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Categoria - Outras histórias Bonde Anastácio - Linha 37 Autor(a): Roberto Flügge - Conheça esse autor
História publicada em 11/04/2007
Meninos, acreditem, vivi minha infância e adolescência em uma São Paulo que tinha bondes elétricos! As linhas eram geralmente radiocentricas, ou seja, convergiam para o centro da cidade. A linha 37 Anastácio era uma exceção, pois partia da Lapa, em direção ao bairro do Anastácio, pelas seguintes ruas: Doze de Outubro, Barão de Jundiaí, Brigadeiro Gavião Peixoto, Laurindo de Brito e João Tibiriçá, até as porteiras da Estrada de Ferro Sorocabana (onde hoje é a estação Domingos de Morais da CPTM).


Era uma linha singela, que em seu trajeto possuía três desvios, para permitir a circulação de mais de um bonde na linha. Na realidade, apenas um bonde percorria a linha, que recebia o reforço de mais um carro no período do pico, à tarde. Esta linha passava em frente à minha casa (Rua Laurindo de Brito) e ao Colégio Campos Salles, onde eu estudava. Era pois, a condução natural para ir à escola.


Um só bonde na linha? Sem problemas, pois além de manter razoavelmente o horário, ninguém tinha pressa como hoje. Mais um detalhe: o ônibus custava um Cruzeiro e o bonde cinqüenta centavos. Todo dia minha mãe me dava um Cruzeiro para poder ir e voltar da escola.


- Mãe: me dá dois Cruzeiros, hoje quero ir e voltar de ônibus.
- Dinheiro não nasce em árvore, ouviu! Tome um Cruzeiro e vá de bonde!


Quem disse que o dinheiro era usado na compra da passagem do bonde? Um Cruzeiro, na hora do recreio, rendia uma guaraná; só que eu queria também um chocolate.


E como fazer para ir e voltar da escola de graça? Existiam diversos meios. O melhor deles era fazer um "fundo de reserva" para comprar mensalmente uma caixa de charutos para o cobrador amigo e as viagens saiam de graça para a molecada.


- Ei cobrador! Aquele moleque ali ó, não colaborou com a vaquinha. É um frescão!!
- Moleque safado! Vai logo pagando a passagem que aqui não tem moleza não!

Minha mãe diz ao meu pai:
- Acabo de ver o bonde passar; estava quase vazio, com o cobrador sentado no banco, de pernas cruzadas, fumando charuto! Que ridículo!

Saio de fininha até o fundo do quintal para dar uma gargalhada!

O cobrador amigo não trabalha hoje. É o seu dia de folga! Deu zebra! A solução é dar uma de "Miguel". Você fica no estribo, sempre na posição contrária ao cobrador, e vai circulando para ele não te pegar. A isto se chama "chocar" o bonde. O problema é que certos cobradores detestam "chocadores". Aí começa um pega pega dentro do bonde e senhoras a bordo põe a boca no trombone contra estes malditos pivetes. Neste caso, se você não tem um trocado extra no bolso, é melhor ir para casa a pé.


Os bancos do bonde são para adultos, meninas e maricas. Moleque que não é marica gosta de viver perigosamente e anda no estribo. Jamais desce no ponto; só desce do bonde andando.

- Mãe, tchau, estou indo para a escola.
- Vou com você; tenho que fazer umas compras na Lapa. Nesse dia o negócio é ir quieto e sentadinho ao lado da mãe. O maldito moleque que você mais detesta está no estribo, do seu lado e diz baixinho:
- Maricas...

- Moleque, ai se te pego no estribo do bonde!
- Eu não ando no estribo, mãe! Os outros, sim, mas eu vou lá dentro sentadinho!
Grande mentira!

Chegando à escola você percebe que a porta está cheia de alunos a alunas. No meio deles está aquela supergarota de quem você está a fim. Você vai descer do bonde andando, só que de costas. Como se faz isso? Coloque se no estribo de costas no sentido contrário ao do bonde e prepare as pernas uma bem para frente e a outra o mais para trás que você conseguir. Salte lançando todo o corpo para frente como se estivesse se jogando no chão e apóie se no primeiro momento somente na perna que estiver a frente. Devido a inércia, o seu corpo tenderá a ir para trás, ocasião em que você deverá travá-lo com a perna de trás. É um belo salto em que o figurante fica no lugar e não precisa dar aquela feia corridinha para vencer a inércia, quando salta de frente. A alegria é completa quando você arranca um Oh!! de admiração da garota em questão. Conselho de amigo: se você não sentir firmeza não o faça! Pode ser desastroso.

O motorneiro do período da manhã está sempre de cara amarrada. Um dia, de saco cheio de tanta molecagem, para o bonde e prega o maior sermão. Nós o detestamos. A medida que fomos crescendo, porém, começamos a gostar dele. Percebemos que ele estava preocupado com a segurança da garotada.

A linha era um caco velho. Motorneiro novo metido a corredor era sinônimo de descarrilamento na certa! Não posso jurar, mas creio que a média era de um descarrilamento por semana!

Hoje o motorneiro é o Mário. Legal! Sou amigão dele e posso ficar na cozinha junto com mais um amigo. Já sei, você não sabe o que é cozinha! É o seguinte: o bonde tem duas cozinhas, uma em cada ponta, de onde o motorneiro dirige o bonde.

