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Categoria - Paisagens e lugares Paraíso "bizantino" Autor(a): Rubens Cano de Medeiros - Conheça esse autor
História publicada em 02/04/2013

Nunca tive tal curiosidade: em matéria de urbanismo, o que distingue uma "praça" de um "largo", se ambos logradouros? Eu, anos 50, moleque paulistano, seis ou sete anos, eu gostava de correr nos jardins públicos. Ir de encontro ao vento, naqueles caminhos de asfalto por entre os belos jardins - e a fonte luminosa do Largo Dona Ana Rosa. Que eu me lembro, ninguém falava o "dona". Era só o "Ana Rosa". Um cartão-postal àquela época. Depois da chegada do metrô? Ah! Virou um rascunho de "largo". Um buraco feioso: abaixo do nível! Do mar? Não, da rua.

Eu, meados dos anos 50, vez por outra eu ia a outro logradouro da região. Com o devido respeito à tradição da memória dos bairros, este outro era tão perto do Ana Rosa quanto nem de longe tinha o mesmo encanto. Era a Praça Rodrigues de Abreu. Que muitos ainda até chamavam por uma denominação antiga: "Largo do Guanabara". Da grande igreja de Santa Generosa. Largo dos cirquinhos que eram armados em uma ruela ao lado, perto da Rua do Paraíso.

Rodrigues de Abreu da feira-livre à qual minha mãe e eu às vezes "íamos". Eu para carregar. Pastel, não lembro se já à época havia nas feiras. Se sim, lembro que o meu era de carne. E o outro, de queijo. Na praça, para alegria de meus olhos de moleque, parava o Twin-Coach da linha 109, da CMTC. Que só andava sobre um chão de paralelepípedos intermináveis, até o Largo do Cambuci. E um ponto de caminhões de fretes e mudanças. Nas carrocerias de madeira, de cada lado, a inscrição pintada: "aluguel". Chevrolet Tigre e Gigante. "Boleias" verdes e para-lamas pretos. Infatigáveis, aqueles caminhões a gasolina.

À frente da Praça (considerando a igreja situada "no fundo" do logradouro, questão de referir), duas outras referências do lugar, ali uma transição de Paraíso para Vila Mariana. A Brahma e a catedral. Ambas na Vergueiro. Fotos da Internet nos trarão o passado para o presente. Como é sabido, a Brahma era enorme: todo um quarteirão. Vergueiro, Tupinambás, Apeninos e Rua do Paraíso. Chaminés de um fôlego que só! Não descansavam. Hoje no lugar, vários espigões. Guaraná Brahma, tão gostoso como o Antarctica. Sabor de saudade.

Catedral Ortodoxa, monumental! De moleque, já me impressionava aquele verdadeiro cartão-postal. Aquela "igreja" diferente do comum das demais. Formas arredondadas. Interessantíssima: vista da Vergueiro, vista da Apeninos, era a mesma "frente", inclusive as "torres". Lógico, bem depois, foi que percebi. A belíssima cúpula (abóbada) central e os quatro "semidomos" laterais, tudo isso de metal dourado. Era um pedaço bizantino, no Paraíso! A própria Basílica de Santa Sofia, que eu via nos filmes dos cines Cruzeiro e Phenix. Edificação “sui generis”. Se me perguntarem, hoje, no metrô, onde é Istambul, não vacilarei: é só descer na estação Paraíso!

Tal qual sucedeu, ao longo do tempo, as paisagens paulistanas, a Praça Rodrigues de Abreu pagou um preço. Com a implantação do metrô no local e a chegada da mega-avenida, a praça foi engolida. Incomensurável movimentação de terra, desde o Anhangabaú até o Ibirapuera, modificando profundamente o vale do Itororó e adiante. A Igreja de Santa Generosa ressurgiu das cinzas - melhor, da demolição. E brotou bem menorzinha, perto da também tradicional Panificadora Viana - que só de referir me dá água na boca:
- "pingado com pão com manteiga, costume paulistaníssimo! Na chapa, por favor!”

A monumental avenida, outro orgulho dos paulistanos! As adequações viárias requeridas por São Paulo impediam retardar ainda mais a implantação. O asfalto, como se fosse uma gigantesca lista da bandeira dos paulistas, como que tremulando do Anhangabaú até (não por acaso) os pés do Obelisco de 32...

Avenida cuja denominação marca fortemente no chão da Pauliceia aquele dia épico. Que evoca a saga do MMDC. Por sua vez, embrião da São Paulo das trincheiras constitucionalistas. A Avenida 23 de Maio! Foi então que a velha Rodrigues de Abreu e a Santa generosamente entenderam: havia que permitir passar. A praça abriu espaço; a Santa abençoou. Algum cartão-postal paulistano, daquele trecho do Paraíso de hoje, por certo exibirá a ambos: a mega – radial - sul e o pedacinho bizantino de São Paulo...


E-mail: rcm.rhda.sp@gmail.com

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Publicado em 16/10/2013

A cidade pode crescer, os metrôs engolirem tudo á sua volta,mas as catedrais permanecerão com sua imponência erguendo para os céus os braços da humanidade, como para pedir socorro.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 04/04/2013 Rubens, também não sei a diferença entre praça e largo, mas sei que pingado, com pão e manteiga na chapa é tudo de bom, né não???? Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslour_ti@yahoo.com.br
Publicado em 03/04/2013 Quando fiquei viúva eu fui morar na Aclima~ção e desde então me acostumei com este trecho que você tão bem detalha. Ainda hoje frequento a Igreja do Paraíso com o rito greco-melquita, e, faço meus passeios pelas imediações do metrô Paraíso ( um buraco feio que dá pena...), mas há uma beleza oriental por aqueles lados que muito me encanta.Temos o Shopping Paulista que é tudo de bom e está sendo ampliado. Enviado por Trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
Publicado em 02/04/2013 Rubens, que delícia de passeio. Muito bom mesmo. Estudei um ano naquele colégio ao lado da catedral ortodoxa. Foi um ano excelente e me senti muito respeitada e guardo saudades. Parabéns mesmo. Gostei demais. Abraços. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 02/04/2013 O METRÔ chegou de mansinho e avassalou ruas ,
praças,comércios sem dó. As estações cresceram muito e mesmo assim não dão conta do transporte para a população.
Enviado por walquiria rocha machado - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 02/04/2013 Rubens, é isso aí a paisagem mudou e muitas vezes nos traz decepções. Em outras, nos surpreendemos por belos cartões postais. Um abraço. Enviado por margarida peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 02/04/2013 Vila Mariana de muitos bons bares, como Bar Veloso, Bar Genuino,Bar da Villa, Pizzaria Quintal do Braz

Parabens pelo texto
Enviado por alexandre ronan da silva - alexandreronan@gmail.com
Publicado em 02/04/2013 Sr.Medeiros, como diria o grande "humorista" Neto da Band, sua história foi um "show de bola". Acho que grande parte da população de São Paulo já teve algum interesse nesse eixo que inicia na Consolação atravessa toda a Paulista e chega nos domínios do Paraíso e Vila Mariana. Lugares que muito nos são caros mas transformados, desaparecidos por força da pujança de Piratininga, com os trens rasgando o ventre do subsolo paulistano. Parabéns. Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - ernestob1144@gmail.com
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