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Categoria - Outras histórias Quase em cana às margens do Ipiranga Autor(a): Pedro Galuchi - Conheça esse autor
História publicada em 05/09/2012

15 de novembro de 1972.

Brasil mais "varemnós" que nunca, tremia sob o jugo de botas que nos "conduziam ao milagre". Bastava seguir o rumo determinado pelo som das "matracas". Algumas pessoas "perdidas" não foram localizadas até hoje.

Em nome do patriotismo e da democracia, houve eleições "livres" para vereadores no dia da proclamação da "Res pública", palavra que tem interpretação levemente desviada nestas terras "d'alem mar". "Res pública", para muitos, à época significava e ainda significa tratar o povo como reses e às escondidas. Enfim...

Lá estávamos nós, três estudantes colegiais nos divertindo ao final do feriado patriótico. Desfilávamos, ao custo dividido da gasolina, não em um, mas nos quase 100 cavalos do Karmann-Ghia do "de maior" que cumprira, pela primeira vez, o honroso dever cívico de sufragar sua vontade política.

Eu, ainda "de menor", amassado no espaço que chamavam de banco traseiro. Rumo a qualquer lugar.

Coincidência cívica ou não, ao passarmos por onde outrora correra, sem canalização, o Riacho do Ipiranga, decidimos parar ao lado do Monumento da Independência, que passara por magnífica reforma em comemoração ao sesquicentenário e estava pleno de luzes e cores. E não tinha as grades que hoje o cercam. Imagem incoerente com o momento aprisionado que vivia a pátria mãe gentil.

Carro estacionado quase em cima dos degraus do Monumento, onde estão, sabidamente, os ossos de Pedro e Leopoldina, diferentemente de vítimas daqueles tempos, sentamos para jogar tempo fora e - por que não? – paquerar ao brilho do possante.

Divisamos uma placa de propaganda de um candidato a vereador do MDB, jogada na calçada. Durante a ditadura militar, só havia dois partidos: Arena e MDB. Politicamente, ou se era a favor ou contra o governo. Contra, devidamente dentro dos limites do AI-5, senão poder-se-ia ser cassado e caçado.

Um dos três, inocente dos tempos que vivíamos, teve a luminosa ideia: "vamos fazer um comício". Claro! Em decisão unânime, apropriada. Armamos o cavalete em um patamar do monumento. Quem discursa?

Sob os aplausos dos dois colegas, comecei a fazer promessas. Caso ganhasse as eleições, que já acabara, aumentaria o período de intervalo entre as aulas, reduziria a nota mínima para passar de ano. Devo ter falado em entrada de cinema gratuita para estudantes, entre outras sandices típicas das épocas eleiçoeiras.

O Parque era local de namorados e alguns casaizinhos, interrompidos em seus afazeres, se aproximaram... Assim como pessoas que esperavam ônibus. Começou a juntar gente. Quando percebemos, deveria ter umas cinquenta pessoas ao redor.

O colega "de maior" se tocou da mancada e alertou: "Melhor picarmos a mula!". Tarde demais. Sujou! (não lembro o termo da época). Um carro da Policia Militar - Ufa! Ainda bem...podia ser do Exército – parou e um soldado pediu nossos documentos.

Que documentos? O único que possuía RG era o "de maior". Eu e o outro "de menor" só a carteirinha escolar, daquelas que se rasurava grotescamente para entrar no cinema. Rasurada, é obvio! Sem noção da ameaça à segurança da nação que havíamos praticado, tremíamos a dar inveja aos bambus que rodeavam o parque.

Felizmente, e provavelmente, nesse dia, gastamos toda nossa probabilidade de ganhar na Mega-Sena, ao perguntarem nossos endereços, um dos três policiais comentou que morara no mesmo conjunto de prédios do "de maior", que se entusiasmou e arriscou, sem levar cassetada: Você é filho do seu Francisco?... Sou filho da dona Cidinha... Meu irmão estudou com você...

Alívio! Quebrou-se o gelo... "Deixa" eles! É molecagem! Sumam daqui! Na pressa da felicidade, acho que sentamos os três na parte da frente do Karmann-Ghia, de tão apertadinhos que estávamos. Mal sabíamos o risco que corremos.
Meses depois, ao entrar para a Universidade, comecei a compreender o que se passava na pátria amada.

Entre um e outro espetáculo teatral interrompido em algum canto da USP, devido a um "mal estar repentino" de um dos artistas, conduzido às pressas ao hospital - a plateia igualmente sai às pressas - como presenciei em uma montagem da "Invasão de Bárbaros" de Consuelo de Castro, descobri que cheguei a ser fichado no Dops, por ser dirigente de Diretório Acadêmico.

Felizmente, nunca fui preso. Mas...quase.

Em 1975, Herzog ”foi suicidado” e começou a escancarar-se os porões da ditadura. Em uma "lenta, gradual e segura abertura" rumo à democracia, a qual, infelizmente, muitos ainda não compreendem a importância.


E-mail: plugal01@gmail.com

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Publicado em 09/09/2012 Emocionante aventura, Pedro, e vcs tiveram mesmo muita sorte. Mas, espera um pouco: K. Ghia com 100 HP de potência? Tinha só 72, no máximo, a menos que fosse cruzado com um Porsche. Super 90, e alemão, talvez. Abraços. Enviado por Luiz Saidenberg - saidenberg@ajato.com.br
Publicado em 09/09/2012 que bom que conseguiram sair ilesos. Tempo muito triste.Hoje os bárbaros se disfarçam.Parabéns pela escrita ilariamente seria.

MC
Enviado por mary clair peron - clairperon@hotmail.com
Publicado em 05/09/2012 Gostosas e alegres brincadeiras de estudantes, num periúdo pouco dado a esses repentes. Graciosa descrição sobre os momentos de insegurança que nem é bom lembrar. Parabéns, Pedro.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 05/09/2012 Bacana essa passagem em tempos nebulosos Enviado por alexandre ronan da silva - alexandreronan@gmail.com
Publicado em 05/09/2012 Numa certa noite estávamos num velório, Rua Lício de Miranda - Vila Carioca - Ipiranga - SP., onde pessoas ficavam do lado de fora, enfim na casa do falecido não tinha mais espaço. Rua de terra preta, sem iluminação, e lá vem um pelotão da Força Pública. Aproximaram das pessoas e queriam saber o que estava acontecendo. Seria uma reunião... Nada era apenas um velório de uma pessoa muito conhecida, daí haver tantas pessoas no local. Ufa por pouco a gente não leva umas cacetadas... Enviado por JCOliveira - tangerynus@gmail.com
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