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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas A aprazível Vila Esperança dos anos 40 e 50 Autor(a): Debrando - Conheça esse autor
História publicada em 07/01/2014
Eu nasci na Vila Esperança no finzinho da primavera do ano de 1941. A casa em que meus pais moravam quando nasci ficava na Rua Evans, entre as ruas Heloisa Penteado e Tobiaras, e seu proprietário era um senhor de nome Afonso Giarletta. Fui batizado na Igreja Matriz da Vila, na Avenida Padres Olivetanos (Rua Maria Abigail na época), porém já havia recebido o nome de Hildebrando Vitoriano Cavinato, no Cartório de Registro Civil.
 
Ainda criança, junto com minha família, me mudei para a Rua Heloisa Camargo e depois, já adulto, fui morar em outra casa na mesma rua, ali me casei com a Tania e ali nasceram nossos filhos, a Cinthia e o Flavio.
 
E eu não nasci em hospital. Como quase todas as crianças que nasciam nos arrabaldes ou periferias, nasci em casa mesmo.
 
E eu vim ao mundo pelas mãos de uma parteira, a Dona Gertrudes, que alguns anos antes, em 1936, também havia trazido a este mundo a minha irmã Maria.
 
Vinte anos mais tarde, minha irmã ficou grávida, e talvez por falta de informação não fez acompanhamento médico pré-natal e um belo dia, em casa, sentiu dores, entrou em trabalho de parto e não restou outra alternativa senão recorrer à parteira... Dona Gertrudes!
 
Com isso, aquela competente parteira que fez nascer minha irmã, fez nascer também o filho dela, o meu sobrinho Sebastião. E entre os dois, e no meio de um monte de crianças, eu.
 
A dona Gertrudes morava na Rua Rincão, entre a Rua Cecília e a via férrea, do lado direito de quem desce. Ela tinha um filho ou neto, não sei exatamente, que se chamava Friaça (não sei se Friaça era nome ou apelido) e o Friaça ainda adolescente se apaixonou pela minha irmã, porém nunca contou isso a ela. Eu ainda era criança e quando ele me via, para fazer alguma graça ou satisfazer seu ego, me chamava de "cunhado" e eu achava isso engraçado e retribuía chamando-o também de "cunhado" até por que não existe cunhado solo. Quando um é cunhado do outro, o outro necessariamente é cunhado do um.
 
Ainda na Rua Rincão, quase em frente à casa da dona Gertrudes, morava um casal que tinha, se não me engano, quatro filhos: a Elza, a Orquídea, o Roberto e a Dorotea. A Orquídea depois se transformou em minha prima, pois se casou com um dos meus primos, o Newton.
 
Mas, voltando à casa da Rua Evans, quando eu tinha quatro anos de idade nos mudamos para a casa já descrita, situada na Rua Heloisa Camargo, que pertencia à minha mãe e mais seus nove irmãos ou herdeiros de seus irmãos (meus avós maternos já eram falecidos) e por causa dessa casa e também de outras propriedades havia discórdia na família de minha mãe.
 
Para a mudança, minha mãe pediu ajuda a vários vizinhos e contratou também um carroceiro para que, com sua carroça que era puxada pelo cavalo "Pintado", levasse as coisas mais pesadas e volumosas. Os objetos menores e mais leves seriam transportados nas mãos, já que a distância entre as duas casas era de pouco mais de três quadras e meia.
 
Esse carroceiro deveria residir ou na própria Rua Evans ou em suas imediações, pois com uns dez ou onze anos de idade eu ainda o via com sua carroça trabalhando por ali, mas não sei se na companhia do Pintado ou de algum outro animal.
 
Nos dias que antecederam a mudança, minha mãe teve que ir várias vezes à casa nova (vou chamá-la assim) e minha irmã e eu a acompanhava até lá e com ela voltávamos à casa velha (também vou chamá-la assim).
 
Com essas idas e vindas, eu, apesar de ter somente quatro anos, acho que acabei por decorar o caminho entre as duas casas.
 
E no dia da mudança, quando eu via várias pessoas pegando sempre alguma coisa e carregando da casa velha para a casa nova, imagino que eu tenha entendido que também deveria carregar alguma coisa para ajudar naquela tarefa. Peguei então um pequeno caldeirão, um dos que minha mãe usava para cozinhar feijão, fui com ele até a rua e saí andando sem que ninguém notasse, em direção à Rua Tobiaras, continuei andando até chegar a Rua Heloisa Camargo onde entrei à esquerda e segui em direção à casa nova. Atravessei a Rua Otília, a Rua Montes Áureos, que nessa época se chamava Rua Carlota, e finalmente cheguei à casa nova, ainda carregando aquele pequeno caldeirão.
 
Quando desapareci, ninguém notou a minha falta, porque as pessoas que estavam ajudando na casa velha pensaram que eu estava sob os cuidados de quem estava ajudando na casa nova, e vice-versa.
 
