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Categoria - Outras histórias O propagandista Autor(a): Roberto Grassi - Conheça esse autor
História publicada em 09/01/2014
Todo o dia útil, às 6h30 da manhã, ele tomava o ônibus na Avenida Doutor Arnaldo, próximo ao Hospital das Clínicas, e dirigia-se para a região do Paraíso, onde iria passar pelo ponto de encontro, no Bar do Sujinho, na esquina da Rua Treze de Maio com a Praça Amadeu Amaral. Antes de sair de casa, porém, examinava atentamente o malote de serviço e verificava se as amostras grátis estavam todas colocadas nas devidas repartições, pois, tinha que visitar várias especialidades médicas e para cada qual havia um tipo de medicamento especializado.
 
Naquela época, ele não tinha automóvel. Ao contrário de hoje, o automóvel era um artigo de luxo, somente para pessoas bem posicionadas na vida. Portanto, tinha que carregar, além da mala de visitas, uma caixa de papelão de porte médio debaixo do braço, com uma reserva de amostras grátis caso viesse a precisar. No campo do profissionalismo, fazendo uma análise comparativa à ciência médica daquela época e com a de hoje, a medicina nesse ínterim fez tanto progresso que, praticamente, não existem mais nenhuma pessoa sadia.
 
Explicou: “De alguma forma, todos nós estamos sujeitos a algum tipo de enfermidade devido aos fatores do stress a que estamos sujeitos nas grandes cidades. A medicina moderna, por incrível que pareça, não se preocupa com as causas das doenças e sim deixa a doença aparecer e trata dela, depois de instalada, tendo os órgãos oficiais de saúde pública (SUS) que investir grandes somas de dinheiro para tratá-las. Atualmente, a medicina moderna só procura observar os sintomas, porém o verdadeiro tratamento só é possível quando nos preocuparmos com as causas”.
 
 
Como exemplo disso, se alguém tem uma doença no joelho, o joelho não é a principal causa e sim o problema pode estar ligado a uma queda ou alguma doença reumática ou ao desgaste natural do osso ou a ausência do líquido sinovial. Quando alguém tem uma doença mental, a mente não é a causa, a causa sim pode estar ligada ao stress dos dias atuais como uma causa dominante. Na época, ele lembrou-se de um estudo feito no laboratório onde trabalhava sobre o tema do enfarte do miocárdio. Segundo as concepções da época, para ocorrer um enfarte do miocárdio seriam necessários 40 anos de uma má alimentação que, pouco a pouco, provocaria um depósito de gordura nas paredes das artérias e dos vasos que irrigam o coração.
 
Dizem que o enfarte é provocado pela pressão alta, porém a pressão alta não é uma causa isolada. Pode ser causada pelo tipo de vida que a pessoa leva. Apreendeu também que, enquanto os cientistas não souberem fabricar uma plantinha viva, é melhor confiar na natureza e não no que diz a ciência. Um médico do seu setor de trabalho certa ocasião, depois de visitá-lo no consultório, disse-lhe o seguinte:
 
- “Todos nós teremos saúde preservada a partir do momento em que a ciência acabar de descobrir como matar todas as bactérias e fungos existentes, os vírus e rotavírus e de bombardear com eficiência todos os tumores benignos e malignos do sistema do corpo humano. 
- “A doença não acontece por acaso - disse ele. 
- "É um inimigo malvado de quem um dia todos nós seremos as suas vítimas impotentes". 
– “Mas nós aqui, os médicos, acalmamos os temores e as dores dos pacientes com pílulas mágicas iguais a estas que você está me trazendo. 
- "Agora, acredito eu, oriundas de estudos científicos realizados com a maior seriedade pelo laboratório multinacional que você atualmente representa”. 
 
Depois disso, olhou-o sorrindo com escárnio. E lá veio o pedido, para que ele levasse ao seu chefe superior a disponibilidade de uma verba de custeio para um congresso médico que iria se realizar no exterior.
 
O propagandista não lhe prometeu nada. Disse-lhe apenas que iria levar o seu pedido a direção geral do laboratório e que ele aguardasse a confirmação.
 
– “Não esqueça doutor – disse sorrindo o propagandista – que há a promessa ao povo da felicidade eterna para o dia de amanhã com a pílula mágica contra o câncer, a vacina ideal contra as principais doenças que afligem e acometem a humanidade”.
 
Naquele momento, houve a necessidade de retribuir o escárnio e o propagandista disse-lhe em tom de brincadeira:
– “Um dia, quem sabe doutor, iremos lhe trazer-lhe como brinde, da propaganda médica, um coração de plástico, um pulmão totalmente de celulose – e continuou – o objetivo principal do projeto é de uma amostra grátis da figura do homem artificial, totalmente lavável, descartável após 100 mil quilômetros de uso e, depois de criado, todos eles não necessitariam mais de nenhum plano de saúde público ou privado”. 
 
Ele havia dito isso porque, sabia que ele era um promissor candidato a proprietário de uma sigla de um plano de saúde (atual) que na época estava em plena fase de formatação. Ele riu da ironia e da vã filosofia. “Esse cara deve estar me gozando” - deve ter pensado.
 
E o propagandista ainda continuou falando-lhe:
– “Sabe doutor, os políticos brasileiros estão todos dispostos a realizarem os milagres na saúde pública; eles, geralmente, participam dos conselhos de administração dos planos de saúde e se preocupam com o bem-estar geral da população; monopolizam a pesquisa científica, combatem as doenças, são os senhores cavaleiros da química farmacêutica moderna, mentores das cruzadas sobre a saúde pública, e do bem-estar de todos nós, os crédulos de suas falácias”.
 
