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Categoria - Outras histórias Sonhos rasgados Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 26/02/2014
Com alegria exultante, eu corria São Paulo com tênis macio. Não me lembro da marca. Marca para quê? Nunca fui de grife. Mas o tênis não tinha cadarço. Explico: nunca fui suficientemente apta a dar laços. Ainda em tempos de correr da polícia, o melhor era ter menos possibilidade de cair tropeçando nos próprios pés.
 
“Diretas Já” era a palavra vibrante, que pulsava nas veias, nos olhos que gostavam de brilhar, nos sonhos que teimavam em sonhar alto. O ano de 1984 prometia ser único, de união dos pensamentos e sentimentos na busca do novo, criativo, humano.
 
No Viaduto do Chá, naquele 16 de abril, eu estava lá, como estava em todos os movimentos contrários à Ditadura. Rostos esperançosos, jovens com vigor na tentativa de construir um Estado de Direito.
 
Naquele dia, na cabeceira do viaduto, de uma vez só, segurando uma faixa pelas Diretas, com largos sorrisos estampados, vinham as lideranças políticas contrárias ao arbítrio. Não dava para andar. A multidão fervilhava. Não se falava em outra coisa. Um Brasil melhor, de verdade, dono dos seus destinos, haveria de nascer.
 
E os jornais exibiam até nas propagandas, triunfalmente, as duas cores da Casa de Bragança e dos Habsburgo.
 
Eu jamais vira tanta energia, tanto orgulho pelo verde e amarelo! Uma pulsação única e densa, distante das evasivas dos tempos de Copa, quando tudo acaba com o resultado final. Guarda-se as bandeiras e tudo volta como Dantes no quartel de Abrantes.
 
Ao longo dessas três décadas, em que derrubamos o militarismo, a censura e a prisão política, inegáveis foram os avanços. Só quem conheceu o passado ainda não tão remoto assim pode atestar, mas uma parte gigantesca da sociedade que me perdoe. Uma parcela imensa da sociedade ainda permanece bebê.
 
Bebê mesmo, “gugu dada”. E sem nenhuma vergonha de não crescer. Essa parte enorme, gigantesca, colossal da sociedade que teima em não crescer é aquela que só reclama direitos, mas não desconfia que deveres são bons e necessários. Não é só o dever de honrar pagamentos de impostos sem-fim. É dever de ajudar a criar uma nação verdadeiramente digna.
 
O jornalista e escritor belga Louis Pauwels, dizia “Não acontece aos homens aquilo que eles merecem, mas sim o que se lhes assemelha." Daí a conclusão óbvia de que quem está no poder não veio de Marte ou de Plutão. Veio daqui mesmo, desse planeta de “provas e expiações”.
 
Assim, falar eternamente mal das elites políticas, sempre comprometidas com a obsessão pelo poder e por interesses próprios, independentes de partido, é uma das manifestações de infantilidade. Vira samba de uma nota só, sem solução e com um nefasto conformismo.
 
Na realidade, todos têm responsabilidade pelo sonho despedaçado das Diretas Já. As elites políticas nem de longe cumprem e jamais cumpriram a sua função. É necessário cobrar, exigir com responsabilidade e atenção, muita responsabilidade mesmo e de olhar maduro, com argumentos infalíveis.
 
Enquanto isso, parte da sociedade reclama e reclama e reclama. Reclamar direitos só é justo e bom quando se dá a contrapartida.
 
Onde está aquele jovem que reclama da falta de verbas para a educação, mas falta às aulas, rabisca a carteira, cola na prova com o discurso ridículo de que “quem não cola não sai da escola”, danifica livros da biblioteca e assume o que fez? Rapidamente vem alguma desculpa e milhões apoiam a reclamação... Afinal, estamos em um estado democrático e pode-se falar o que quer.
 
Onde está aquele outro que não respeita as leis básicas de trânsito, coloca o carro na rua mesmo podendo ir a pé e reclama do caos urbano? Outros milhões enchem a boca: “faltam políticas públicas”.
 
