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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Infância na Vila Prudente dos anos 1960 Autor(a): Ivan Consolmagno - Conheça esse autor
História publicada em 05/09/2013

Houve um tempo em que os heróis da garotada não eram bandidos nem traficantes. A minha infância foi marcada por um herói que assustou os heróis Yankees, era brasileiro, de São Bernardo do Campo. Chamava-se Carlos Miranda, o Vigilante Rodoviário. Bonitão e valente, o Vigilante era o nosso herói tupiniquim. A molecada adorava o vigilante como um deus! E, naquela época, eu, moleque de rua da Vila Prudente, ganhava o mundo pelos campinhos, pelos terrenos baldios que vicejavam no bairro que crescia e se desenvolvia, nas mãos dos imigrantes italianos e lituanos, principalmente.

A garotada brincava de tudo: pipa, carrinho de rolimã, bolinha de gude, figurinhas, taco, esconde-esconde e até briga de galos... Já proibida na época. E naqueles primeiros tempos da televisão brasileira, brincávamos também imitando os heróis da TV: caubóis, polícia e bandido eram nossos preferidos. E, entre os preferidos, não faltava o bravo Vigilante Rodoviário. Patinetes e Monaretas viravam, em um piscar de olhos, em possantes Harley-Davidson, carrinhos de rolimã transformavam-se no Simca do Patrulheiro Carlos, paus eram rifles e mamona era munição.

A Vila Prudente era forrada de terrenos baldios, que viravam palco de sangrentas batalhas contra os alemães, ou em pradarias imensas, onde cavalgávamos com nossos alazões de cabo de vassoura em direção ao poente. E aí os moleques interpretavam de maneira magistral grandes figuras como Daniel Boone, Mike Nelson, vira-latas interpretavam Rin-Tin-Tin e Lassie... E éramos felizes.

Vez por outra, entre um e outro campeonato de taco, quebrávamos a rotina e brincávamos de Vigilante. Como todo mundo queria ser o patrulheiro Carlos, combinamos que ninguém o interpretaria, e ele existiria espiritualmente, assim ninguém brigava. Certa vez, estava a molecada em peso brincando de Vigilante, devidamente divididos entre "mocinhos" e "bandidos". Não faltavam os "tiros" feitos com a boca, os "roncos" das motocicletas cheios de cuspe e perdigotos, além das "sirenes" das "viaturas", em meio a uma gritaria infernal. E, claro, não podia faltar também a clássica linguagem "coloquial", presente nas dublagens da época, e imitada do cinema americano, cuja influência no cinema brasileiro era marcante. O Vigilante não fugia a regra e as falas eram “iguaizinhas” as das dublagens. Éramos especialistas nisso!

Pois estávamos em cima de um morro ou coisa parecida, em um terreno baldio cheio de entulho e pés de mamona, cercando um bando de "bandidos", que nos vaiava, xingava e fazia sinais obscenos, como só os moleques sabem fazer, quando resolvi dar uma investida muito arriscada aos "malfeitores". Levantei-me e ia investir, quando percebi que meu "companheiro policial" ao meu lado hesitou. - O que houve, companheiro? - perguntei espantado, mas não perdendo a pose militar que a ocasião exigia. - Está com medo? - tornei a perguntar, retornando ao meu refúgio já meio inseguro em relação ao meu "companheiro"... Teria me precipitado? Poria a perder tão importante missão?

Ao que ele me respondeu, com dignidade militar e certa expressão de opressão: - Não! - respondeu ele firmemente, - É que necessito ir ao banheiro! Depois daremos busca aos bandidos! Deliciosa infância! O meu "companheiro de patrulha" é o meu amigo e padrinho Nelson Cassador, se a memória não me falha....

E-mail: corisco15@yahoo.com.br
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Publicado em 09/09/2013

Oi Ivan, tenho uma tia que mora na R. Baceúnas, ela teve 2 filhos um o Nalter, mais novo, falecido, mas o Newton ainda mora com ela, era uma casa bem grande e tenho boas lembranças desta época, meus primos nasceram em 1.953 e outro em 1.956

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 06/09/2013

Ivan, como e bom lembrarmos a nossa infancia, guardar na memoria os nossos "herois", parabens pelo texto.

Enviado por Leonello Tesser (Nelinho) - lt.ltesser@hotmail.com
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