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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Setenta e quatro Autor(a): Rubens Cano de Medeiros - Conheça esse autor
História publicada em 27/08/2013

Dos 459 anos de São Paulo, tenho desfrutado dos últimos 65 assim: os mais recentes 45 cá na Vila Gumercindo (no mesmo sobradinho). Desde Celso Pitta, o lugar é oficialmente o "distrito Cursino". Que ninguém fala, muito menos eu. Os 20 anos anteriores, passei na Vila Mariana, uma rápida escala no Jabaquara. E as primeiras 24h ou 48h de minha vidinha de paulistano, hospedei-me no "emblemático predião” branco da Frei Caneca. Lugar justamente onde, no curso de muitos anos, milhares de paulistaninhos também desembarcaram. Não nas asas da Panair, mas da cegonha.

Naquela então "São Paulo (que) não pode parar", diziam nos anos 50 e tanto, eu, molequinho, até gostava de transportes. Máquinas e veículos. Muito embora ainda hoje, quem disse que entendo algo? Só gosto, está de bom tamanho. Só navego na emoção, que navegar é preciso. Bondes e ônibus. Os primeiros de que me lembro, na Domingos de Morais e cercanias, só dava Cmtc! Vermelho e creme, nunca esquecerei. Barulhos que também não se apagam, memória auditiva. São motores e ferragens que ainda ecoam.

Despertavam a atenção deste ex-moleque vilamarianense os caminhões. Os de feirantes, de outros serviços e cargas. E lembro bem: o que Ford não era, Chevrolet sim - "caminhões médios". Resolutamente, a estrela alemã de três pontas também despontava no horizonte. "Pesados" nacionais, incipientes, o Fenemê e o Scania-Vabis montado na Vila Carioca. Tempo aquele em que motorista ainda era "chofer". Gente que falava "trambulador", "boleia" e "carroçaria". Caminhões europeus e (mais) americanos, alguns até montados em São Paulo mesmo. "International Harvester": eu lá sabia pronunciar? Eu lia direto nas plaquetinhas cromadas: “REO, Mack, Diamond T; White, GMC Truck focinhudão". Cujos anúncios eu apreciava, belamente desenhados, edição de domingo do Diário de São Paulo (associados). De suplemento cultural colorido: príncipe valente loirinho, Pinduca sempre mudo nas charges, Sobrinhos do Capitão. Ora, se dá saudade!

Automóveis que me viram moleque, calça curta, suspensórios e sapato pesado de sola de pneu (malditas tachinhas!). Eu gostava de ver os "carros de praça", pretos, taxímetro Capelinha - eu tomava só em enterro ou casamento. Vim a saber um dia: eram os Chevrolet Fleetline, anos 40, montados na GM de São Caetano. Que no rádio eu ouvia: tinha um time chamado "São Bento". Mas bonitos me eram também os Dodge e Nash. Mercury, Oldsmobile, Packard, Hudson... Citroen, com trema no "e" - não capotavam nunca, falavam os que sabiam tudo de carro. Plymouth (como?). Primeiros fusquinhas. Curioso que deles quase não "alembro", falavam alguns moleques. Carrinhos que dirigi com muito prazer! "Das auto!”

Ah, eu também gostava do barulhão! "Máquinas da Prefeitura", que ruas de terra não longe de casa ainda existiam. Máquinas de cor amarela, motores à mostra. Tratores, motoniveladoras, rolos compressores. Baforadas de fumaça negra na vertical, para o céu. Caterpillar, cuja montadora ainda conheci, anos 70, em Jurubatuba. Só que guinchos e guindastes também me impressionavam. Uns soube que eram americanos. Na plataforma que apoiava a cabine, sobre lagartas iguais às dos tanques de guerra, lá estava o nome grandão, em alto relevo. Era a marca e o nome da cidade americana de onde vinham. Euclid. Como falavam até mecânicos, "aportuguesando" de modo caboclo? "Cride". Tal qual o Golias. Que a gente ouvia na Nacional, Programa Manoel da Nóbrega, do "Peru-que-fala". Primeiro, a Parada de Sucessos - aqui, minha memória vacila, leva um "gongo": “bóimm!” Nacional ou Excelsior? Emissoras Victor Costa, algo assim.

