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Categoria - Personagens O mago dos relógios Autor(a): Sergio Liblik - Conheça esse autor
História publicada em 27/02/2014
Há anos, já muito passados, certa ocasião quando minha mãe rememorava as lembranças de meus avós, com carinho, ela examinava o conteúdo de uma pequena caixa de lembranças dos tempos idos. Chamou-me a atenção um antigo relógio de bolso. A curiosidade levou-me a examiná-lo.
 
Era um orgulhoso Robert Roshel, em caixas de prata, um com desenhos filigranados, austeros, geométricos, com um botão saliente que pressionei aguçado pela curiosidade. Como por encanto, abriu-se uma tampa, pondo à mostra uma chapa acobreada onde faltavam o painel, os ponteiros e toda a parte frontal, apertei novamente o mesmo botão e como que por magia uma segunda tampa, esta na parte posterior do relógio, se abriu, pondo à mostra as entranhas de um metal opaco pelos cerca de 150 anos, dilapidado na ausência de algumas engrenagens dispersas que esperavam por suas pares; mais do que uma simples limpeza e regulagem ele necessitava de uma reconstituição.
 
Minha mãe me deu, pensei imediatamente em recuperá-lo. Procurei por um bom relojoeiro, sem esperança. Passei por um segundo relojoeiro, e mais e mais, por cerca de 20 anos vaguei entre São Paulo e Curitiba onde agora moro, sem expectativa.
 
Há poucos meses, certo domingo, perambulando pela feira de arte e antiguidades do Masp, parei em uma banca para admirar alguns relógios antigos. Aproximou-se de mim o proprietário daquelas máquinas fenomenais. Era o Sr. Jan Drabek, que fiquei sabendo ser um relojoeiro por tradição de gerações de família e que me perguntou se eu as admirava. De pronto respondi que era fascinado por elas e que possuía um relógio muito especial que não funcionava e que, apesar da longa procura de anos, não tinha encontrado um profissional que ousasse tentar consertá-lo.
 
Com um jeito simples, ele se propôs a examinar o relógio. E fez-se a luz. Animei-me todo com a possibilidade e combinei que em um par de semanas voltaria a São Paulo com o relógio.
 
Acicatado, voltei após duas semanas. Feira do Masp. O Sr. Jan examinou rapidamente o relógio e disse em seu jeito singelo:
- Há esperança. Faltam inúmeras peças, a bem da verdade cerca de 60% do relógio não existe, e por serem peças únicas, de escassa reposição, talvez eu tenha ou possa fabricar o necessário.
 
Passadas algumas semanas e em um agradável telefonema eis que o Sr. Jan me informou que o relógio poderia ser concertado, e combinamos um novo encontro na feirinha do Masp.
 
Lá, um sorridente Sr. Jan entregou-me o relógio que lindamente “tic-tacteava”. Com um painel restaurado, ponteiros dignos à época a caixa brilhando, restaurada ao antigo esplendor.
 
Retornei para Curitiba. Chegando em casa, o relógio sem motivo aparente parou. Voltei a São Paulo algumas semanas após e o Sr. Jan o fez funcionar novamente, além de me ensinar como tirar a máquina da letargia dos anos sem trabalhar.
 
Retornei a Curitiba, ele parou novamente, sem motivo. Nova vinda a São Paulo e o Sr. Jan me surpreendeu ao perguntar, tentando sentir minha reação – qual era o perfil de meu avô. Eu respondi que pouco me recordava dele, mas tinha a nítida certeza que ele era autoritário. O Sr. Jan sorriu e me disse:
- Já consertei mais de centenas, milhares de relógios, e é comum eles se comportarem como se algo mítico de seus proprietários os tenha impregnado, um certo comportamento que só os holistas tentam explicar, é preciso um tratamento muito respeitoso e carinhoso com estas máquinas.
 
Deixei novamente o relógio com o Sr. Jan e após um novo par de semanas voltei para apanhá-lo. Pois estava funcionando perfeitamente. Levei-o para Curitiba e entreguei finalmente para meu filho, o primeiro bisneto do meu avô.
 
Passaram-se alguns dias e perguntei curioso para meu filho como estava o relógio. Ele me respondeu que todas as noites, antes de iniciar a leitura diária, já que é um ávido leitor, regularmente dava corda no relógio. E o deixava na mesa de cabeceira da cama. Mas não sabia explicar que, após dar a corda do dia o relógio, parara e ele não havia conseguido trazê-lo à vida por nada. No dia posterior ele estava lendo um livro, quando ouviu o reinicio do “tic-tac” do relógio que voltara a funcionar sozinho, e mais ainda: quando resolveu acertar os ponteiros da hora não teve necessidade de fazê-lo, pois ele estava indicando a hora certa, tendo ficado parado por exatas 24 horas.
 
Talvez a sincronicidade de Jung possa explicar o fato, mas o Sr. Jan deve ter razão ao dizer que essa surpreendente maquininha tenha vontade própria, embora seja difícil de se crer.
 
Esta nova demonstração de seu caráter intempestivo devolveu a misteriosa máquina às mãos do Sr. Jan e, finalmente, após, após inúmeros e longos interlóquios que duraram um par de semanas eis que o orgulhoso “Robert Roshel” aceitou a voltar a funcionar de uma maneira maravilhosa.
 
E-mail: sliblik@gmail.com
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Publicado em 06/03/2014

Bom saber que ainda podemos contar com amantes dos relógios, meu pai ao se aposentar montou um escritório na R. São Bento para consertar relógios era seu hobby.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 01/03/2014

Sergio, que mistério! Mas ainda bem que o relógio agora funciona perfeitamente bem. Linda hostoria. Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 28/02/2014

Sérgio, tenho um relógio de bolso, lembrança do meu pai. A marca é Roskoff, mas ele não tem vida própria não.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 28/02/2014

Gostei de ler o seu texto.

Sua persistência o trouxe de volta.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 28/02/2014

Como sou louco por mistérios, adorei seu texto, Sergio, o relógio em questão deve ter "alma", funciona só com determinados "proprietários". Narrativa bem redigida com atraentes e informátivos curiosos. Parabéns, Liblik.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 27/02/2014

Possuía também um relógio "meio fantasma" que só trabalhava quando queria. Parabéns pela crônica.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 27/02/2014

Liblik - Uma história gostosa de se ler. Parabéns - Forte abraço ...

Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
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