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Categoria - Outras histórias Nos jardins secretos da alma Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 02/01/2014
 
Eu lia e estudava para a prova de segunda-feira. O meu Colégio Nossa Senhora da Glória era, nos anos 70, referência de ensino, abrigando dezenas de gerações no nosso Cambuci. E com credulidade e inocência infantil e ainda sem condições intelectuais de questionamento eu lia nos livros de Educação Moral e Cívica, do antigo líder integralista Plínio Salgado, nos tempos da ditadura: "Os negros são iguaizinhos aos brancos. A única diferença é que eles têm um pigmento na pele chamado melanina"...
 
Com o tempo eu fui percebendo que o racismo, o pouco caso, a desconfiança eram sentimentos perversos e cotidianos. O problema não era, portanto, a melanina.
 
Os problemas estavam derivados dos restos grosseiros de colonialismo, de neocolonialismo, de capitalismo ascendente, da mesquinhez do coração humano, em suma. Não, a melanina era uma das tantas desculpas mirabolantes inventadas para se dar um tom de normalidade a todas as formas de exploração.
 
E eu fui ensaiando compreender a condição humana e a acreditar que a igualdade de condições, de sentimentos e de direitos era possível. A minha grande amiga de adolescência era negra e isso me fazia bem. A Ana foi uma grande pessoa na minha vida. Inteligente, de riso farto, era uma pessoa inteira.
 
E eu ia entendendo que as pessoas poderiam ser felizes, se encantar umas com as outras. Poderiam ser benevolentes, amáveis, viver sem rancor, exercitando o perdão, a boa conversa, as trocas de conhecimento. Seria menos difícil a vida. Bastava saber se olhar, se respeitar, partilhar.
 
Não foi fácil a aprendizagem na nossa sociedade, ainda com ranços tão fortes dos tempos da escravidão, do longo período de exclusão tão providencial para as elites donas do poder.
 
Sem perceber com a clareza necessária a importância da aprendizagem em lidar com as pessoas portadoras de “mais melanina na epiderme”, fui me apaixonando por Nelson Mandela.
 
E, muitas vezes, quando tive dificuldade em perdoar, me lembrei dele.
 
Mandela até nasceu em um momento especial, tempo de algumas promessas e parcas esperanças. Nasceu no final da Primeira Guerra, exatamente no tempo em que o comum era não se acreditar em nada, ou quase nada. O horror havia dizimado milhões, arrancado o coração de outros tantos milhões... Mas a vida seguia, tinha que seguir, mesmo aos solavancos, na sua perplexidade e vergonha.
 
O século XX produziu os piores horrores, mas também trouxe Gandhi, Madre Tereza, Chico Xavier, dona Zilda Arns e tantos outros notáveis. No final do segundo milênio nos presenteou com Malala, a garota paquistanesa baleada pelos Talibãs porque defendia o direito da mulher à educação nos países árabes. E aquele século trouxe também Mandela, que começou tímido, ensaiando uma longa e árdua caminhada, mas dali, da África do Sul, soube conquistar o mundo.
 
Eu não conseguia compreender como poderia um homem, defensor da vida, da igualdade e da justiça, passar 27 anos preso e sair defendendo o diálogo e a construção de uma nova história. Ainda mais: sorrindo e acenando para as multidões, como se pedisse calma, um “estou aqui e vamos deixar o passado no seu devido lugar. Vamos apenas construir em outras bases”.
 
Difícil agora imaginar um mundo sem Mandela. Sem o seu sorriso confiante, amoroso, grávido de esperança.
 
Muitas vezes sei que se amargurou pelos descaminhos da sociedade sul-africana do após-apartheid. Pregou e esperou mais justiça, menos miséria, mais trabalho, com razão e esse “mais” foi um filho que teimou em não aparecer.
 
Mandela, me permita uma opinião simplista, mas acho que Deus tem umas particularidades inacessíveis à nossa precária inteligência. Eu acho que Deus pensou em dar um presente para Jesus em mais um aniversário que se aproxima. Claro, o Bom Pai sempre quer reconhecer e, alegremente, extravasar bondade e amor especial ao Filho dileto.
 