Meu céu azul de infância! As "aeronaves" (como refere quem é do ramo), elas na rota para o pouso no xadrez de Congonhas! Era uma "estrada invisível", claro - ainda bem! - não para os pilotos... Por sobre nossa casinha e a enorme chácara adjacente. E tanto foi que me acostumei, só de incansavelmente olhar e devorar com os olhos, que eu não confundia. Bimotores. Diferenciava só de ouvir ou ver. Um DC-3 do Curtiss "barrigudo".

O(s) Convair (240, 340, 440) do Luzidio Scania sueco da Vasp - "Voe bem, voe VASP!". O pessoal comentava. A VASP? É do Governo. E o silvo das quatro turbinas turboélices, hein! Vickers Viscount - da VASP! Que idêntico era o avião presidencial, da FAB. Esporadicamente vindo a São Paulo. Só hoje é que pressuponho. Que àquela época, rodas baixadas na iminência do pouso, era que o excelentíssimo senhor afivelava o cinto, sem se dar conta de que cruzava por sobre o nosso quintalzão... E se soubesse, que diferença?

E os trilhos urbanos daquela Pauliceia, há meio século? Bondes e trens de subúrbio cujos destinos o moleque nem de longe imaginava onde terminavam... O "trenzinho da Cantareira"? Só conheci quase adolescente. Entretanto, no abissal da memória, acende uma luzinha. Como um flash, revejo trilhos de bitolinha, na rua, no meio dos carros! Inusitado trenzinho! Se o vi duas ou três vezes, foi goleada. E de dentro de condução: do bonde ou do Twin-Coach da linha Estações (cinco ou seis?): "Manhê! Olha um trem!". Isso cruzando a Avenida Mercúrio com a Rangel. Vindo da Rua do Gasômetro. Curtíssimo trajeto. Fugazmente o "revejo": pronto, passou!

Bem defronte a uma face do Parque Dom Pedro II, àquele tempo verdadeiramente parque. Maria-fumacinha resfolegante e soltando baforadas de vapor e fumaça! Puxava vagonetes. Devagar, o próprio caminhar da Branca de Neve e os sete anões... Mesmo que nem fossem sete as vagonetes. Tempos depois alguém me explicou. Aquele trenzinho era a hulha transportada para "fabricar" o gás de rua! A "companhia de gás", “San Paulo Gas Company”. Gás "encanado" - o qual Vila Mariana tinha, nós não. O nosso era o Ultragaz dos caminhões Chevrolet Brasil, cor de prata. Que botou para escanteio o fogão a carvão, a "espiriteira" a álcool, etc.

Prezado site SPMC. Isto posto, tais reminiscências, só cabe, a mim, agradecer. Meu prazer de compartilhar das milhares de narrativas de que o site é o fiel depositário. Por sinal, fidelíssimo. E o que é mais paulistano. Paulistaníssimo! Sem o SPMC tais emoções iriam volatizar. Dissipar, como vapor e a fumaça, como a hulha que "queimou"...

E-mail: rcm.rhda.sp@gmail.com
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Publicado em 28/08/2013

Maravilhosa recordação motorizada, Medeiros, detalhadamente exposta, sua narrativa traz, como num passe de mágica, os anos de grandes transformações. Redigida com o cuidado de um poeta, sua escrita, ao mencionar marcas de carros, transportes ferroviários, urbanos,aviões, troleibus e diesel,deixam a matéria encantadora e suave, como sempre soam suas crônicas. Parabéns, Rubens.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 28/08/2013

Rubens, que belo relato voce faz daqueles tempos, eu tambem do alto dos meus 78 anos vi quase tudo daquilo que voce descreveu, era uma outra Sao Paulo, bons tempos, parabens pelo texto.

Enviado por Leonello Tesser (Nelinho) - lt.ltesser@hotmail.com
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