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Categoria - Personagens Moleque de rua Autor(a): Newton Sismotto - Conheça esse autor
História publicada em 09/05/2012

Hoje em dia moleque de rua nos dá a sensação de ser um menino ou menina que mora na rua, daqueles que encontramos nos semáforos limpando vidros de carros, fumando crack na Praça da Sé ou dormindo sobre as marquises dos prédios.

Não é sobre eles que eu estou me referindo e sim sobre um “tipo” de criança que há 50, 60 ou mais anos atrás existia em todos os bairros desta capital. Esses eram completamente diferentes. Com o passar dos anos foi adquirindo uma denominação depreciativa como "de menor" ou "pivete", pois já não eram mais representantes de um ” tipo” em particular.

Havia vários tipos deles, entre os quais eu me incluo, que não se constituíam em um seguimento social homogêneo. Moleque de rua ou “rueiro” como minha mãe me chamava, tinha que ter obrigatoriamente pai, mãe, tia e avós, podia ter ou não uma língua diferente dentro de casa ou um sotaque residual deixado por outras gerações, podia morar em uma casa grande ou bem pequena, daquelas apena com portão e janela para a rua e talvez uma grade na altura da calçada para ventilação do porão, mas isso não era obrigatório, não importava.

Geralmente vinham de uma família que trabalhava duro para conseguir seu sustento. Podia não andar bem vestido, mas as roupas no começo do dia eram asseadas e limpas demonstrando o carinho dos progenitores, mas que no fim do dia eram os objetos de muita reclamação. Moleque de rua tinha que obrigatoriamente estudar, mesmo que isso representasse apenas ir para a escola todos os dias e receber puxões de orelha com alguma frequência, digamos assim.

Havia os moleques de rua que quebravam vidraças chutando bolas, tocavam campainhas e saiam correndo, aqueles que colocavam chicletes nas cadeiras, os especializados em furtar doces nas vendas independente de ter ou não dinheiro nos bolsos, os brigões, os que subiam em árvores, e aqueles que irritavam as mães por que todos os dias vinham chamar seus amigos que tinham um gesso em algum lugar do corpo, não sei por que, mas geralmente eram meninas. Eles sempre andavam em turmas. Não existia o termo "moleca de rua", embora elas existissem em número um pouco menor ou igual.

O moleque de rua podia ser encontrado facilmente nos bairros do Brás, Ipiranga, Mooca, Santo Amaro e outros a qualquer hora do dia, mas eles não ficavam na rua de madrugada, sempre havia limites impostos pela família.

À noite, por volta das 9 horas para as meninas e 10 horas para os meninos, a mãe começava a chamar o moleque de rua para entrar em casa e parar de brincar, sem muita convicção. Era uma espécie de aviso prévio, um sinal de que o limite estava esgotado. Depois chamava outra vez e o tom de voz já havia mudado. O moleque de rua sabia que tinha direito a prorrogação do tempo. Quando o pai assoviava ou chamava, ai sim era melhor obedecer.

Não havia o medo da violência e o trânsito raramente incomodava, embora sempre se ouvisse o aviso "cuidado com os carros", mas isso era uma preocupação dos pais, não deles.

A resposta era sempre a mesma:
- já vou, mãe !
Continuava correndo, suando, com o nariz escorrendo, sujando as roupas e terminando o dia com mertiolate ou esparadrapos em algum joelho, cotovelo ou testa.

Quando entrava em casa era obrigatório ouvir a frase:
- vai já lavar esse pé imundo!
Lavar o pé não era a mesma coisa que lavar a mão, ou tomar banho, era como dizem: uma responsabilidade perante a família e a sociedade, um ritual, embora nenhum moleque soubesse definir o que era isso. Concordo que houvesse um certo carinho maternal naquela ordem que era comprida com alguma chateação e sempre era supervisionada no final, o que poderia implicar em uma nova ensaboada.

Aqueles que ultrapassavam o limite do horário recebiam uma ardente chinelada nas nádegas o que hoje em dia contraria a mais moderna psicologia. Os chinelos ardiam nos bairros de São Paulo, mas não deixavam marcas, só lembranças.


newtonsismotto@hotmail.com

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Publicado em 19/09/2012 Parabens pela texto e enquadro-me exatamente nele pois tive o privilégio de participar da sua infancia pois eramos ou melhor continuamos amigos. Enviado por orestes de souza canto - orestes.canto@tam.com.br
Publicado em 21/05/2012 Newton, adorei o texto! Me fez lembrar também das brincaderas de rua que eram uma delicia. Bons tempos. Grande abraço, Carmen Enviado por Carmen Francisca León Duarte - carmen.duarte@uol.com.br
Publicado em 17/05/2012 Realmente, assim como moleques de rua, as meninas tambem tinham seus grupinhos, não nos envergonhávamos em ir para o Pq.D.Pedro II sem sapatos, de pés no chão, era normal, e o carvão do gasometro, não só grudava nos pés mas nos poros...existia respeito, uma inocência gostosa e saudável, bem como voce descreve em seu conto, parabéns Enviado por Branca Rosa Pannuci - kukinel@hotmaiI.com
Publicado em 13/05/2012 Newton, fui moleque de rua com muito orgulho. Você tem razão, ser moleque de rua era uma situação de alma, porque meu pai tinha muito dinheiro, fui criado com imensa fartura, mas também furtei doces nas vendas, frutas nas feiras, quebrei vidraças, sem querer e por querer, e tomei muita chinelada. Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslour_