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Categoria - Outras histórias A pena de morte e a minha canela Autor(a): Jayro Eduardo Xavier - Conheça esse autor
História publicada em 28/02/2007

Era 2 de maio de 1960. Eu trabalhava no Aeroporto de Congonhas e morava na Vila Clementino. Para ir pra casa tomava dois ônibus: um do aeroporto até Moema e outro de Moema à Vila Mariana. Eu havia terminado meu turno de trabalho na Panair e estava do lado de fora da Ala Internacional de olho no aparecimento do meu ônibus e de ouvido atento ao radinho Spica de um amigo. A Rádio Bandeirantes, se não me engano, transmitia a execução de Caryl Chessman, o famoso Bandido da Luz Vermelha, que estava preso desde janeiro de 1948 e que, condenado à morte, conseguira vários adiamentos. Não havia morbidez em nosso interesse; esperávamos isso sim novo adiamento ou um indulto com comutação da pena em prisão perpétua. Meu ônibus apareceu e corri para o ponto situado na pista de baixo, na avenida Washington Luis, mas escorreguei e bati com a canela naquela mureta de pedra que separa as duas pistas. Mesmo assim consegui tomar o ônibus. Ao descer em Moema encontrei uma oficina de sapateiro que estava com o rádio sintonizado na transmissão da execução e havia muita gente ouvindo. Cerca de meia hora depois foi confirmada a execução. Alguns acharam bem feita, outros tinham lágrimas nos olhos e outros, ainda, certamente por terem lido seu livro “Cela 2455, Corredor da Morte”, expressavam a opinião do nosso jurista Nelson Hungria contra aquele “assassinato legal”. Passada a emoção, fui para o ponto de ônibus e só aí me dei conta de que minha meia estava encharcada. O sangue continuava a sair do buraco aberto na canela. Procurei uma farmácia próxima, fiz um curativo e fui pra casa. A cicatriz e a depressão no perônio existem até hoje. E por causa de um sujeito de outro país preso há 59 anos.

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Publicado em 04/12/2009 E LAMENTAVEL RELEMBRAR ESTES FATOS, MAS A HISTORIA SEMPRE PERMANECERA, CERTA OU ERRADA, O QUE PODEMOS FAZER, APENAS LAMENTAR. Enviado por FELIX BAQUEIRO - felixbaqueiro@gmail.com
Publicado em 31/07/2007 Lembro bem do "assassinato legal" de Caryl Chessman, aliás são Paulo têve um governador que me transmitia um mal estar por lembrar suas feições. Ví Caryl Chessman sentado em sua cadeira de astronáuta do inferno num museu de cêra na esquina da rua Formosa com a São João em dezembro de 1966. O problema da pena de morte é que a execução é programada e executada friamente, enquanto a mídia transforma o condenado num mártir e faz uma população inteira chorar por uma vida brutalmente e friamente arrancada, igualando o estado ao assassino condenado. O bandido da luz vermelha do Brasil cumpriu os 30 anos, mas foi assassinado covardemente em Santa Catarina, esta execução não teve cobertura da mídia e nem interêsses propagandísticos como a de Karyl Chessman que nós brasileiros até aprendemos a escrever seu nome. Acompanhei pelo rádio sua execução, lembro que éra uma tarde de sol. Enviado por Zélio Andrezzo - zelioandrezzo@yahoo.com.br
Publicado em 27/07/2007 eu me lembro muito bem do dia am que mataram o famozo bandido da luz vermelha o legitimo [americano]eu devia ter uns 10 anos,os jornais e as radios só noticiavam isso,depois apareceu o joão acaçio o bandido da luz vermelha brasileiro ,que foi assasinado em santa catarina. Enviado por nelson arjona - nelson.arjona@hotmail.com
Publicado em 25/04/2007 Jayro beleza a tua história.Humana,mas se não estou enganado o "Bandido da luz vermelha" era de Joinville-SC. e que após os 30 anos de pena foi libertado. Voltou para sua cidade e acabou sendo morto a tiros. Tinha perdido o costume de conviver em sociedade. Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
Publicado em 28/02/2007 Jayro me lembro bem desse caso, agóra da tua canela quebrada eu só fui saber hoje graças a este texto. Valeu! Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 28/02/2007 É o efeito borboleta. O que atinge um acaba afetando todos os outros, de diferentes formas. Enviado por Luiz Simões Saidenberg - saidenberg@ajato.com.br
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