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Categoria - Personagens Reencontro da turma do colégio Autor(a): Abilio Macêdo - Conheça esse autor
História publicada em 28/02/2014
Ela subia pela escada rolante da estação Paraíso do metrô quando uma senhora segurou seu braço e lhe perguntou:
 
- Você não é a Maria Helena?
- Sim, sou.
- Puxa, que coincidência! Só reconheci você porque estamos no mesmo degrau. Era mesmo para gente se encontrar.
- Desculpe, não...
- Aninha! Não é possível que você tenha me esquecido...
- Ainda não...
- Estudamos juntas no Colégio João XXIII da Vila Prudente. Nós éramos tão amigas...
- Meu Deus! Aninha! Há quanto tempo...
- Nossa! Você não mudou nada... Como pode?
 
Depois de um longo abraço, as duas ficaram um bom tempo recordando a época de escola, conversando sobre a vida e descobrindo novas afinidades. E para não mais perderem contato, depois de mais de trinta anos sem terem notícia uma da outra, passaram a trocar e-mails e telefonemas quase que diariamente.
 
Empolgada com aquele encontro, que restabeleceu uma velha amizade, Aninha começou a procurar por outros colegas do colégio, e tanto se empenhou pesquisando nas fichas da secretaria do colégio e lista telefônica que conseguiu localizar a maioria dos alunos e até alguns professores.
 
Como era sua ideia desde o início, e agora também atendendo a pedidos, Aninha iria organizar uma festa para juntar toda turma novamente.
 
Quando Maria Helena leu o nome de Zé Roberto na lista de participantes sentiu um frio na espinha e o coração disparar. Foi como se tivesse voltado ao passado.
 
“Que bobagem! Depois de tanto tempo! Era só o que me faltava!”, pensou ela, irritada com aquela reação involuntária.
 
Zé Roberto tinha sido sua grande paixão na adolescência, e hoje ela não se conformava de ter sofrido tanto por alguém que nunca lhe dera a menor atenção. Ficou com mais raiva ao lembrar horas de sono perdidas pensando nele ou escrevendo cartas de amor que nunca teve coragem de entregar.
 
“Como eu podia ser tão boba, meu Deus?!”.
 
Ela só se acalmou quando viu naquela festa a oportunidade de se vingar de Zé Roberto:
“Isso mesmo! Ele vai ver o que perdeu! Quero ver a cara dele quando descobrir que aquela menina sardenta e desengonçada que ele esnobava agora é uma mulher muito bonita”.
 
Quanto a isso ninguém podia dizer o contrário. Alta e aparentando bem menos que seus 49 anos, Maria Helena arrancava olhares de admiração por onde passava. Vale ressaltar que além dos cuidados com a saúde e de muita ginástica, seus encantos se deviam também aos vários (e caros) tratamentos de beleza que fazia. Sem falar nas duas cirurgias plásticas e a correção estética dos dentes que tiveram resultados bastante satisfatórios.
 
No dia da festa Maria Helena estava ansiosa como uma adolescente que ia ao seu baile de debutante. Telefonou para o cabeleireiro e para a manicure confirmando os horários, experimentou várias vezes o vestido e sapatos (comprados especialmente para a ocasião), sempre conferindo se a bolsa e as joias escolhidas eram mesmo as que melhor combinavam e consultou (de hora em hora) seu horóscopo e a previsão do tempo e pela internet.
 
Normalmente uma taça de vinho tinha um efeito calmante sobre ela, mas naquela noite Maria Helena precisou beber quase uma garrafa antes de sair de casa.
 
Ela chegou à festa louca para encontrar Zé Roberto, pois há dias vinha ensaiando como se apresentaria a ele e imaginando a sua reação. Foi uma tortura ter que circular pelo salão procurando por ele tendo que falar com tanta gente que agora lhe era completamente estranha.
 
Quando Aninha veio lhe perguntar como tinha sido rever Zé Roberto depois de tanto tempo, Maria Helena se surpreendeu:
- Não o vi ainda.
- Como não? Vocês acabaram de se cumprimentar.
- Eu e o Zé Roberto?
- É. Você e ele! – Disse Aninha apontando para Zé Roberto, que conversava com outras pessoas bem ao lado delas.
 
Sem acreditar, Maria Helena se aproximou e o olhou com toda atenção para se certificar. A dúvida sumiu quando ao falar ele fez com as mãos aqueles mesmos gestos que ela tão bem conhecia. Era ele mesmo.
 
Ela até pensou que não o reconhecera antes porque aquele canto do salão não era tão iluminado ou por ele estar encoberto por outras pessoas, mas logo percebeu que o motivo era outro. O tempo tinha sido cruel com Zé Roberto.
 
