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Categoria - Personagens Cem Dólares (crônica) Autor(a): Chico Pascoal - Conheça esse autor
História publicada em 18/11/2013

Todo homem tem um preço, dizem. Embora alguns sejam homens de valor, muitos não valem sequer o que comem, acusam. E as mulheres? Bom, algumas delas, para sobreviver, assumem a condição de prestadoras de serviço e estipulam o seu preço. Nada que surpreenda. Refiro-me, já devem ter percebido, àquelas garotas que, por obrigação, necessidade ou conveniência, se dedicam à chamada profissão mais antiga do mundo. Ofício que consagrou Maria Madalena, Valéria Messalina e Bruna Surfistinha entre tantas outras ao longo dos séculos. Não me cabe aqui o papel de inquisidor ou juiz. Longe de condená-las ou absolvê-las; sou apenas um aprendiz de cronista, atento sempre que possível aos dramas do cotidiano.

Seguindo nesta linha, lembro que nos velhos tempos, lá na nossa Rua São Joaquim, no bairro da Liberdade, havia uma garota dona de uma beleza misteriosa de nunca sorrir, de uma palidez de raio de lua e olhos oblíquos de gueixa, que nos fazia perder o rumo como um lateral ingênuo que leva um drible desconcertante.

Aos poucos fomos sabendo de certas particularidades da garota: tinha vindo de algum lugar do interior, morava com a mãe em um sobrado antigo, localizado em cima de um restaurante japonês, que embora tivesse mais ou menos a nossa idade não frequentava os colégios do bairro.

Do nosso ponto de observação, o bar da esquina dos primeiros porres, esperávamos ansiosos para vê-la surgir ao entardecer entre os vasos, plantas da varanda com cortinas de seda, trajando seu quimono bordado com pássaros e flores de cerejeira, qual uma princesa aprisionada que alimentasse a frágil esperança de ser resgatada por um cavaleiro andante, um intrépido espadachim, um samurai. Éramos apenas peões insignificantes, indignos de um desinteressado olhar seu.

Os cavaleiros que a “resgatavam” por algumas horas, os felizardos, esses chegavam em reluzentes carros Escort XR3 ou Monza, último modelo. Eram “playboys”, “filhinhos de papai” abonados, ou mesmo homens mais maduros, bem casados, resolvidos profissional e emocionalmente. Buzinavam da rua, a velhota aparecia na sacada e fazia um sinal para que aguardassem.

Minutos depois, como se flutuasse, a bela descia suavemente pela escada lateral “furtiva” como um ninja. Entrava rapidamente no carro, que arrancava cantando os pneus, deixando-nos com o seu perfume inebriante, os nossos copos suspensos no ar, emaranhados em nossas maldosas conjecturas e contaminados pelos germes da inveja.

O debate então acalorava-se e, regado a cerveja, se estendia noite adentro: cogitávamos que a diva devia ser uma típica prostituta de luxo. Que a mãe, cafetina ordinária, provavelmente é quem estava por trás do negócio escuso agenciando tudo. Que a garota só atendia a clientes especiais e cobrava os olhos da cara. Conclusão: aquela deusa não era repasto para o nosso bico de pombo de praça. De qualquer forma, nada nos impedia de nos deixar levar pela fantasia, que sonhar pelo menos é de graça. Porém, de graça, a moça, que era extremamente profissional, não fazia o que imaginávamos que devia fazer tão bem, sem os empecilhos tolos do amor e do beijo na boca. Além do que, havia a agravante de que cobrava cem dólares, uma pequena fortuna.

“Garota Cem Dólares” era como, por não sabermos seu nome, nos referíamos à misteriosa cortesã que povoava nossos sonhos e nossas obsessões.

O que terá sido da “Cem Dólares”? Pergunto-me. Que fim levou a causa das nossas antigas inquietações? Estará rica e velha? Pobre e feia? Terá partido cedo desta ou se aquietado a expensas de um bom partido? Decerto, levando-se em conta o desgaste natural que os anos nos impõem a todos, ela já não justifique o cognome que lho pusemos. E para variar, eis-me aqui, novamente, tecendo conjecturas.

Se, todavia, ela tiver tido a fortuna de aprender a sorrir, a coisa muda de figura. Pois alguém já disse: não há dinheiro que pague um sorriso. Embora eu deva reconhecer que, com um sorriso, a aura de mistério da “Garota Cem Dólares” simplesmente e dissolveria no ar. E sem o ingrediente do mistério esta pobre crônica não teria graça nenhuma.

E-mail: chicopascoal.pinto@gmail.com
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Publicado em 02/12/2013

Chico, cobrando cem dólares, pode ter certeza que hoje ela tem uma aposentadoria tranquila. Ótima crônica. Parabéns.

Enviado por Abilio Macêdo - abilio.macedo@bol.com.br
Publicado em 19/11/2013

Pois é, pois é. Eu tenho 63 anos, sou do tempo que para um iniciante ou paga ou fica na vontade, mas 100 dólares nem pensar. Se $3.000,00 cruzeiros já era difícil, imagine 100 dólares.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 19/11/2013

Chico, gostei muito da sua redação. Texto bastante rico em detalhes e e profundamente humano. Meus parabéns. Receba o meu abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
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