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Categoria - Outras histórias Natal em Santa Teresinha Autor(a): Roberto Grassi - Conheça esse autor
História publicada em 23/12/2013
Gostosura de descer toda a ladeira da Estrada de Santa Inês e cair no plano horizontal do Largo da estaçãozinha de trem do Mandaqui. Hoje é domingo, véspera do dia de Natal. Veja o movimento no entorno do largo do Mandaqui. No guichê da bilheteria ele parou, entrou em uma pequena fila, colocou o pacote que carregava debaixo do braço no chão, meteu a mão no bolso da calça e tirou uma nota amassada de cinco cruzeiros e comprou o bilhete para Santa Teresinha. Quando a composição encostou-se à plataforma, ele entrou no primeiro vagão, logo atrás da máquina maria- fumaça e se aboletou no primeiro banco do trem. Tirou do bolso do paletó um espelhinho quebrado, apesar de estar longe do modismo atual, não pode deixar de olhar e pentear as madeixas correndo o pente pela cabeça redonda.
 
Naquele momento, pensou na casa da tia Nina, no sobradão da Rua Conselheiro Moreira de Barros, onde costumava passar com a família, todos os natais de sua infância. O ambiente no interior do sobrado era sempre o mesmo, mobiliado com simplicidade, porém com extremo bom gosto; via-se no rol de entrada, no alto da escada de madeira escura, a sala de jantar, com a velha e sólida mesa de pinho maciço de tampo liso e facetado nas bordas e uma toalha rendada, com enfeites e desenhos sugestivos natalinos e em torno dela, seis cadeiras dispostas no espaldar da mesa, e outras duas encostadas junto à parede, ao lado do tampo envernizado da radiovitrola. Sobre ela, a figura de um quadro colorido de Santo Antonio de Padova com Jesus bambino no colo, bem no centro da parede esponjada de cal azul.
 
No corredor, havia um quadro com a figura do papa Clemente II que o avô José tinha trazido em 1910 da província de Salerno, na Itália, para o Brasil. A família devia se reunir logo mais à noite, depois da vinda do Jacyntho, o irmão mais velho, que era telegrafista na velha Estação da Luz e que, consequentemente, trabalhava naquele dia na véspera de Natal, até as 7h da noite. Ninguém se atrevia começar a ceia sem antes o Jacyntho estar presente. Como irmão mais velho, era pessoa indispensável, imprescindível mesmo, naquela ocasião solene na véspera da noite do dia de Natal.
 
De chapéu panamá, bengalinha na mão, vestindo com esmero um terno de linho branco, um charuto Havana preso na ponta da boca por um palito de fósforo, o tio Vicente era a própria encarnação do vitorioso assessor imediato da diretoria de uma importante companhia de seguros brasileira. Que figuraça, exemplo para a sobrinhada encantada com aquela personalidade marcante. Com a mão esquerda, ele fez um breve gesto e cumprimentou a cunhada Julia, que estava com vestido azul turquesa grudado na pele e estava serpenteando pelo terraço depois da cozinha. A vista dali da sacada, nos fundos do sobradão, era esplêndida, formidável mesmo. Ao longe, se podia avistar a caixa d’água pelos lados da Rua Voluntários da Pátria, ladeada pelo telhado vermelho do Hospital do Fogo Selvagem.
 
Para regalo dos olhos, naquele momento, uma última lamina de sol cortava uma fatia do bolo de pequenas casinhas, todas iguais, agrupadas em fileiras, ao longo da Rua Dona Guiomar, atrás do grande sobrado da Moreira de Barros. Mais para a esquerda, para os lados da chácara dos padres, sobre o côncavo fresco do vale de Santa Teresinha destacava-se a sombra do serrado da Cantareira, que se projetava encoberto por uma fina camada de neblina escura assemelhada a um enorme gigante adormecido no meio do lusco-fusco da tarde morrente.
 
O tio Clemente não havia chegado ainda. Ele era o espírito “alvissareiro” natalino, porque devia trazer a fantasia de Papai Noel, o tão esperado e querido velhinho pela credibilidade da criançada da casa. Desde a véspera de São Nicolau e do Natal e das alvíssaras, os brinquedos que povoam a mente de polichinelo das meninas cheias de bonecas, e da caixa de soldadinhos de chumbo dos meninos. Todos os anos, o víamos reaparecer com seu casaco vermelho, de gola alta e branca, cabelos e barba da cor da neve, o nariz rosado, com altas botas negras, forradas, semelhante ao do Pequeno Polegar.
 