Ele riu da ironia. A conversa era ligeiramente em tom cáustico. O propagandista sabia que ele era voltado para a cultura do mercantilismo, do lucro fácil, pouco se importando com a saúde pública. Mas pensando melhor, nada lhe falou. Apenas refletiu com os seus botões sobre o verdadeiro charlatanismo, contrário ao juramento de Hipócrates. No mundo em que todos trapaceiam, infelizmente, o homem honesto é o que se propõe a fazer a figura do charlatão. Sem nada mais a falar-lhe, despediu-se na porta do consultório.
 
O propagandista voltou para o ponto do encontro. Avistou de passagem o “Gastrite”, da Usafarma, e o “Embalsamado”, da Ciba. Após uma breve saudação, se encaminhou em direção da Real Beneficência Portuguesa, na Rua Maestro Cardim.
 
Lá, encontraria outros médicos importantes como o Euriclides de Jesus Zerbini, o Adib Jatene, o Hélio Magalhães, a Maria Cristina Barione, o Horácio Arakake, entre outros cardiologistas de plantão. Entrou em uma sala acanhada e sentou-se em uma poltrona de couro legítimo. Desembaraçou-se da mala que estava um tanto pesada e produzia calos nas mãos e a pôs no chão. Uma decisão ocorreu ao entrar no consultório do lendário doutor Mario Isaías. Tinha que lhe entregar um pedido de amostras contendo nada menos que duzentos comprimidos de benzodiazepínico. Precisava de seu carimbo para confirmar a requisição do medicamento.
 
De súbito, teve vontade de rir daquele enorme carimbo que continha o seu nome completo, o CRM, a especialidade, e os dados de seu hospital particular. O tal carimbo devia medir aproximadamente uns quinze centímetros de comprimento por uns dez de largura. Tinha que carimbar nada menos do que duzentas papeletas. Era uma situação hilária, não menos ridícula.
 
Outro médico de comportamento exótico, um coronel do exército nacional que tinha exposto na parede do seu consultório, no alto do Ipiranga, um quadro dependurado com o seu conteúdo principal voltado para a parede. Estávamos em plena revolução dos anos 60. Ele soube através de um colega que o médico só atendia a propaganda. Depois do propagandista se perfilar diante da figura exposta no quadro e bater uma continência. Quando cumprido a exigência, ele virava o quadro na parede e eis que surgia a figura do Che Guevara que também era médico. Era uma brincadeira perigosa em plenos anos de chumbo.
 
Depois da faina diária, se encaminhou para a Rua Treze de Maio, no Bar do “Sujinho”, apelido do boteco dado pelo Raquetão do Pravaz Recordat, onde era realizado a “chacrinha”, um ponto de referência dos propagandistas para o costumeiro brinde das 6h da tarde.
 
Lá, encontraria outros ícones da propaganda médica da época, como: Raquetão do Pravaz, o Pingoleta da Merck, Embalsamado da Cíba Gaiger, o Gastrite (falecido) da Usafarma, Prepúcio do Roche, Cascata (falecido) do Astra, Reco-Reco (falecido) do H. Robins, Galináceo e o Zangado, ambos da Abbott, Mandraque do Clímax, Cavalista e Pisca-Pisca ambos da Usafarma, BTL (bafo de tigre louco) do Lafí, Chico Baleiro da Bayer, Gasolina (falecido) do Andrômaco, Pistolinha também da Bayer, Camarão do H. Robins, Ratazana da Usafarma, Conde Drácula da Squibb, Cegonha (falecido) do H. Robins, Centopeia Anfíbia (falecido) do Instituto Pinheiros, Zás-Trás da Berlimed, Camisinha da Johnson & Johnson, Vaquejada (falecido) do Organon, Lambari do Aché, Tostão do Lepetit, entre tantos outros de saudosa memória.
 
E-mail: jr_grassi@yahoo.com.br
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Publicado em 15/01/2014

Grassi, muito interessante o seu texto, que me despertou mais e mais curiosidade. Meus parabéns. Receba o meu abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 13/01/2014

Uma síntese de apanhado sobre "propagandistas de laboratórios", responsáveis pela distribuição de medicamentos tradicionais e de novos lançamentos, fazendo um trabalho digno de "formiguinhas", levando medicamentos aos mais distantes rincões de de toda região. Paralelamente, o Grassi vai desenrolando curiosidades que ocorrem nessa nobre profissão. Muito bem elaborado, Grassi, parabéns.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 10/01/2014

Caro Capasso, não sei exatamente o nome oficial do "Gastrite" ali no setor, todo mundo tinha apelido. Quanto ao Ivo, acho que o conheci, devo ter trabalhado com ele na Rua Itapeva nos anos sessenta,(naquele tempo eu trabalhava pelo Laboratório italiano Simis de produtos específicos para Cardiologia e Oncologia) porém, não sei do seu apelido. Gasolina era outro propagandista, também, não sei o nome oficial. Se não estou enganado, o supervisor do Andrômaco naquela época, era o Marciano e o Chefe da Propaganda, o Badra. Um Abraço Grassi

Enviado por Roberto Grassi - jr_grassi@yahoo.com.br
Publicado em 10/01/2014

CARO GRASSY,fui propagandista da usafarma por 11 anos(62 a 73)fiquei conheçido´pelo apelido de MIXIRICA, o meu irmao ivo fazia a itapeva pelo andromaco,na mesma epoca,(seria o gasolina)

qual e era o nome do gastrite,eu nao lembro do apelido.

Enviado por João Cláudio Capasso - jccapasso2@hotmail.com
Publicado em 09/01/2014

Gostei muito do seu texto .Sempre que via um propagandista de terno e gravata me perguntava:-Ser'a esta profissao valorizada?

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 09/01/2014

Gostei muito do seu texto .Sempre que via um propagandista de terno e gravata me perguntava:-Ser'a esta profissao valorizada?

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
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