Imagina, Mandela, você, agora, participando desse banquete, dizendo o que fez, como foi a sua forma de luta, os tempos na prisão, a liberdade conquistada, os sonhos se definindo, o trabalho na busca de uma sociedade melhor e mais organizada! Com certeza, um dia sentiu a fé abalada, as dúvidas lhe vieram à mente, mas nunca deixou de prosseguir.
 
Conte, no dia do aniversário de Jesus, o que fez, como agiu, o que disse ao seu povo. Não se esqueça de dizer o quanto chorou na sua solidão no cárcere, mas diga também o quanto sorriu e pediu paz. E fez a paz.
 
Conte como sobreviveu ao século XX, o mais violento da História. Conte o que fez para que esse tempo fosse um espaço de possibilidades de encontro. O doce encontro, a maior de todas as artes!
 
Conte, Mandela. O aniversariante vai ficar feliz com o presente. Quem sabe, o melhor de muitos anos.
Ele vai sorrir para você, com a sua exuberância de afeto, estender a mão e, quem sabe, dizer prá você descansar um pouco... Porque depois há de retornar e continuar ensinando sobre o poder de amor e do perdão a essa humanidade que teima em evoluir tão pouco.
 
Parabéns ao aniversariante que vai receber a joia mais cara, mais burilada e completa e de luminosidade ímpar.
 
Vá com Deus, Nelson Mandela. Siga na paz, sua velha conhecida. Mergulhe por completo na felicidade, no amor integral e absoluto que vem dos céus.
 
 
E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 09/01/2014

Só pelo título você já merece os parabéns, mas o texto está sublime.

Um Salve à você Vera!

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 08/01/2014

Todas as vezes que vejo alguma reportagem de Nelson Mandela,penso que o mundo se esqueceu dos quase 30anos de cárcere privado no qual ele foi sugado a cada ano de sua saúde e minando cada vez mais sua força física...mas a força de lutar pela PAZ e pela IGUALDADE nunca saiu de dentro dele talvez por isso ele aguentou mais do que devia...

Ele só continuou vivo,porque tinha a esperança de ainda proclamar seus ideais...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 06/01/2014

Todo munda já disse tudo só me restou dizer os meus parabéns e um forte abraço. cheguei tarde mas cheguei,

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 06/01/2014

Mais uma vez você Vera se superou nesta bonita crônica, muito bem construída sobre o tema do racismo. Você também sita o grande Plinio Salgado, a meu ver, um integralista de grande inteligência. Parabéns professora, lendo os seus textos estou sempre apreendendo mais. Um abraço do Grassi

Enviado por Roberto Grassi - jr_grassi@yahoo.com.br
Publicado em 03/01/2014

De fato Vera, Mandela superou os obstáculos e é um exemplo de liderança política. Quanto a cor, não faz nenhuma diferença, um dos reis Magos era negro.

Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
Publicado em 03/01/2014

Mais uma exuberante lição de amor e bondade da Vera, com uma escrita maravilhosa destacando, sempre, a lucidês e a boa mensagem a respeito do falecido Nelson Mandela. Parabéns, querida Moratta.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 02/01/2014

Vera, quantos segredos temos guardados no jardim secreto de nossa alma! Deus tem nos enviando almas sensíveis e fortes para conviver com as mais fracas e menos sensíveis.Elas vão embora sim, mas deixam suas marcas e uma sementinha sempre há de brotar. A humanidade caminha lenta para o lado do amor e do respeito, mas muito rápida o outro,isso dói e atrasa a evolução de um mundo mais justo e humano.Temos que acreditar que outros viram. Que Mandela tenha a paz tão merecida!Um texto maravilhoso, meus parabéns e um grande beijo.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 02/01/2014

Vera, muito bem lembrado sobre as histórias desses vultos do bem da humanidade, principalmente sobre o Mandela e na época do Apartheid, assunto que dominava e caia em todas as provas que faziamos nas escolas,parabéns,Estan

Enviado por Estanislau Rybczynski - estantec@gmail.com
Publicado em 02/01/2014

O que dizer de um texto lindo assim!

Que irradia toda a bondade, o amor a generosidade vinda dos jardins secretos da sua alma.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
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