Ora, todos esses anos se acumularam sobre os ombros do tio Clemente, sem modificá-lo, e ele mantinha sempre durante muitos anos a mesma postura, o mesmo rosto liso, luzidio, divinamente iluminado de alegria e de mansidão, como se ainda o sol, vindo do tempo das neves boreais, continuasse luzir sob sua pele corada. Suas espáduas eram sempre firmes e retas, e as misérias e as distâncias dos caminhos percorridos nunca puderam dobrá-las; e foi assim que nós, os adultos hoje, o conhecemos quando criança: alegre, feliz no velho casarão da Rua Conselheiro Moreira de Barros com seu casaco de pastor, o gorro branco e vermelho e as botas negras e luzidias. 
 
Mal o bondoso velhinho (Tio Clemente) se apresentou brilhante de geada e orvalho, todos os meninos e meninas da casa se detinham em algazarra diante da porta do sobradão da Rua Conselheiro Moreira de Barros em uma grande alegria. Sem dúvida, a casinha das bonecas já fazia furor entre as meninas; os arlequins, o forte apache, os automóveis luzidios provocavam nos meninos o grande desejo de posse. Mas muito mais do que todos os brinquedos, contemplavam a grande barba branca e as roupas empoadas de neve de seu velho amigo e conhecido, o bom Papai Noel. O patriarca que por sua vez, a julgar pelo ar de contentamento de suas faces sorridentes, parecia lisonjeado com tal solicitude. É que o Papai Noel causava curiosidade encantada no reino da criançada.
 
Durante a tarde, a tia Nina e a Madalena, mandaram os sobrinhos ir buscar o peru e outros pertences para a ceia de logo mais à noite, na casa da tia Assumpta, que morava lá para os lados do Jardim São Paulo. A pé, como de costume, era um percurso e tanto. Mas para os sobrinhos, moleques ainda, aquilo era uma verdadeira farra. Não tinha distância que amolecesse o entusiasmo da molecada. Tudo ali era pura alegria.
 
Na volta para o sobradão, deviam subir, “chocar”, no início da ladeira, à velha jardineira (ônibus) que fazia o percurso do centro da cidade até os altos de Santana, especialmente Santa Teresinha. A subida da rampa, depois da Voluntários da Pátria, era notadamente íngreme, e o veiculo ia em primeira marcha, resfolegando ladeira acima, com os sobrinhos dependurados no para-choque traseiro em tremenda algazarra. O Luiz, o mais velho deles, agarrado no balaustre na porta traseira do ônibus, com uma das mãos segurava o peru e com a outra se aboletava no estribo procurando se equilibrar para não cair. O Anselmo, dependurado no para-choque traseiro da jardineira (ônibus), carregava a farofa, o bolo de fubá e os rojões de festim amarrados na cintura que deveriam ser soltos no terraço do sobrado, depois da meia-noite.
 
E o tio Paulo, homem de fervorosa fé cristã, pessoa imbuída de grande espírito natalino, todos os anos ia cumprir religiosamente os deveres no anúncio do advento, frequentando a igreja de Nossa Senhora de Santana, na Voluntários da Pátria. Não posso esquecer-me também do tio Tomas (Tomazzino), italiano, homem de grande fibra, trabalhador taxista, “charreteiro” de profissão, com sua luzidia charrete amarela puxada por um fogoso cavalo marrom, no início dos anos 1920, na porta da Estação da Luz, porque tinha vindo da Itália nas primeiras levas de imigrantes, que partiram do sul da bota em direção a América do Sul, especialmente para o Brasil, em busca de melhores tempos e de mais oportunidade de trabalho.
 
Tio Walter, de grande cultura, homem fino e educado, descente de suíços de Berna, engenheiro, filho de um ex-professor de engenharia do Mackenzie, ex-capitão do exército brasileiro, comandante do primeiro agrupamento de artilharia da FEB (Forças Expedicionária Brasileira), onde havia se destacado nos campos de batalha em Pistóia, na Itália, cumprindo os deveres de cidadão brasileiro durante a Segunda Grande Guerra Mundial. Era ele também, junto com a tia Assumpta, sua esposa, esperado com ansiedade pelos cunhados e cunhadas para a ceia de Natal.
 