Minha mãe se assustou quando me viu chegando lá sozinho e essa minha peripécia só permanece até os dias de hoje em minhas lembranças pela repercussão que o fato teve.
 
Minha mãe não se cansava de contar esse acontecido repetidas vezes para parentes, amigos e às vezes até para pessoas que ela mal conhecia. Durante muito tempo eu ouvi com prazer essa história, e o pequeno caldeirão que transportei ainda foi utilizado por longos anos em nossa cozinha, até o momento em que já não se podia mais colocar rebites em seus furos, e então ele foi aposentado.
 
E foi naquele pedaço da quase bucólica Vila Esperança que nasci, passei minha infância, adolescência e boa parte da vida adulta.
 
Mas a fase que mais marcou, que deixou belas recordações e também muita saudade foi, sem sombra de dúvidas, a infância. Com oito anos iniciei o curso primário (era assim que se chamava na minha época) no Grupo Escolar Monsenhor Passalacqua.
 
Ainda me lembro das minhas professoras. A do 1º ano foi a Dona Irene D'Avila. A do 2º a Dona Norma, a do 3º a Dona Rosária e finalmente a do 4º e último ano a Dona Dayse Galvão, que juntamente com o diretor da escola, o professor Mario Ferreira, assinou o meu diploma de conclusão do curso. Porém, convém lembrar também das professoras, as irmãs Yole e Carmen Vannucchi, que cobriam as ausências de outras mestres nos diferentes cursos nos anos letivos.
 
Bons tempos eram aqueles. Muito bons mesmos. Nós brincávamos na rua e eu sempre digo que a rua das "brincadeiras" naquela época funcionava como um complemento pedagógico informal, tamanha era a criatividade que a petizada desenvolvia em seus folguedos diários.
 
É uma pena, mas brincadeiras de rua não existem mais. Não é mais possível, principalmente nos grandes centros urbanos.
 
Os meus amigos daqueles tempos eram os irmãos Sérgio e Irineu Munhoz, o Arnaldo, o José Lourenço da Silva Júnior, que para nós era simplesmente o Zé, o Claudio Munhoz, o Claudio Zafalon, o Armandinho, o Fábio, o Hélio, o Biguá, o Dami, os irmãos Hélio e Hermes Corso Figueiredo, o Paulo Rufino e certamente mais alguns que não lembro agora. E esses amigos de infância, alguns até já falecidos, eu quase não tenho notícias ou vejo, exceto o Paulo Rufino, pois frequentamos o Clube Esportivo da Penha e nos encontramos quase todos os domingos nas quadras esportivas de lá.
 
A Vila Esperança dos anos 40 e 50 não tinha ruas asfaltadas, água encanada, coleta de esgotos e lixo doméstico e parece até um pouco de exagero chamá-la de "A aprazível Vila Esperança" ou como escrevi algumas linhas atrás "A quase bucólica Vila Esperança", mas quem passou a infância ali, principalmente naquele pedacinho de bairro em que vivi, certamente concordará comigo.
 
Um pouco antes de me casar com a Tania, eu me mudei para outra casa ainda na Rua Heloisa Camargo, e em 1979 nos mudamos para uma travessa da Av. Gabriela Mistral, na Penha, onde residimos até hoje.
 
Como já escrevi, nós temos dois filhos, a Cinthia e o Flávio e agora temos também um neto, o Nicholas.
 
E-mail: cavinatohv@uol.com.br
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Publicado em 08/01/2014

Debrando, Morei e trabalhei na Vila Esperança trabalhei por muitos anos, um bairro muito gostoso. Hoje o bairro está outro e mais bonito. Foi bom de ler seu texto e recordar a Vila Esperança. Um abraço.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 08/01/2014

Pitorescas recordações de um bairro bem aprazível da zona leste. Bem elaborada e compilada com parágrafos bem resolvidos, sistematicamente distribuídos. Parabéns, Debrando.

Modesto.

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 08/01/2014

Achei muito prazeroso ler sua história,com detalhes espirituosos sobre sua referencia de cunhado...Estas lembranças de casa nova e casa velha trazem muitas recordações para todos nós que na infância ou adolescência um dia já mudamos de casa.Mas ressalto que sua sorte foi previlegiada pois voce mudou-se com apenas algumas quadras de diferença dentro do mesmo bairro,e para quem saiu do bairro e foi para muito longe dali,as lembranças doem um pouquinho mais...

Adoraria ler mais historias sobre sua infância e juventude,elas devem retratar com outras palavras as nossa histórias desta época tão saudosa...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 07/01/2014

Debrando, bem vindo ao mundo dos causos, e concordo com o aprazivel sim, pois sua história sua vida foi ali, assim como a de todos nós em nossos bairros, bela história auto biografica que assemelha a muitos de nós desse site e bem escrita,viva a Vila Esperança, que já deu até samba, parabéns, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estantec@gmail.com
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