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Categoria - Personagens Eder: um paulistano que soube dar exemplos Autor(a): Wanderley José Pereira dos Santos - Conheça esse autor
História publicada em 15/08/2012
Início da década de 60. Eu ainda era menino e morava na periferia de São Paulo. Tempos inesquecíveis. Jogar futebol, ir ao clube, ao colégio, andar na rua sem medo, a amizade dos vizinhos e o boxe. Poucos entendiam a paixão de uma criança por um esporte "tão violento". Essa paixão tinha um nome: Eder Jofre.

Em um tempo que só se falava em futebol, nomes como o de Maria Ester Bueno, Adhemar Ferreira da Silva, Wlamir Marques eram pouco citados perto dos nomes dos jogadores famosos como Garrincha, Didi, Pelé, mas não o de Eder Jofre.

Lia avidamente tudo que se falava sobre nosso herói. Sua história e seus feitos eram retratados em fotonovelas (alguém se lembra delas?) Sabíamos de cor o nome de sua noiva, de sua mãe e do inesquecível Kid Jofre. Os jornais anunciavam suas lutas e as ouvíamos com o rosto colado nos rádios. Televisão era algo ainda muito distante.

Finalmente chegou o grande dia. A luta pelo título mundial dos pesos galos seria em Los Angeles contra o mexicano Eloy Sanches. Antes, Eder já havia feito a eliminatória contra Joe Medel. Luta terrível. Vencida com determinação, garra e coragem pelo brasileiro.

Essas lutas, devido o fuso horário, eram transmitidas pelo rádio durante a madrugada. Escutar rádio de madrugada, dentro da casa, sem autorização dos adultos, era missão impossível. -"Queima os miolos", dizia meu avô.
- "Isso não é hora de criança ficar acordada", dizia minha mãe.

Naquela semana pouco dormi. Só pensava na luta sonhando com um brasileiro simples como eu sendo nosso primeiro campeão mundial. Armei a estratégia. Durante o dia sintonizei a emissora que iria transmitir a luta. Soltei a válvula do rádio. Anunciei que o rádio estava com defeito.

Não podia correr riscos. Naquela noite minha família não escutou sua novela. Havia um problema: o sono. Como acordar sozinho durante a madrugada. Peguei o despertador, barulhento. Marquei para as imagináveis duas horas e o coloquei embaixo do travesseiro. Adormeci profundamente.

Acordei assustado. O barulho abafado do despertador soava distante. Vontade de continuar dormindo. Coragem. Levante menino. Pense no seu herói. Perambulei silenciosamente no escuro da casa. O único rádio ficava pomposamente na sala. Se fizesse barulho, teria que voltar para a cama.

Válvula ajustada. Som baixinho. A voz de Pedro Luis anunciava que a luta já havia começado. O som baixo ia e vinha. Às vezes não dava para entender quem estava ganhando. Angustia, sofrimento, torcida. Sexto assalto, o mexicano no chão.

Vibração. Palmas. Emoção. A mãe se levanta. O avô aparece. Palmadas e muito sermão. Condoeram-se. Falaram que um homem não devia chorar. Só não sabiam o motivo das lágrimas: nosso herói era o grande campeão do mundo.

Pela manhã, na escola, estava radiante. Nenhum colega havia escutado a luta. Poucos sabiam o resultado. Eu dava detalhes. Falava com cátedra dos movimentos e técnica do "Galo de ouro". Fiquei orgulhoso. Eu também tinha tido a coragem do nosso campeão!