Vem o outro, o motociclista, deitado sobre a moto e em alta velocidade pelas estradas. Provoca acidente, mas no hospital faltam recursos básicos... E o sujeito que provocou acidente porque quis esperneia como criança com fome e querendo mamar. E diz: “eu pago imposto e não tem atendimento adequado. Mais verbas para a saúde...” E lá vai crítica à saúde pública. (P.S.: estou longe de dizer que a saúde pública é um primor).
 
Ou melhor, ele não diz “faltou atendimento adequado”. Ele diz: “é um tipo assim, meio sei lá. Eu estava indo e veio o caminhão, tipo correndo, tipo assim, cara, na minha frente. Sei lá. Voei, mano. Cara, voei assim, tipo ‘vum’. Tipo doido. ‘Piração’, cara”.
 
E depois vem os “Black bloc” com as suas máscaras. “Peraí”, máscara? Por que não assumem quem são? Máscara é a expressão do tudo igual, não oferece identidade, rosto. E essa máscara exibe um sorrisinho irônico, de quem sabe tudo. E quebram em praça pública para ainda ficar pior.
 
Resolvem destruir patrimônio público, agências bancárias, etc. e tal. Garotos e garotas, uma pequena contribuição. Pensem no seguinte: vocês não vão acabar com o capitalismo assim nunca. Nunquinha. Até porque vocês adoram comprar, exibir grifes, comer muito mais que o necessário, sem contar os “iPad” da vida que vocês ostentam ou desejam ostentar. Falar em quebrar o capitalismo dessa forma é coisa velha, atrasada, vetusta... E vocês são mocinhos. Tem coisa errada aí, gente. Leiam mais e vocês vão entender. Quer dizer, espero.
 
E agora mataram um cinegrafista no Rio.
 
Meu Deus!
 
Sem contar que o sujeito que lançou o artefato correu. Mas correu por que, bem? Se foi homem para lançar seja homem para assumir. Bem, acho que isso é querer demais.
 
Jovens, reajam! Usem a força, a união, o debate, a criatividade para inovar. Faltam políticas públicas sim. Sempre faltou. Tirem a máscara e assumam quem são. Vocês são belos, com muito a construir. Assumam que deve-se cobrar muito, mas tem que se fazer também e melhor. Isso se chama “dar a contrapartida”.
 
Democracia, garotos e garotas, envolve um esforço desmedido para a construção. Está longe de ser falar o que se quer e só. Tem tudo a ver com o empregar a força criativa não apenas para o interesse próprio, mas para fazer desse país um espaço de direitos reais, concretos.
 
Faltam políticas públicas? Lógico que sim. Então, ajudem a criá-las.
 
Faltam verbas para a educação. Evidente. Então, estudem mais e cuidem do seu patrimônio para que se dê visibilidade e importância à união dos estudantes por essa causa justa.
 
Faltam verbas para a saúde? Nem discuto. Então, cuidem também mais da sua própria saúde, consumindo menos, passando longe das drogas e se cuidando mais.
 
A violência está insuportável? Então eduquem os seus filhos para aprender a respeitar os outros em todas as situações.
 
Um cinegrafista morreu no Rio enquanto trabalhava. Registrava as manifestações populares.
 
Pobre sociedade que confunde democracia com mesquinharia! Pobres de nós se continuarmos assim.
E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 06/03/2014

Só posso dizer que seu texto está impecável, maravilhoso, mas me incomoda muito pensar que as esperanças em termos uma democracia com D maiúsculo como deveria ser estão se esvaindo.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 01/03/2014

Vera,infelizmente o que você diz em seu texto é a pura verdade.Estamos vivendo uma situação onde ninguém quer ceder. Está faltando união, amor, respeito, solidariedade,honestidade, uma crença religiosa e tudo mais que foi perdido com o passar dos anos.Esta falta não é só em nossos governantes, mas em todos setores formam a nossa sociedade.Não temos a humildade e muito menos um líder de verdade. Alguém tem que ceder, senão pobre de nós que continuamos assim.Lindo seu texto, um grande abraço amiga.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 27/02/2014

