Leia as Histórias

Categoria - Outras histórias Coisa da Pauliceia, mas sem desvario Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 20/02/2014
Passeio por variados sites com interesse em saber. Saber sempre um pouco mais, podendo partilhar algum conhecimento com alguém que também tenha esse tipo de apetite.
 
Inevitavelmente, ligo o computador pela manhã, passeio pelo noticiário e me desanimo. Sempre. Mas penso que tudo o que existe por aí é o resultado daquilo que somos, pensamos, sentimos, do como agimos. Não existem alienígenas vagando pelo planeta. Pelo menos eu espero. E entendo que temos boas intenções, mas nos perdemos constantemente no meio a milhões de abismos e enganos. Tudo é passageiro. Mas os erros estão aí e precisamos buscar soluções e o tempo é curto.
 
Lendo na edição eletrônica da Isto é Independente, de 27 de janeiro deste ano, me deparo com a seguinte reportagem:
“O médico afegão, um dos 4,5 mil refugiados do Brasil, enfrentou a guerra em seu país, fugiu da perseguição política no Irã e foi obrigado a trocar o avental branco pelo trabalho nas oficinas de costura de São Paulo”.
 
Com o interesse de várias editoras na publicação de obras literárias de alguns países do mundo árabe nos últimos anos, acabei conhecendo um pouco mais daquele espaço e me apaixonando por aquela cultura. Tratei de ler vários daqueles livros limpando as lentes da alma, os óculos dos preconceitos criados e expandidos depois do 11 de setembro. O duplamente famigerado 11 de setembro! Em 73, era Pinochet que derrubava Allende e, quase três décadas depois, o capitalismo sofrendo os seus abalos, levando para a sepultura mais de três mil almas.
 
E comecei a perceber o sofrimento sincero, em um sentido muito mais amplo, daqueles homens e mulheres que lutam para simplesmente ser. Meninos que inventam espaços para um jogo de futebol, mesmo as minas terrestres estando bem ali ao lado, mostrando furiosamente os dentes para os desatentos. Descobri cabeleireiras que tentam fazer dos seus salões um espaço para sonhos de liberdade. Descobri mulheres que se reúnem na casa de uma professora para exercitarem a retirada do véu e conversarem com desenvoltura e verdade.
 
E continuo a ler a matéria sobre do médico afegão:
“Envolto em tecidos e recortes de papel, no segundo andar de um antigo prédio da Avenida Rangel Pestana, no centro comercial de São Paulo, o afegão Wakilahmad Tajik, 36 anos, trabalha em uma oficina de costura dez horas por dia. Com a fita métrica pendurada no ombro, Wakil, como é conhecido no Brasil, desenha em um papel pardo o esboço da peça que mais tarde vestirá os manequins das lojas do Brás. Diante da máquina de costura, porém, os pensamentos se fixam em outro objetivo: como voltar a exercer a profissão de médico. Wakil é um dos mais de 4,5 mil estrangeiros refugiados no país. ‘O Brasil tem aumentado a presença internacional e isso impacta no imaginário dos povos’, afirma Andrés Ramirez, representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados no Brasil (Acnur). ‘O crescimento econômico também levou pessoas do mundo inteiro a solicitar refúgio no País’, diz.”
 
E continuo lendo e pensando na situação desse e dos milhares de imigrantes que bateram à porta de São Paulo. Não necessariamente pelo caminho da hospedaria lá no Brás. Milhares que vieram pelo sofrimento, pela insanidade dos governos autoritários, fugindo da fome e de tantas outras imposições da vida. Vieram, simplesmente.
 
E o árabe aprendeu a conversar com o judeu, quem sabe comendo um pastel na 25 de Março sem olhar rancoroso. O japonês aprendeu a conversar com o chinês na Liberdade ou na Vila Sônia. Quem sabe em Suzano. Ou com o coreano, deixando as mágoas da tragédia da II Guerra no seu devido lugar – no passado.
 
Em São Paulo, o polonês aprendeu a conversar com o alemão, que também aprendeu a dialogar com o inglês e o francês. E o tecido social foi se formando, único, indefinível, carregado de sutilezas, apenas com a vontade de deixar a vida explodir em beleza, direitos e novas conquistas, desenhando uma história bem menos dolorosa para as futuras gerações.
 
“As palavras em português ainda saem com dificuldade e o idioma persa prevalece. Wakil nunca havia pensado em viver no Brasil, mas a fala firme dá lugar a um leve sorriso quando se lembra do dia em que chegou. ‘Troquei tudo que tinha pela liberdade e pela paz que encontrei aqui.’ A vida de Wakil deu muitas voltas e não à toa as malas ainda repousam à vista em uma prateleira na sala, no bairro paulistano que, ironicamente, também leva o nome de Liberdade”.
 
Boa sorte, Doutor. Seja feliz por aqui. Que logo deixe de lado a fita métrica. Use mesmo o estetoscópio, o bom senso, o interesse sincero pelos seus pacientes. E trate com respeito e igualdade as mulheres, Doutor. Nós também sentimos dores, medos, depressão, insegurança. Odiamos o desprezo. Gostamos de igualdade e atenção. Aprendemos isso muito lentamente com os Iluministas franceses do século XVIII, mas, infelizmente, vocês não estudaram essa turma genial de pensadores. Mas é tempo de aprender. O espaço é nosso também.
 
