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Categoria - Personagens 1960 – Aeroporto de Congonhas Autor(a): Jayro Eduardo Xavier - Conheça esse autor
História publicada em 27/02/2007

Eu era DOV – Despachante Operacional de Võo da Panair do Brasil. As funções dos DOVs eram fazer planos de vôo e organizar o balanceamento de aeronaves. A elaboração do plano de vôo consistia em análise das condições meteorológicas da rota e na escolha do nível de vôo adequado ao tipo de aeronave para, finalmente, calcular consumo, estabelecer proas e pontos de mudança de rota, alternativas, etc. O balanceamento consistia em, de acordo com o combustível requerido e o número de passageiros, distribuir a carga, o correio aéreo e a bagagem pelos quatro porões da aeronave numa ordem que contribuísse para manter o centro de gravidade dentro de limites aceitáveis e que facilitasse sua localização na escala seguinte. Havia só um vôo por semana para Lima e esse vôo era operado com o Douglas DC-6C, um avião misto, ou seja, além dos porões, tinha um compartimento de carga entre a cabine de comando e a de passageiros. O compartimento de carga vinha do Rio lotado com revistas 'O Cruzeiro Internacional'. Dado que o trecho São Paulo - Lima requeria tanques cheios e que o correio, os passageiros e a sua bagagem tinham prioridade sobre a carga, parte da carga de revistas tinha que ser retirada pra não haver excesso de peso. Assis Chateaubriand, dono da revista, reclamou com a direção da Panair e esta deu ordem para que não mais deixássemos as revistas pra trás. No vôo seguinte novo excesso. Reuni-me com meu chefe, o saudoso Edwin Quillin e o comandante Danilo. Propus uma decolagem de Congonhas para Cumbica, abastecimento total ali e decolagem para Lima, já que a pista de Cumbica oferecia condições para decolagem com peso máximo. Danilo disse para manter o excesso e fazer o calculo da decolagem para a pista 34*. A favor do vento! A razão era que há um gradiente de 1% entre as cabeceiras, ou seja, a cabeceira 34 (Jabaquara) é cerca de 20 metros mais alta que a cabeceira 16 (Indianópolis). Desse modo ele aproveitaria a descida. Fiz como solicitado, mas me recusei assinar o relatório. O Edwin, meu superior, assumiu a responsabilidade e assinou. Fomos para o pátio ver a decolagem. O avião comeu toda a pista e saiu polindo antenas de TV do bairro até desaparecer contra a silhueta do morro do Jaraguá. Foi um vôo bem sucedido. O DC-6C, como todo quadrimotor, sai do chão com peso total em apenas 3 motores. Danilo confiou na sorte de não perder um motor na decolagem.

(* Hoje, em razão da variação magnética da Terra, as pistas são 17/35, ou seja, na pista 17 sua bússola estará mostrando o rumo magnético de 170º (mais precisamente 167º).

Danilo Marques Moura, comandante da frota dos DC6-C, costumava dizer-se carroceiro e que a cabine de comando era a boléia. Sempre distribuía chicletes de bordo ao pessoal de terra e gostava de brincar com todos. Piloto de combate da esquadrilha verde, na II Guerra Mundial, e acumulando a função de chefe da garagem de veículos, realizou 11 missões de guerra. Sua primeira missão foi em 19 de novembro de 1944. Ao cumprir sua 11ª missão, em 04 fev 45, foi abatido pela artilharia antiaérea inimiga a sudoeste da cidade de Treviso, Itália, saltou de pára-quedas a baixíssima altura, tendo tocado o solo segundos após a abertura de seu pára-quedas. Caiu sentado e na violência do impacto mordeu sua língua provocando dificuldades para falar. Notei essa dificuldade em nosso primeiro contato. Foi socorrido e escondido por simpatizantes. Cansado da vida de esconderijo — contava-se que ele chegou a viver com sua hospedeira —, resolveu tentar regressar às linhas amigas. Contrariando todas as instruções quanto à fuga, conseguiu retornar às linhas amigas andando, a pé e de bicicleta, mais de 340 km, utilizando-se da luz do dia e das estradas principais. Sua história tem sido narrada muitas vezes em livros e revistas. Danilo era o irmão caçula do comandante Nero Moura, que mais tarde veio a ser Ministro da Aeronáutica. Ao retornar para Pisa, continuou na sua função de chefe da garagem, porém não pode efetuar mais nenhuma missão de guerra, pois caso fosse novamente abatido e tomado prisioneiro, poderia ser considerado pelo inimigo como sendo um espião e certamente seria executado. Saiba mais sobre esse que foi meu amigo em http://www.sentandoapua.com.br/

