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Categoria - Outras histórias Bonde camarão de mentirinha! Autor(a): Rubens Cano de Medeiros - Conheça esse autor
História publicada em 23/10/2013

É só para eu ter assunto, a lembrança. Poder participar. Lembranças paulistanas de mim, ainda que totalmente tolices. Anos 50, meados. Eu, seis ou sete anos. Mesmo tendo transcorrido um tempão, lembro bem. Mesmo as que são mera elocubração.

Coisas de mais de meio século... “Muitas luas”, diziam os índios americanos nas legendas dos gibis em preto e branco do xerife Hopalong Cassidy. Gibis que, graninha sobrando, vez ou nunca, o moleque comprava. José Antônio Coelho com Cubatão, banca do Mudinho – meio ranzinza, no silêncio dele. “Meio”, hein! Uma incerteza me persegue. O xerife perseguia só bandoleiros ou também massacrava apaches e comanches? Os gibis não me restaram guardados: jamais relembrarei.

Naquele 1955 ou 1956, era alguma manhã de algum domingo, algum passeio. Que eu (moleque) e o Dionísio de Medeiros (meu pai), a gente fazia para “admirar São Paulo, que colosso!” Tanto que desde aquele tempo desenvolvi o hábito de caminhar bastante, até hoje. Meus ex-sapatos, todos eles (pretos e marrons, de cadarços) são fiéis testemunhas. Caminhar é preciso.

Era então na Rua da Glória. Logo depois da Conde do Pinhal, lado oposto a esta. Lembro que o Dionísio dizia. Ele moleque, como eu naquele distante momento, costumava brincar no terrão do Morro do Piolho. Montanha que se erguia no fim da curta Rua Espírita – nome que me intrigava. Meu pai, lighteano por 35 anos, paulistano da Glicério, por ali. Família ítalo-portuguesa, meio a meio: calabresa e muçarela.

Eis então, Glória abaixo, uma enorme garagem de automóveis. Também de grandes vidraças transparentes, lembro com absoluta incerteza. E, para mim, o moleque, um troço inusitado, logo ali perto da porta escancarada: simplesmente um...bonde, podia? Um camarão, velhinho! Igualzinho (mais ou menos, quase igual) aos da CMTC! Bonde na garagem de carros! Coisa de São Paulo...

E, mais, para aguçar a curiosidade do moleque, aquele bonde – com alavanca e tudo, farol no meio da “cara” – aquele ali tinha...pneus! Como um ônibus, o bonde! O Dionísio deve ter falado. Bonde de mentirinha! Veículo de alguma “propaganda” (quem falava “publicidade”?). Montado sobre chassis de caminhão, provável. Nunca o vi nas ruas. Só ali, paradinho, inércia de cor vermelhão. Um autêntico...bonde “de mentirinha”!

Já nos anos 70, quase 80, o Sr. Ferolla me informou. Com a criação do Museu, a CMTC montou dois bondes “de mentirinha”. Sobre chassis de ônibus Mercedinha. Para levar crianças ao Museu. Eu os vi nas ruas – bondes de mentirinha transportando a alegria verdadeira.

Para mim, ainda a bordo dos 65 anos, toda vez que passo no começo da Rua da Glória... Minha curiosidade nostálgica bate na mesma tecla. Onde era mesmo a garajona? Por mais que olho, não a “vejo”. Olhando, porém, “para dentro” de mim, eles ali estão, nas retinas: garagem e bonde! Meio século depois! “Muitas luas”, cara-pálida!

Enfim... Site SPMC: ajude-me a reencontrar. Perguntando, inquirindo. Indagando à eternidade – às pedras que rolam no leito. Do rio da saudade que, por certo, aflui para o Tietê. Cadê a garagem da Rua da Glória? Que é do bonde, “quase” bonde? E se não for perguntar demais: e o Hopalong Cassidy? Ah! Tornou-se senador americano! Agente do FBI? Claro: de mentirinha! Tal qual o bonde, aquele... Saudações!

E-mail: rcm.rhda.sp@gmail.com
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Publicado em 24/10/2013

Texto bem humorado Rubens; o bonde camarão de fato existiu, vi com meus olhos que a terra um dia haverá de comer! rs.

Enviado por Carijó (apelido no futebol) - clesiodeluca@yahoo.com.br
Publicado em 23/10/2013

Rubens, comprei passagem no seu texto e viajei por São Paulo dos anos 50 de carona em sua historia, andei no bonde aberto, e no camarão e bem ali na São João em frente a antiga loja Ducal peguei um bonde saindo e só quando eu desci la na consolação e que eu reparei que era o Gilda.

Estava tão distraído, que desci sem pagar, te devo 0,50 centavos, Aceite um muito obrigado e um enorme PARABÉNS

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 23/10/2013

Um apanhado de recordações sobre ruas e bondes na cidade. bem elaborado, Medeiros, vc alcança gotas poéticas salpicadas de um passado não muito distante. Vc está muito bem na foto, Cano, parabéns.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 23/10/2013

Rubens, que delícia! Passeei muito pela rua da Glória conheço bem a região, pois vivi 24 anos no Cambuci. Muitas saudades. Fiz uma boa viagem com o seu texto, viu: Parabéns e um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
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