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Categoria - Personagens Ele tinha razão Autor(a): Marcos Aurélio Loureiro - Conheça esse autor
História publicada em 11/03/2014

Por favor, me dêem licença de falar de uma homem que mesmo tendo convivido pouco comigo, me ensinou muito. O meu avô Júlio. Não era paulista e nem se quer morava em São Paulo, mas adorava esta cidade, era fascinado pela pujança dela, como ele mesmo dizia. E assim sempre que podia vinha nos visitar e ficava ou na minha casa, ou na casa do meu tio, lá na Parada Inglesa, onde moravam todos os parentes dele que viviam aqui em São Paulo.

 

Muito bem, um pouco antes dele morrer, por volta de 1971, ele estava aqui em São Paulo, mas hospedado na casa do meu tio, e em uma bela tarde ele foi lá em casa para nos ver. Ao entrar na sala, encontrou-me com um livro. Eu estava lendo "O Germinal" de Emile Zola, um ótimo livro (quem não leu, leia que não vai se arrepender; embora, tenha de confessar, que naquele dia em particular, só o estava fazendo por conta de deveres escolares).

 

Ao me ver com o livro, ele quis saber o que eu estava lendo e ao saber disse que aquele livro era muito bom, me contou que conhecia outros autores franceses, e começou a falar sobre Flaubert, Danton, Molliere, Robespierre e dai foi. Da França pulou para a Inglaterra, Holanda, Itália e do realismo, foi para o romantismo, para os clássicos gregos e romanos, acabou na literatura de língua portuguesa, passando de Camões a Gil Vicente, de Fernando Pessoa a Antero de Quental, de Machado de Assis a Castro Alves e outros e outros. E eu ali, boquiaberto. Não conhecia esta façanha dele, jamais pensei que ele tivesse uma cultura literária tão grande. Eu percebia pela firmeza com que ele falava que ele sabia muito sobre tudo aquilo. Até que depois de um tempo ele disse:

 

- “Bem filho, agora o vô vai deixar você com sua leitura, e continue sempre assim, se ‘aculture’ o máximo que puder, nunca se contente com só um pouco de conhecimento, vá cada vez mais fundo e fuja da mediocridade e dos modismos, porque, ao contrário do que dizem por ai, em terra de cego quem tem um olho não é rei não, acaba é ficando cego também, porque convive com tanta mediocridade, que logo, logo, não enxerga mais um palmo a frente do nariz”.

 

Na época eu confesso que não entendi muito a mensagem dele, mas hoje, com os cabelos já tingidos pelo tempo, vejo que ele tinha razão. Basta ver os programas das televisões, as músicas que tocam nas rádios, as revistas que “pululam” nas bancas, para ver como tem cego de um olho só neste mundão de meu Deus.

E-mail: marcoslour_ti@yahoo.com.br
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Publicado em 18/03/2014

Junto com a graça de ter um avô intelectualizado, está a sensibilidade do Loureiro em memorizar os momentos passageiros da época, para os dias de hoje, dando a nós, leitores a graça de conhecer um avô tão bem aculturado. Parabéns, Marcos.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 12/03/2014

Marcos, sempre temos alguém que com estímulos marca nossa vida, no seu caso foi seu avô e olha que ele sabia das coisas.Muito boa sua historia, um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 12/03/2014

Certas frases, certas palavras de alguem próximo a nós e de experiencia de vida nos marca muito e se soubermos aproveitar, teremos sucesso como cidadão, como profissional, parabéns, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 12/03/2014

Tanta sabedoria armazenada para no momento certo “abrir o livro” da cultura! Fica a indagação se o nível de estudo era maior do que o da atualidade ou se não há mais a necessidade deste conhecimento porque a informação “palpita” de todos os lados? Houve no tempo de nossos avôs e pais uma carga muito grande de formação e hoje foi substituída pela informação!!!

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 12/03/2014

Caro Marcos Aurélio. Segui sua orientação quanto a aquisição do livro de Zola, o germinal e aproveito ao parabenizá-lo por este bonito texto sobre literatura, indico: O homem medíocre, de José Ingenieros, edições Spiker "Constitui o mínimo de conhecimentos necessários à formação de um homem regularmente ilustrado". É um ensaio sobre a mediocridade humana, - como causa de rotina, hipocrisia e domesticidade, nas sociedades contemporâneas, com úteis reflexões de Idealismo Experimental - para que os jovens procurem evitá-la, educando livremente o seu engenho, a sua virtude e a sua dignidade, portanto pertinente Marcos. Eu tenho o livro aqui comigo, certo?

Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
Publicado em 11/03/2014

Gostei muito do modo como seu avô viveu;se "aculturando"

O conhecimento é uma busca incansável, em qualquer época a vida.

Parabéns.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 11/03/2014

Marcos, meu irmãozinho, o sr. Júlio esbanjou sabedoria, tanto na busca do conhecimento, como nas orientações que lhe deu. A cegueira vai ficando coletiva mesmo e aí o desastre está pronto. Parabéns para o sr. Júlio. Sapiência das boas!

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 11/03/2014

Eu não tive avós nem por parte de mãe ou de pai,confesso que na época achava normal.Só quando vim ser avó,percebi o quanto é saboroso e o quanto acrescenta em nossas vidas ter avós presentes e atenciosos...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
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