O Mario é diferente! Dirige no maior pau! Não tem linha ruim para ele. Sabe onde brecar e acelerar nos lugares exatos. Dirige na velocidade máxima possível em cada trecho e tem um orgulho: nunca descarrilou! Por onde andará meu amigo Mário? Gostaria de dar uma cópia desta crônica para ele.

Quando meu filho Sérgio tinha 8 anos levei o ao museu da CMTC e lá estava em exposição um bonde igualzinho ao da Linha Anastácio. Todo empolgado comecei a contar estas historias a ele. Embasbacado, sem tirar os olhos do jurássico veiculo, exclamou:
- Pai! Você ia à escola com ele? Porque tiraram? Porque você pôde andar nele e eu não? Dei um sorriso amarelo, deixei cair uma gota de lágrima e percebi o quanto eu era feliz e não sabia.

Observação:
- Não participei de todos os episódios aqui contados, mas dos que não participei, eu presenciei. Os mais perigosos eu evitava. Os acidentes mais graves se resumiram a tombos a escoriações, felizmente.

e-mail do autor: robflugge@ig.com.br E-mail: robflugge@ig.com.br
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Publicado em 16/08/2012 Roberto, sou lapeana, e ex-aluna do Campos Salles e sua crônica tocou fundo nas lembranças gostosas da juventude. Você escreve muito bem e nos faz reviver a cena. Conheci alguns Flugge no meu bairro: Rosão, Alberto e Alemão. Você tem algo a ver com eles? Se tiver mande um grande abraço e diga que agora moro em Jacareí. Não esqueça.
Abraços a você também.
Rosangela Balestero Brunner
Enviado por Rosangela - robrunner@terra.com.br
Publicado em 20/03/2012 eu morei na bela vista bonde fechado chamavam de camarão por ser vermelhoobonde se não me engano saia praça das bandeiradavuma votanão muito grande subia conselheiroramlho davaumsvoltas descia nofinal pela major diogo par chegar novamente ao ponto inicial no caso ponto finalque saudades ha muitos anos moro no rio e ha uns 17 anos não vou a são paulo Enviado por arlette - arletteufpaschoal@yahoo.com.br
Publicado em 22/03/2011 Olá Roberto Flugge, lapeano e campossalino como você, caro colega de Colegial do Campos Salles, apreciei muito suas crônicas. Envio um saudoso abraço. Alvarenga. Enviado por José de Alvarenga - alangarve@terra.com.br
Publicado em 15/02/2009 Caro Roberto. Parabéns por relembrar o velho "anastácio". Eu escrevi uma pequena história sobre o assunto e depois descobri a sua, acredito que a minha não será publicada, mas, fico feliz por alguém ter lembrado do nosso saudoso bondinho. Abraços, Rossi Lapeano desde 1941. Enviado por antonio rossi dos santos - rossi@valoneadv.com.br
Publicado em 20/03/2008 que saudade dessa linha de bonde que muito andei, pois eu morava na R.João Tibiriça e estudava a noite no colg.Olavo Bilac sempre de olho o horario porque se perdesse o bonde, ai ficava complicado, mas tudo isso ficou uma tremenda saudade. abraços Enviado por eunice - nimarri@hotmail.com
Publicado em 29/04/2007 Aqui vamos nós de novo com as coincidencias ,eu morava na Barão de Jundia Nº420,o antigo Posto Anhanguera,era do meu avÔ,eu tinha 6 tios homens alguns quase da minha idade,e estoria de bonde é o que naõ faltou.Sempre que tinha algum enguiço era na frente do posto pq.ai vinha agua gelada ou café quente ,e vamos por ai a fora. Enviado por marilena r. de bortoli - marilenarbortoli@hotmail.com
Publicado em 12/04/2007 Roberto sua narrativa, foi para mim uma emocionante volta ao passado, pois meu avô foi chefe de estação exatamente em Domigos Morais.
Tomei este bonde centenas de vezes para ir visitar meus avós e meus tios junto com meus pais. Nós moravamos na Moóca e tinhamos que tomar trêis conduções para chegar até Domingos de Morais. O Vila Bertioga até a Praça Clovis Bevilacqua, outro até a rua 12 de Outubro e finalmente o glorioso bonde. Valeu amigo abraços.
Carlos Trindade carlaortt@bol.com.br
Enviado por Carlos Roberto Teixeira Trindade - carlaortt@bol.com.br
Publicado em 11/04/2007 Deliciosa história, Roberto. Também perpetrei essas traquinagens em bondes, mas em Campinas, quando estudante. Certa vez saltei do bonde Bosque andando, caí e rasguei minha "elegante" calça de saco de aniagem.Talvez por isto é que sempre, mais tarde, preocupei-me em andar bem vestido. Enviado por Luiz Simões Saidenberg - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 11/04/2007 Roberto
Você contando do bonde da Lapa, me fez reviver o bonde que ia para o Brás. Tudo o que você relatou eu fazia, juntamente com meus amigos da escola Roberto Simonsen. Minhas descidas do bonde andando se dava na Rua do Gasômetro. Olha dinheiro não nasce em arvore... Ouvi tanto...
Enviado por Mario Lopomo - mlopomo@uol.com.br
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