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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Tributo ao Gilda Autor(a): Rubens Cano de Medeiros - Conheça esse autor
História publicada em 24/02/2013

I - Paulistano de 65 anos que sou, grande parte daqueles moleques de minha infância em Vila Mariana - de classe média mais para alta, embora bairro também de proletários, de habitações coletivas, algumas fábricas de porte e chácaras - naqueles anos 50, pouco antes ou pouco além do IV Centenário, aquela molecada era de famílias de ascendência europeia. Como é sabido, predominavam italianos: "Meu vô é intaliano", dizia um moleque. Como bem retratava Adoniran Barbosa na Rádio Record, aquele linguajar. Linguajar típico do paulista operário das fábricas - caso do meu pai - gente que no diálogo trocava fonemas, "l" por "r", um exemplo. Ou o contrário: em vez de "sicrano", diziam "siclano".

II - Foi assim, eu me lembro que meu pai me explicou. Aquele belo bonde, que eu então descobria, na aristocrática Paulista de trilhos (no asfalto, orlado de paralelepípedos), aquele "novo" bonde para mim era um "Girlda". Pronunciado com um "r" que, incontinente, virava "l". Não propriamente um "r" forte como se falado em Sorocaba ou Piracicaba. Era uma pronúncia do Lavapés.

III - Eu tenho saudade - ainda que uma bobagem - daquela São Paulo da prosa igual à de Inezita Barroso, no hino paulistano "Lampião de Gás". Era infinitamente mais bonita aquela maneira de falar. Do tempo em que eu gostava de sintonizar a escolinha de Nhô Totico. Rádio América, Consolação com São Luís. Não mais o auge, mas era ainda tempo de bondes. Carros abertos (pequenos e maiores, com reboques), camarões e eles, os "Gilda" (estes, parece que 75 bondes: 50 de aço, 25 de alumínio, coisa assim - qualquer erro que seja amenizado pela lembrança, que é só de memória).

IV - Mesmo moleque, cinco ou seis anos, como eu deles gostava, comparava-lhes os detalhes, os bondes e os ônibus. Aquele bonde - meu pai falava, era americano - e ele se destacava na paisagem. Janelas amplas, vidros que baixavam travando no percurso. Veículos dotados de limpadores de para-brisas, ao contrário dos camarões. No Gilda, o motorneiro brecava com o pé. Por dentro, eu percebia, era idêntico aos ônibus (que eu muito pouco tomava) GM Coaches da linha Sumaré. Iluminação excelente, bondes confortáveis. Com relação aos demais, bem melhores.

V - Se os bancos dos abertos e dos camarões eram de madeira envernizada, os assentos do Gilda, como nos ônibus, eram transversais e de dois lugares, assentos de palhinha trançada, originários de Nova York de onde aqueles bondes, em 1947, vieram. Os quais a municipalidade adquiriu para a então recém-nascida CMTC. Palhinha que se desgastou com o tempo e que a CMTC trocou por certa "imitação", de material sintético, eu me lembro.

VI - Embora eu leigo, era fascinado pelos coletivos que desfilavam pela São Paulo de minha infância e adolescência. Não obstante, muitos obsoletos e anacrônicos: caso dos bondes. Tempos depois foi que constatei aquele bonde americano, de quatro portas - duas de cada lado, uma em cada "frente" (lados opostos) e duas outras no meio do carro (uma de cada lado) - aqueles belos bondes tinham três referências. "Apelidos", se é que máquina tem apelido.

VII - Três apelidos dos quais - a não ser o meu pai falar - jamais ouvi alguém pronunciar. "Gilda", estapafúrdia comparação (por ser o bonde bonito) com a beleza da Gilda do filme, a atriz Rita Hayworth. "Centex", de "Central Exit", porque tinha duas saídas no meio do carro. E por fim "Huffliner" - esta eu pesquei na Internet: referência ao projetista de sobrenome Huff, pai ou um dos pais daqueles bondes que surgiram em 1939 e rodaram na Broadway até 1945. "Gilda", mais paulistano de todos os apelidos.

VIII - Naquele trecho compreendido entre João Mendes, Liberdade, Vergueiro, Paulista e a Vila Mariana, eu não me lembro de ter visto o Gilda em linha alguma que não fosse a 36. Daí, para mim, moleque e até mais, o lindo bonde “nova-iorquino” era o "bonde Avenida Angélica". Linha que só tinha deles. Eram americanos, porém mais paulistano que eles ninguém.

IX - Quando trabalhava nas ruas, 13 para 14 anos, anos 60, nos Gilda viajei nas linhas Pinheiros, Perdizes e Lapa - lembro ainda, motorneiros e cobradores da CMTC fardados de azul. Afora aquelas linhas, mais os outros que rolavam pela São João, os Gilda também se hospedavam na Estação da Glete. Daí eu nunca ter visto um Gilda trepidar nos desvios da Estação de Vila Mariana. Apenas vi uma foto - só foto - de um Centex com letreiro "Santo Amaro". Aquele pequeno letreiro que eles tinham, no alto, na frente, à direita.

X - Os americanos - vi na Internet - chamavam bondes como o Centex de "double end". Porque tinham duplo comando, um em cada extremidade. Chegando ao ponto final, o motorneiro mudava de lugar e, pelos mesmos trilhos, aquele bonde retornava.