Mas não se esqueça de usar a fita métrica para medir a felicidade que é viver em paz, sem a insegurança e o temor dos atentados. Os problemas são outros, grandes demais também, sem fim, mas com toda a segurança lhe digo: São Paulo abraça, acolhe, tem beleza, sorriso, conversas e ainda existe muito respeito pairando pelos ares.
 
Receba essas flores, doutor, afinal, isso aqui é um pouquinho de Brasil “iá ia”.
 
E-mail: vmoratta@terra.com.br
Localização da história
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 21/02/2014

Que lindo Vera!

Parabéns.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 21/02/2014

Esta é a beleza desta cidade. Já escrevi aqui mesmo que São Paulo é um mundo dentro do mundo.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 21/02/2014

Querida Vera, gostaria que o Wakil tomasse conhecimento deste extraordinário texto, voltado as liberdades. Ele, naturalmente, um homem de ciências, vai sentir a valorosa contribuição da mulher no desenvolvimento humano no mundo livre. Rasgar o veu da hipocresia, viver livremente, dar a mulher, não, DEVOLVER o sagrado direito que lhe foi usurpado por conveniências religiosas fundamentais, em épocas obscuras. Estou muito aborrecido, Vera, depois de ler a narrativa do Capasso e em seguida, a sua, causa uma transformação estranha em minhas concepções com relação as nossas CRENÇAS, FÉ, COMPORTAMENTO CÍVICO E DE NATUREZA SOCIAL. Bem, o que vale é teu espirito de realismo, independência, otimismo tão bem explícitos nessa mensagem maravilhosa. Precisei levar meu filho, Maurício ao Hospital da USP com suspeita e depois, confirmação de que ele, (54 anos) contraiu a dengue, essa é uma das causa de meu aborrecimento. Parabéns, Moratta.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 20/02/2014

Vera, muito didático seu texto, quem sabe um dia o Dr. Wakil volte a exercer a medicina e nos ajude a combater a falta de médicos, parabéns, abraços, Nelinho.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 20/02/2014

Lindas as flores e linda sua mensagem a esse médico, que DEUS o livre do mal como tem livrado até aqui.

Pois São Paulo apesar de ser muito acolhedora, às vezes se torna amedrontadora.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 20/02/2014

Esse pessoal se dariam bem por lá também se os governos locais, situação e oposição permitissem. Mas eles se mantem no poder exatamente por dividir o povo, assim como aqui vivemos esse jogo de interesses políticos, financeiros, partidários e religiosos.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 20/02/2014

Estimada Vera,tem o português que conversa com o espanhol,sem rusgas,pois lá na Europa há regiões em que existe um " certo rancor entre eles",por causa da historia,assim como "nós e argentinos",otima sua colocação com referência as mulheres afegãs,lá praticam crime hediondo,o que é praticado lá o homem deveria ter vergonha de existir,tem as crinças que sofrem também,tomara que Deus ilumine esse médico no Brasil e volte rápido a exercer sua profissão.

Tomara que a fita métrica dele seja infinita ao medir uma mulher pois conceituos culturais são dificeis de serem mudados,mas muda-se.

Vera,o que não existe mais na humanidade é o amor ao próximo,o respeito,carinho,a espiritualidade seja de que forma for.

A Bandeira da ONU, deveria ser "tratar os desiguais, iguais" isso para os termos mais fácil de ser ententido pela humanidade,veja o que esta acontecendo na Argentina,Venezuela,Ucrania,Grecia,Haiti esse páis há muito tempo,em breve muitos estarão na Pauliceia.

Como sempre seus textos só enriquecem-me.

Um abraço.

Vilton Giglio

Enviado por Vilton Giglio - viltongiglio25@gmail.com
Publicado em 20/02/2014

Vera, o Doutor, mesmo sabendo de tantos problemas existentes em nossa cidade e em nosso país, ele está feliz. Mesmo que tenha deixado de clinicar deixando de lado o sentido principal de sua vida, ele continua feliz. Então resta-nos desejar boa sorte e que um dia ele possa exercer sua verdadeira profissão. Amei seu texto, lindo demais! Um grande abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 20/02/2014

Essa mistura de povos foi algo de extraordinário e aproximou vários continentes em uma diversidade de etnias num lugar único, confabularam ao seu modo por gestos mímicos e se entenderam entre si e depois articularam as primeiras palavras em um idioma desconhecido por eles, que era o português. Verdadeiro milagre de aceitação do outro mesmo com as diferenças, hoje miscigenado. Parabéns.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 20/02/2014

Vera, sábias palavras, já imaginou se todos os povos guardassem rancor como entre Judeu e Palestino lá no Oriente, estariamos todos mortos, creio que uma grande virtude do Brasil são esses povos se darewm bem aqui, como voce citou alguns exemplos, parabéns, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
« Anterior 1 Próxima »