Nem de longe ele lembrava o belo rapaz por quem ela suspirava. Seu rosto agora era marcado por profundos vincos e manchas escuras de sol. A vasta cabeleira loura dera lugar a uma calva cercada por ralos cabelos brancos. Os olhos azuis brilhantes que a deixavam hipnotizada tinham agora um tom verde desbotado e o perfeito sorriso branco estava disforme e amarelado.
 
Com todo aquele rancor que carregava, além de não ter recusado nenhuma bebida que os garçons haviam lhe oferecido, Maria Helena não conseguia esconder a satisfação de ver Zé Roberto tão acabado:
- Ora, ora, ora... José Roberto de Paula Abreu. Quem diria? Imagino que hoje em dia você não seja tão convencido como na época do colégio.
 
Seu jeito de falar, com um ar de desprezo e balançando a cabeça negativamente, causou um certo constrangimento em quem estava próximo. Mas Zé Roberto não se incomodou, e respondeu sorrindo:
- Quando a gente envelhece, vai corrigindo os defeitos da juventude...
- Então você vai ter que viver até cem anos para corrigir todos os seus.
- No mínimo...
- Você sempre foi muito egocêntrico e nunca teve consideração por ninguém. Aposto que nem se lembra de mim.
 
Sorrindo e sem perder a calma, Zé Roberto respondeu:
- Então me dá uma dica. A senhora dava aula de qual matéria?
 
Acostumada a ser paparicada e a receber elogios, ouvir aquela gozação e ainda as pessoas rindo dela, fez alguma coisa acontecer na cabeça de Maria Helena. Foi como se a engrenagem desalinhada de uma máquina voltasse a se encaixar depois de uma boa martelada.
 
Durante alguns segundos um turbilhão de pensamentos a levaram para uma espécie de transe, e quando voltou à razão, ainda meio atordoada, mas consciente do papelão, havia um circulo de pessoas a sua volta enquanto Zé Roberto falava com ela:
- Não queria fazer você chorar, Maria Helena. Eu só entrei na sua brincadeira... Me desculpe.
- Não foi culpa sua. Eu estava precisando disso. – disse ela beijando seu rosto antes de ir embora.
 
Quando chegou na rua, Maria Helena percebeu que há muito tempo não se sentia tão segura. Pela sua cabeça passavam agora muitos planos, entre os quais o suspender suas consultas com o analista, aceitar o convite para se dedicar a um trabalho voluntário e também deixar de perder tempo com uma série de futilidades (inclusive suas amigas).
 
Enquanto caminhava até o ponto de táxi na esquina, ela poderia ter apressado o passo e escapado daquela chuva inesperada que ameaçava cair, mas ao lembrar que aquilo contrariava todas as informações meteorológicas, teve a certeza que era um sinal para que lavasse sua alma e seu passado para recomeçar uma vida melhor dali em diante.
 
Maria Helena chegou em casa ensopada e feliz como nunca.
 

 

E-mail: abilio.macedo@bol.com.br
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Publicado em 07/03/2014

Sensacional, Abílio. Mas nós, mulheres, somos mesmo vingativas demais. Um abraço e parabéns pela crônica.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 06/03/2014

O tempo parece não passar para algumas pessoas,mas para outras o tempo se torna cruél!!! Eu até entendi o que ela sentiu ao poder revidar o desprezo dado a ela na juventude...Depois de décadas ela uma bela mulher,e ele talvez não fosse mais tão belo e assim e ela teria seu ego compensado.

Mas ele foi muito rápido e esperto,parecia preparado para a resposta.

Eu confesso que já tive vontade de rever algumas pessoas que me magoaram quando eu era uma criança ou adolecente muito pobre...Queria apenas mostrar o inverso da minha posição social depois de tantas conquistas..Já tive vontade de ostentar para eles, todas as viagens que fiz e os bens materiais que tinha...Quanta bobagem...Hoje tenho conciência que o meu tesouro maior são os meus filhos e netos todos bem e com muita saúde e a minha alegria de viver!!! sou imensamente feliz!!!

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 04/03/2014

Encontros e reencontros são sempre uma surpresa!

Enviado por Ana Regina Carnevalli Parra - arcparra@ig.com.br
Publicado em 03/03/2014

Abilio, excelente conto, bem ao estilo dos que gosto de rabiscar. Achei lindo sem nadaterdepiegas.

Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 01/03/2014

Abilio, linda sua historia,são lições que aprendemos com a vida.Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 28/02/2014

Abílio, não sei se a história é verídica, mas sei que nem sempre a alma é bela quanto a face.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 28/02/2014

Esses encontros refazem parte de nossa história e traz a tona muitas recordações por vezes dolorosas e também de muita saudade de um tempo onde perecia que ele (o tempo) não fosse passar. Parabéns pelo texto.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
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