XI - Procedentes da "Third Avenue", apeados dos navios, nas docas de Santos, naqueles 1947 do qual nasci em dezembro (em vez de cegonha, quase vim de bonde), aos lotes os Centex subiram a Serra de carona nos pranchões da São Paulo Railway (a qual, no futebol, virou o Nacional, da Comendador Sousa). Os Gilda ficavam estacionados num tal de "Desvio do Ipiranga", da Light, ao lado da estação ferroviária de mesmo nome. Até que eram rebocados, por outros bondes, para o Cambuci, onde a mesma Light os reformaria para a CMTC. Meu pai trabalhou nisso. Os Gilda recebiam alavancas de contato, uma vez que em Times Square eram de "terceiro trilho" (embutido no asfalto). A Internet o atesta - e dá fé!

XII - Lembro-me de neles ter viajado, por bom tempo, com os Gilda ainda trazendo os cofrinhos de vidro, perto das portas do meio, que em Nova York guardavam as moedinhas de "cent dollar", lá sem cobrador. Bem que a CMTC, só por curiosidade, poderia ter guardado algum - se é que não o fez. Em 1957, junto com os Twin Coach, Adhemar de Barros mandou reformar a ambos. E os belos bondes então tiveram as portas do lado esquerdo removidas. E, na frente, ganharam uma asinha com o nome CMTC.

XIII - Os primeiros anos da década de 60 testemunharam a agonia dos bondes paulistanos: linhas que iam sendo trocadas por ônibus. Com Prestes Maia, os bondes até então eternamente vermelhos, tornam-se de cor laranja. Azeda. Os Gilda sucumbem antes dos últimos bondes de 1968. Um deles repousa condignamente restaurado no Museu. No letreiro? "36 - Avenida Angélica". Gilda, Centex, Huffliner. Três nomes e um só bonde, marca registrada de uma São Paulo mais bela (para mim). "A cidade que mais cresce no mundo", falavam os jornais.

XIV - Fim de percurso. Tão paulistano como os bondes, o lampião de gás e os lindos postes ornamentais de ferro, é o site - ao qual peço por obséquio preste este ínfimo tributo ao Gilda. Aqueles belos bondes de Nova York, que por certo jamais imaginariam vir a se tornar tão paulistanos! Pois aqui rodaram no mínimo o dobro de tempo de lá. Tanto que se perguntarmos - que seja àquele do Museu - qual o nome, ele não referirá nem Centex, muito menos Huffliner. Como te chamas, ó 36? Ele: "Gilda!", creio eu. Tal qual o lampião de gás, "quanta saudade você me traz!"


E-mail: rcm.rhda.sp@gmail.com

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Publicado em 26/02/2013 Que maravilha, Rubens. Infelizmente não andei de bonde, mas sempre ouvia os casos contados pelos meus pais e tios - casos bem parecidos com o relatado tão bem por você. Adorei o texto. Vou reler e recomendar. Meus parabéns pelo relato maravilhoso. Um grande abraço. Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 25/02/2013 Sr. Rubens, seus relatos sobre bondes são sempre corretos. Mas, com sua memória, não poderia falar de outros eventos de sua época? Deve ter visto muitas outras coisas, naqueles tempos.Se não, o sr. perde o bonde da história, rs, rss...abraço. Enviado por Aldo Macedo - almacedo@gmail.com
Publicado em 25/02/2013 Não cheguei a ver esses bondes Gilda trafegando em SP, mas no Museu dos Transportes existe um perfeitamente conservado. Dá um pulinho lá Rubens que além do Gilda voce verá muitos outros veículos de transporte coletivo de SP de antigamente. Fica na Av Cruzeiro do Sul proximo ao Shopping D. Enviado por Cecilia Rezende - cecire@ig.com.br
Publicado em 25/02/2013 Caro Rubens, texto espetacular ! O mesmo como assistir a um documentário sobre os bondes. Durante a leitura imagens e sons foram ilustrando minhas lembranças. Era um luxo, havia bondes por toda a cidade... Não soubemos mantê-los, diziam que atrapalhavam o transito (quanta ignorancia). Recordo vagamente do Gilda, andei mais nos abertos. No ponto inicial, o motorneiro anunciava a partida iminente (com acentuado sotaque de Portugal): - Vai rolaire !? ... - Toque ! (Respondia o cobrador). Enviado por Claudio Bertoni - bertoniclaudio@yahoo.com.br
Publicado em 25/02/2013 Rubens, não conheci este bonde, mas pelo que vi ele foi importante pra você e tantos outros que dele precisavam para se locomover. Parabéns pelas lembranças.Um abraço. Enviado por margarida peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 25/02/2013 Originalmente esses bondes Centex tinham duplo comando, um em cada extremidade, possibilitando o retorno sem necessitar fazer o balão. Era só girar e inverter a posição da lança na rede elétrica. E tanto indo ou vindo, as portas ficavam exatamente na mesma posição, como em uma carta de baralho. Aqui em São Paulo foram feitas modificações na posição das portas e o bonde ficou com o comando em apenas uma das extremidades. Enviado por Tony Silva - silva.luiz2006@ig.com.br
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