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Publicado em 07/05/2009 Tudo que o Jqyro escreve é primoroso...Mantive contato com esse amigo,que nunca conheci pessoalmente,infelizmente...Falavamos através de emails...Noentanto desde 8 de janeiro não recebi mais noticias e por azar perdi na troca de computador,os endereços ,inclusive da casa da Praia Gde,onde ele morava ultimamente...Siplesmente sumiu esse amigo....Gostaria muito se sua alma bondosa me mandasse noticias dessa pessoa ,cuja amizade preso muito...Me faria essa fineza?
Agradecida,um abraço
Lourdes
Enviado por Maria de Lourdes Solera Bitetto - ludisole@gmail.com
Publicado em 17/04/2009 Prezado Xavier, que história incrível! Concordo que poderia virar filme ou mini-série de TV. Parabéns! Bernardi. Enviado por Ernesto Bernardi - ernestob1144@gmail.com
Publicado em 14/05/2008 Não entendo da técnica de decolagem, mas o homem Danilo era audaz, e priorizava o conhecimento técnico e atitudes racionais,agindo sempre sem grandes emocoes. Gostaria q. o autor deste artigo me contatasse para depoimentos q. estou recolhendo para um livro sobre sua vida. Atitudes como esta náo foram poucas. Enviado por REGINA MARIA MOURA - mariamoura9@terra.com.br
Publicado em 01/05/2008 Sempre morei nas imediações do aeroporto de congonhas. Distancia de dois quilômetros. A beira do córrego da traição, onde anos mais tarde foi construída a avenida dos bandeirantes. Era um sufoco, Desde 1951 quando lá fomos morar tivemos que nos acostumar com aquele barulho. Logo as seis horas da manhã, tinha o aquecimento dos motores. E ainda ficávamos debaixo da rota dos aviões, Quando vinham do Rio de Janeiro e, era a maioria, eles faziam, (e fazem) a curva em cima do jóquei clube para fazer a reta até o aeroporto, passavam bem em cima da minha casa. Era um sufoco, pois durante muitos anos eram aqueles electras, com duas élices que faziam um barulhão. Só que durante todos aqueles anos, nunca teve um acidente qualquer grave com eles. Depois vieram os Focker, mais silenciosos, e deu no que deu. Um não funcionou o reverso na decolagem, caiu no Jabaquara. Outro não teve breque, caiu na avenida Washington Luiz.
Mas a lembrança maior foi em 1959, quando fomos jogar futebol ao lado do aeroporto, um campo de terra vermelha a tarde, com um sol que era uma loucura. Quando acabou o jogo do seguindo quadro, a sede era tanta que bebemos água de uma valeta que tinha no pé do morro, do aeroporto. A, água era branquinha. Para a gente era uma mina que brotava lá da terra. Mas quando não se tem gato, caça com cachorro, o negocio foi molhar o bico.
Enviado por Mário Lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 11/04/2008 Se fosse nos Estados Unidos isto já teria se transformado num filme e com certeza de grande bilheteria. Enviado por Bernardo Schulze - bernardoschulze@gmail.com
Publicado em 05/04/2008 Em 1962 eu voei num Dart Herald (acho que é isso)
um avião diziam que era japonés... a fuselagem
se soltava... a ass era em cima... horrivel... foi uma aventura...
Enviado por Benedito - blfer@terra.com.br
Publicado em 23/10/2007 É uma pena que hoje, tem muitos profissionais na função de DOV's que estão desempregados. Tudo isso começou quando as empresas aéreas, tiram ou acabaram com os DOV's nas bases, e centralizaram quase tudo em São Paulo, criaram uma central de dov's, e com isso, os dov's foram extintos. são poucos hoje no mercado da aviação. Por isso defendo a função de dov, pois eles são de grande importância para aviação.
Mardoqueo SANTIAGO
Técnico em Manutenção de Aeronaves
Brasília - DF
Enviado por Mardoqueo Santiago de Araujo - mardoqueoaraujo@yahoo.com.br
Publicado em 09/09/2007 Belo texto! Quanto ao Danilo, ele voltou às linhas amigas por civismo?Tenho um primo que deve ter sido seu contemporâneo na Panair. O nome dele é Nelson Buncana. Enviado por Mirça Bludeni de Pinho - by_laser@yahoo.com.br
Publicado em 31/08/2007 Tô vendo que Congonhas sempre teve histórias de aviões pousando ou decolando com dificuldades por causa das pistas curtas. Enviado por Marta Rosolino - martaro@uol.com.br
Publicado em 20/06/2007 Saudações amigo Jayro Eduardo Xavier. Li o seu texto e gostei. Já deveria ter lido antes e vejo que poucas pessoas deram atenção a ele. Me desculpe por não ter me manifestado anteriormente. Visitei o site www.sentandoapua.com.br, achei ótimo.
Penso que você deveria continuar escrevendo histórias sobre a sua vivência na navegação aérea e junto ao Aeroporto de Congonhas.Elas são bastante úteis e interessantes e nós como não estamos familiarizados com essa temática, ficamos completamente por fora.Aguardamos então próximos pronunciamentos. Um abraço a você.
Gostaria que nos contasse como está o bairro próximo ao Aeroporto de Congonhas e saber também sua opinião sobre os controladores de võo e a crise da aviação brasileira. E parabéns outra vez pelo seu relato. Muito bom!
Enviado por Clesiodeluca - clesiodeluca@yahoo.com.br
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