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Categoria - Outras histórias O reencontro e o tempo Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 17/01/2014
O dia teria que ser aquele. Como em tantos sábados dessa vida, aquele encontro teria que ocorrer em algum sábado de janeiro. Qual? Não importa. De preferência logo no início do mês, abrindo alas para um ano novo, com energias redobradas e determinadas, crenças definidas e sinceras.
 
Ainda na estrada eu ia cismando: dessa vez os passeios serão restritos, mas tenho que ir ao Ipiranga. No sábado.
 
Historicamente esse é, para mim, o dia da contemplação, da observação minuciosa dos espaços, rostos, nomes das ruas. Com a calmaria é possível respirar as memórias, os casos, o tempo.
 
É assim que faço as pazes com um passado já remoto. Tentando enxergar com o olhar carregado de compaixão os tempos do meu pai ainda criança. De dura infância pobre, tentando fazer a vida, carregando marmitas, trabalhando nas Linhas Corrente.
 
Ele sempre frequentou o mesmo barbeiro. Sempre falou da Rua Costa Aguiar, mais que da Silva Bueno. Falou de um dia que jogou uma partida de futebol com o Barbosa, o goleiro da famigerada Copa de 50.
 
Mas eu frequento mais essa última. Foi ali que a minha lembrança acabou por permanecer mais viva, visto que marquei presença mais constante visitando a minha tia Evelina.
 
Aos sábados, a vida ali corre lenta. Poucos passantes pelas ruas de nomes históricos, relembrando os primeiros anos da independência política. Imagino a velocidade dos anos 50, com as esposas daqueles operários esticando a comida para que a mesma não acabasse tão depressa. E os trabalhadores, com roupas puídas e solas gastas, voltando para casa e planejando a pelada do final de semana.
 
Fundamental é comer um salgado de frango com guaraná na padaria da Silva Bueno com a Gonçalves Ledo. Sentada ao balcão, observando quão humilde e tradicional é aquela padaria, sinto o sabor de um tempo construído com esforço desmedido. Contemplo os olhares, os pedaços de melancia, mamão e abacaxi cortados e expostos em cubinhos para uma eventual vitamina.
 
Acabou a empada. O jeito é encarar uma coxinha. Não importa. O objetivo é sentir o gosto do trabalho incessante proveniente das mãos dos trabalhadores de um bairro que ajudou a moldar a Pauliceia.
 
E o tempo tem que estar meio nublado para me dar a impressão maior de entendimento da construção da história de vida do meu pai. Não, o sol economizou luz para ele. O sol teimava em olhar para o outro inverso da caminhada do meu pai.
 
Mas eu visito o bairro aos sábados. E compro chocolate na Chocolândia, visito a loja sem pressa e descobrindo sempre coisas novas com muito gosto. Também trago para casa os papéis apropriados para embrulhar as trufas que se tornarão presentes para a minha sobrinha e algumas amigas, como uma extensão da doçura que vem dali e que deve durar o ano todo. Uma doçura a ser compartilhada com um amor infindo e com a marca de uma esperança, pois mesmo o sol tendo virado as costas, eu teimo eu chamar a sua atenção para um tempo importantíssimo, de lentas construções, muito sofrimento, escassez e conversas sobre a Segunda Guerra e o estrago ambiental provocado pelo uso do gasogênio. Tento lembrar que o sol deve ser democrático em todas as circunstâncias, inundando almas.
 
Prefiro contemplar o Ipiranga rememorando os tempos passados, de caminhar pela cidade em uma segunda marcha... Apenas sentindo a vida fluir com intensidade e respeito.
 
E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 23/01/2014

Bater à porta de nosso passado traz belas recordações, mas também muita saudade. Estudei no Senai Rodrigues Alves e recordo-me destes locais do Ipiranga. Parabéns pelo relato.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 20/01/2014

Estimada Vera

O Bairro do Ipiranga é um dos muitos de São Paulo e do Brasil que todos deveriam cohece-lo,é lindo,tem histórias e muitas,ainda vou saber se é um dos mais antigos?

Muito otima sua história,assim como todas.

Bjs.

Enviado por Vilton Giglio - viltongiglio25@gmail.com
Publicado em 20/01/2014

Verinha, querida, mais uma vez um arrebatador texto, enaltecendo lembranças de seu querido pai e as visitas as casas comerciais, padaria, chocolates, sempre descrevendo particularidades dos passantes, seus modos de se expor, numa verdadeira volta ao passado, com sua extraordinária memória, de tantas recordações. O prazer da gula ao mencionar chocolate, perco determinados limites de minha dieta e parto pra cima da primeira barra que se oferece... mas, como estou em casa, na frente do computador, não tenho chocolate guardado. Então, vai balinha de café, mesmo.

MORATTA, ADOREI AUA NARRATIVA E, COMO DIZ NOSSO PREZADO COLEGA TUTU, DIANTE DE TANTA BELEZA, O QUE DIZER? PARABÉNS, VERA QUERIDA.

modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 20/01/2014

Av. Silva Bueno, nas minhas lembranças é Av. Siqueira Bueno, Água Rasa. O Arthur me fez ler o texto de Vera com mais atenção. O texto Vera me fez entender o cuidado que temos que ter com as coisas, objetos...lembranças, digo o Olhar diferente! Vivendo e aprendendo...inclusive vendo o mapa da localização.

Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
Publicado em 18/01/2014

Ipiranga, ainda é um bairro que manteve a sua tradição, é possível fazer uma viagem ao passado em determinadas ruas do bairro.

Dia 15/12/2013 tive a grata satisfação de saber que a doceria Fisher que deve ter uns 45 anos ainda está no mesmo local. A. Gentil de Moura.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 18/01/2014

Vera, minha querida.Vc realmente tem um dom maravilhoso que nos permite participar de suas lembranças e sentir toda essa emoção que flui do seu texto.Abraço forte.

Enviado por Neide Gaudenci de Sá - neidegsa@gmail.com
Publicado em 17/01/2014

Vera, estou como o Estan, o bairro tem outra cara quando contado por você. Lindo demais, meus parabéns e viva o Ipiranga! Um grande beijo.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 17/01/2014

Querida Vera,faço sempre um turismo pela Av. Silva Bueno,para mim é uma quase 25 de março,adooooro passear por lá e conheço muito bem esta padaria pois estaciono sempre na rua lateral.A chocolândia é uma passagem obrigatória no meu lazer,lá a gente se perde nos doces e chocolates,e eu também compro pacotes de paçoquinhas,doces de abóboras de leite etc...etc...sempre para dar aos porteiros ou serviçais que conheço pois todos adoram...Talvez um dia a gente se cruze por esta tão abarrotada Silva Bueno. Beijos!!!

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 17/01/2014

Vera, o Ipiranga ficou mais bonito com sua homengaem, com suas ruas de nomes históricose a sua poesia completando o passado do bairro, parabéns,Estan

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 17/01/2014

Vera, hoje lendo seu texto, viajei de volta no tempo.

Me vejo batendo á porta das Irmãzinhas da Imaculada, pedindo uma vaga no pensionato,não era na Avenida Nazaré, era do lado de baixo do colégio.Tinha somente uma parte do mês da vaga,sem emprego, pois havia acabado de sair de outro colégio, o Madre Cabrini.E mais uma vez a mão de Deus me abriu aquelas portas, e encontrei a Regina que me arrumou um emprego no Comind.Estou agora emocionada porque a emoção e o sentimento de gratidão faz parte da minha vida.Só aqui no site mesmo para a gente relembrar fatos marcantes e inesquecíveis.

Obrigada amiga,por me fazer lembrar.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
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