Vera, se tivermos que esperar que estes preciosos parágrafos de seu texto venham a ser lido e absorvidos por jovens, perca as esperanças, é pena, não tem dúvida. Mesmo se lessem, com a escolaridade actual, como vc mesma diz, colam, rasgam, ofendem e agridem professoras(res), estariam aptos a assimilarem, pelo menos parte da mensagem, me consideraria satisfeito. Um simples berro ou grito que vc der na rua XV de Novembro, é suficiente pra se iniciar quebradeiras e arrombamentos, na pior espécie de exemplos de vandalismo que se pode esperar. A pestilenta e inesplicável maldade que esse pessoal carrega em suas ações, é algo diabólico, insano, loucura gravíssima que não tem esplicação. Nem solução. Eu chamaria essa camada, mascarada e covarde de geração espontânea pois, não acredito que, depois de ser amamentado no seio de uma mãe, não restam, pra eles nem um pingo de respeito e amor ao próximo.

Vera, agradeço a mensagem de melhoras pro meu filho Maurício, ele já esta bem melhor, segundo o último exame, o mal está definhando e em uma semana já estará apto a reiniciar suas aulas. Agradeço de todo o coração. Parabéns pelo seu trabalho, está maravilhoso.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 27/02/2014

Me permita fazer minhas todas, literalmente todas as suas palavras. Ainda assim não me arrependo e nem você, eu sei, de ter lutado tanto contra o arbítrio. Não faz mal, um dia a gente chega lá. Democracia é como um fruto, tem de maturar, e às vezes o processo de maturação dói.

Mas só para desestressar. Maninha, faltou pouco para você atingir a perfeição, era só não ser palestrina.KKKKKKK Um beijo

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 26/02/2014

Vera,tudo o que você escreveu é verdade.

Em todas as linhas e entrelinhas.

Um abraço

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 26/02/2014

Vera, a Constituição Cidadã de 1988, não previu esse caos que estamos vivendo, na ditadura quem passou mal foram os intelectuais, a mídia e anarquistas, hoje em dia todos estamos vivendo mal sem excessão, povo, governante, empresário, professor, jornalistas, etc, todos estão sendo assaltados e mortos aos "montes", estamos dentro de uma guerra civil e muitos não perceberam. -Isso é democracia? Pior que é, assim reza a constituição, ninguem vai preso,os que vão ficam pouco tempo, nunca teve tanto escandalo em governo como agora, isso desmotiva a todos e a prova esta ai nas ruas, esse assunto é polêmico, mas bom, parabéns pela sua opinião, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 26/02/2014

Tudo o que descreveu aqui,aumente centenas de vezes e o resultado é o nosso País. Todas as mazelas políticas,descasos,roubos,perversidades,

leis ultrapassadas e não cumpridas,jovens sem um pingo de educação e moral,pois os pais acham que o governo é que tem que educá-los,mulheres que tem um filho por ano só para receber o salário família e depois os despejam na sociedade,as DROGAS que rolam em todos os cantos e que o governo literalmente fechou os olhos para esta desgraça,os ""de menores"" que estão matando nossas famílias e ainda debocham da gente quando pegos etc...etc... E o pior é a distribuição de renda do nosso governo.90º/° para eles e o resto para sucatear o PAIS Pobre de nós que trabalhamos tanto e fizemos sempre tudo certo para terminar assim...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 26/02/2014

Vera - Eles querem tudo isso que você mencionou, ou melhor necessitam urgentemente disso tudo, mas ....... Vera é ano da Copa do Mundo. Quem sabe se formos Campeão vamos pensar em melhorar o nosso Brasil Varonil. Agora se perdermos vão ficar o resto do ano apontando os erros porque não levaram os jogadores que eles apontavam como craque. Alias Vera, será que da para esperar mais um pouco, sabe , vem ai as Olimpíadas... Forte Abraço ...

Enviado por José Aureliano Oliveira - joseaurelianooliveira.aureliano@yahoo.com.br
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