e em uma batalha árdua conseguiram a igualdade salarial.A mulher sempre teve que lutar muito para obter conquistas, bem diferentes dos homens. Seu texto está maravilhoso falando da mulher e daquela mulher. Parabéns, eu adorei.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
« Anterior 1 2 Próxima »