Não posso esquecer-me também do presépio que reinava ali na sala de visitas. Havia ali como expectativa a emoção de algum acontecimento próximo; os hóspedes do pequeno estábulo deviam ser testemunhas muito breves e não poderiam explicar de outra forma o ar de sobressalto das três vacas, do burrinho e das ovelhas, mais ocupados em estender os pescoços para pastar o molho de feno que lhes servia de alimento. E verdadeiramente todos se moviam sobre os cornos, os olhos espantados, dilatados para o ângulo obscuro e pareciam esperar a vinda de alguém muito especial e todos aguardavam ansiosos pelo acontecimento; pouco depois a estrela de ouro, como vinda do oriente, presa em um galho de pinheiro do presépio por um fio de latão dourado, se distinguia a primeira vista, embora brilhasse vivamente, dava a explicação do mistério; sem dúvida, era aquela estrela que contemplavam com muita atenção as três vacas, o burrinho e as ovelhas; ela parecia tombar dentro do pequeno estábulo em uma ternura e mansidão infindas.
 
Essa eminência talvez, nada dissesse por si mesma, se não fosse a presença de três personagens suntuosamente vestidos e que os rostos, voltados para a estrela, faziam esforços para se aproximar o mais rápido possível do estábulo; um deles, negro como um borrão de tinta, sobre o turbante amarelo que lhe cingia a fronte, trazia nas mãos um incensório de ouro cinzelado nas bordas de prata; a julgar pela cor da pele dos três, tinham vindo do fundo dos áridos desertos. Junto da manjedoura onde ficava o menino rosado, não se poderia imaginar um rosto mais suave e belo, os grandes olhos escuros, onde parecia refletir todas as estrelas de ouro, um amável sorriso que pairava em sua boca perfeita; seu nome: Maria. Sem dúvida alguma, ao fazê-la tão bela, quisera o artista expressar toda ternura e a felicidade que entre os brinquedos, como entre os homens, se revestem sempre de cores brilhantes.
 
Mais uma vez, ali reunidos no entorno da grande mesa na sala de jantar, dez irmãos ao todo e vários cunhados e cunhadas e muitos sobrinhos, em um clima de fraternidade, respeito e harmonia, lá no sobrado da Rua Conselheiro Moreira de Barros era servida à santa ceia do Natal. Hoje, me bateu a saudades do velho sobrado e dos natais passados nos Altos de Santana, em Santa Teresinha, e dos meus queridos e amados tios e tias que, infelizmente hoje, já não mais existem.
 
Aos escritores e leitores, aos redatores e respectivas famílias desejo a todos, um feliz Natal com o olhar e as bênçãos de nosso senhor Jesus!
 
E-mail: jr_grassi@yahoo.com.br
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Publicado em 24/12/2013

De início, gostaria de chamar a atenção dos nossos amigos colaboradores deste maravilhoso site, para o trabalho memorável do Grassi nesse empenho. Que redação, que memória, que quantidades de tios, sobrinhos, cunhadas e cunhados, parentes e amigos infinitos. Uma grandiosa mensagem pra ser guardada pro resto de nossas vidas a servir de exemplo de amor e carinho que existe no seio de uma família. Isto sem contar com as descrições de lugares, locais, objetos, vestimentas, descrições físicas de parentes já falecidos, numa torrente de parágrafos compactados com explicações pormenorizadas de tudo em tudo e por tudo. Maravilhoso, Roberto, este site é formidável, repito, por ter estes colaboradores como vc.

Obrigado pela mensagem e pra vc e toda sua família um santo Natal e um grande 2014. Um abração, Grassi.

Myrtes e Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 24/12/2013

Grande texto Grassi, denso e destacado sobre o Natal em Santa Terezinha; me senti como personagem no relato, narrativa... Meus parabéns, talvez essa historia seja uma das melhores que li no site.

Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
Publicado em 24/12/2013

Eu me vi nessa sala com seus familiares.

Muito votos de felicidades a todos os seus.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 23/12/2013

Meu querido Grassi, quanta emoção nessas memórias tão sentimentais, de valorização da família em, claro,, do imenso respeito ao evento do natal.

Parabéns pela riqueza do relato. Um felicíssimo Natal para você e familiares. Receba o meu abraço afetuoso.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
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