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Publicado em 20/08/2012 Wanderley, muito oportuno o título desse belíssimo texto, Eder sempre deu exemplos positivos como atleta e cidadão. Sua crônica me fez voltar a minha infância nos anos 60 vivendo feliz em uma cidade tranquila e segura. Também quis muito ver essa luta porém meu pai não deixou. Faltou eu ter tido sua audácia (ou coragem...). Valeu! Escreva mais. Enviado por Roberto O, Filho - rortolan39@yahoo.com.br
Publicado em 19/08/2012 Recolhendo reminiscências da historiografia de Santo Amaro, deparei-me com um pugilista que havia sido treinado por Waldemar Zumbano. Era ele JOAQUÍN MARÍN Y UMAÑES, nascido a 15 de fevereiro de 1903, em Sevilha, na Espanha. Quem era este lutador? O pai do atual presidente da confederação de futebol, José Maria Marin!!! Quanto ao grande pugilista brasileiro Eder Jofre, foi feita uma pequena síntese que não reflete sua grandeza e fez parte das observações da crônica, pois Waldemar Zumbano foi ainda responsável do livro “O Box ao Alcance de Todos”, da Editora Brasiliense. (possuo um exemplar de 1951)
Segue a referência citada:
O maior boxeador brasileiro de todos os tempos, Eder “Zumbano” Jofre, nasceu em uma família de pugilistas: tanto por parte do pai, Kid Jofre (Aristides Pratt Jofre, chegou ao Brasil em 1928, oriundo de Buenos Aires, Argentina ) como por parte da mãe Angelina Zumbano, da família dos pugilistas Waldemar Zumbano, Ralph Zumbano e Antonio Zumbano (Zumbanão) Waldemar Zumbano foi técnico da equipe brasileira de boxe para os Jogos Pan-Americanos de 63. O Ginásio do Pacaembu criado em 1940 “assistiu” lutas de brasileiros de nível internacional, como Atílio Lofredo e Antônio Zumbano. Zumbanão foi o primeiro grande astro do boxe brasileiro, ficando absoluto de 1936 a 1950, realizando cerca de 140 lutas, ganhando muitas por nocaute.
Vide: A VIDA DO BOXEADOR “JACK O TERRÍVEL” OU JOAQUÍN MARÍN Y UMAÑES
http://carlosfatorelli27013.blogspot.com.br/2012/04/vida-do-boxeador-jack-o-terrivel-ou.html
Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 15/08/2012 Eder Jofre gravou seu nome na história do box Eu quando adolescente,até assisti algumas lutas deste campeão pois não tinha TV e a única casa da rua que tinha chamava toda a meninada para ver Hoje sou muito da PAZ e acho qualquer tipo de luta uma grande violência,gostaria que ninguém desse ibope prá tantos socos pontapés e sangue escorrendo pelo corpo de lutadores.Bater em alguém nunca deveria ser aceito pelo ser humano Ainda mais com crianças e jovens assistindo... Enviado por walquiria rocha machado - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 15/08/2012 Amigo Wanderley,parabens pela sua lembrança,
também conheci o grande Eder Jofre,figura que
sera sempre lembrado perlos seus feitos abraços.
Enviado por antonio pinto alves - antonio.palves@yahoo.com.br
Publicado em 15/08/2012 Tive a oportunidade de conhecer o Eder e a Cidinha em um restaurante na Av Consolação. Anos depois conversei com ele por telefone quando vereador. Aquela simpatia de sempre. Realmente, as lutas com o Harada ao que consta, foram resultados de "tapetão". Parabéns ! Enviado por asciudeme joubert - asciudeme@ig.com.br
Publicado em 15/08/2012 Prezado Wanderley, também sou muito fã do Eder do seu tio Ralf Zumbano, e assisti varias lutas dele em 1957 e 1958 no Ginásio do Ibirapuera que ele sempre lotava de gente para pois todo mundo queria ver o Galo de Ouro do Brasil lutar. Assisti suas duas lutas com o Argentino Ernesto Miranda,e com o filipino Léo Espinosa, e Danni Kid, e como você ouvi as lutas com os dois mexicanos. Mas... aí apareceu o Harada, né! Até hoje não me conformo com as duas lutas que o Nosso galo de Ouro perder para o Japonês. pô. Parabéns e por favor manda mais, muito mais. Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 15/08/2012 Ficar sabendo que alguém acompanhou minuciosamente a carreira do grande Eder Jofre, porque tinha por ele grande admiração, realmente é algo maravilhoso caro Wanderlei. O que faz seu texto ser nota dez (10), reside no fato de que você narra de forma gostosa de se ler, momentos vitoriosos da carreira do maior pugilista brasileiro de todos os tempos. Pessoalmente, conversei uma vez com o grande Eder, quando pude sentir a simplicidade e a humildade naquele homem. Valeu ! Enviado por Xico Lemmi s.paulino - francisco.lemmifilho@yahoo.com
Publicado em 15/08/2012 Sem dúvida, um dos maiores nomes do Esporte Mundial, o notável Eder Jofre. Embora nunca fui lá um profundo conhecedor de boxe, a grande verdade é que sempre torci e muito pelo Eder, um grande ídolo, um extraordinário caráter. Tive o prazer de estar com ele em várias oportunidades, boníssima pessoa, ele vinha bastante aqui no Clube Atlético e Recreativo Maria Zélia, colocava, inclusive, a camisa do Maria Zélia, depois das suas lutas, colocava e punha bonitas dedicatórias. Na sua volta ao boxe, luta em Brasília, em 1973, disputa pela categoria Pena, ele vestiu a camisa do São Paulo, clube onde começou, atendendo pedido dos jogadores. Depois ele passou a vestir a do Maria Zélia, tem muita amizade e consideração pelos Irmãos Casagrande, Desembargador Dr Ary e Renatinho, cujas recíprocas são verdadeiras. Um gentleman, um caráter extraordinário, um brasileiro de grande valor, uma humildade fora de série, o notável Eder Jofre. Parabéns pelo belo texto, Wanderley - abraços - Pedro Luiz -. Enviado por Pedro Luiz Boscato - plboscato@uol.com.br
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