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Categoria - São Paulo da cultura, gastronomia, lazer e oportunidades Para ver a banda passar Autor(a): Luiz Simões Saidenberg - Conheça esse autor
História publicada em 05/03/2014
Não sou de Carnaval, fora os bailes da infância, aos quais íamos levados pelos pais, em clubes locais, regados a lança-perfume, confete e serpentina, e fora o desfile que víamos da sacada do Clube Cultura Artística, em Campinas, com bumba meu boi e fanfarra, a folia coletiva nunca me entusiasmou.
 
Fora os dois anos que passamos no Rio de Janeiro – e ali não se pode escapar aos ritos de Momo – dos grandes desfiles de blocos não oficiais na Av. Rio Branco até um humilde bando de moradores descendo, com bateria e muita ginga, a Rua Jardim Botânico; um senhor já idoso sem camisa e sacudindo a pança em um ritmo insensato, totalmente fora deste também pouco sensato mundo. Depara-se com a folia a cada esquina. Pura, espontânea, pouco tendo a ver com os milionários desfiles “globelezais” da Marquês de Sapucaí.
 
Mas, como disse, não entendo esta louca alegria generalizada, a multidão desvairada. Minhas alegrias e paixões, embora intensas, relacionam-se muito mais com experiências pessoais, mais íntimas.
 
Nos anos em que tivemos casa no litoral, íamos para lá, sem nada ver ou ouvir de Carnaval, e voltávamos após a folia acabada. Nada de desfiles de grandes escolas, siliconadas cabrochas de destaque, porta-estandartes e mestres-salas. Até hoje é assim, e o famoso Carnaval apenas uma ilusão estranha e distante. Costumava dizer que, para mim, Carnaval é todo dia. A festa iniciando-se toda manhã e só extinguindo-se à noite.
 
Agora, nem mais ao litoral vamos; multidões de carros descendo a serra, sujeitos a arrastões e horas de congestionamento, para encontrar lá embaixo a continuação desse tumulto insano. O mesmo aconteceu este ano. Enquanto a farra explodia nos sambódromos, ficamos por aqui mesmo, recolhidos, fazendo nossos passeios pelo bosque vizinho, vendo um bom filme à tarde.
 
Foi então que a banda passou. Pelo bairro calmo, em parte deserto, pela ausência dos moradores viajantes, na tarde do sábado. Estridente, alegre, mas podia-se adivinhar que modesta, humilde, simples, inocente em suas raízes.
 
A alegria espontânea, como nos velhos tempos. Saí do sossego do lar para conferir. Na rua de trás, umas poucas dezenas de pessoas, todas locais, mães com crianças, alguns fantasiados modestamente, um ou outro mascarado, e a bandinha, a “furiosa”, como já se disse, tocando furiosamente. Um dos foliões ostentando um estandarte verde, no qual se lia Brooklyn.
 
Em plena rua, toda coberta de confete e serpentina, surpreendendo com sua alegria os poucos motoristas que passavam. E aí sim, as emoções que não senti nos Carnavais passados reclamaram sua quota. Uma banda passando.
 
No bairro tranquilo de São Paulo, na rua deserta, na tarde morta, com nuvens ameaçadoras de chuva como pano de fundo. Não era alucinação: eu vi mesmo a banda passar, tocando coisas de amor. Nem tudo está perdido, neste mundo.
 
E-mail: lssaidenberg@gmail.com
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Publicado em 12/03/2014

Muito obrigado, amigos. Não me comovo normalmente com Carnaval, mas ver e ouviro pequeno e anõnimo bloquinho tocou-me. Que ainda existam muitos, assim. Abraços.

Enviado por Luiz Simões Saidenberg - lssaidenberg@gmail.com
Publicado em 09/03/2014

Luiz, sempre gostei das festividades de carnaval de outrora, nos salões ou na rua. Que delicia ver a banda passar sem ser em nossos sonhos.Lindo seu texto, meus parabéns! Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 07/03/2014

Parabéns pelas lembranças, Luiz. Também não sou nem um pouco chegada a carnaval. Para ser sincera, odeio aquela multidão tentando ser o que não é. Concordo que nem tudo esteja perdido. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 07/03/2014

Ja disse à você por e-mail, que sinto o mesmo que você a respeito de nosso carnaval atual. Belo texto, e parabéns.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 06/03/2014

É isso mesmo, Luiz, ainda existe um pouco de sonho pra ser sonhado. Vamos aproveitar e dar asas as nossas doces ilusões. Parabéns pelo seu elaborado nucleo de recordações, Saidenberg.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 06/03/2014

Coragem Saidenber, é como você disse, nem tudo está perdido, acho que o mundo ainda tem jeito.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 06/03/2014

Dos bailes fechados dos clubes em ritmo das bandas, as folias de blocos das ruas passando pelas grandes empresas carnavalescas em locais determinados atuais demonstram uma transformação de valores das participações populares e de profissionais que vivem desde modelo de festividade. Um campo fértil e vasto que arrastam multidões que apreciam essa manifestação e nos dá a dimensão das grandes empresas que investem nesse ramo competitivo da economia. Parabéns pela crônica.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 06/03/2014

É isso Saindenberg. Entre no ritmo da batucada do samba, na 4a.feira de cinzas e bola pra frente.

E escrevendo bons textos como este, esmerado, cumprindo seu papel de autor e conhecedor desse mundo desenfreado e a São Paulo desvairada.

Cada um é responsável pelo que cativa, escreveu Exupéry então continue assim brother, siga o jogo dando seus bons exemplos e pitacos aqui e acolá.

Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
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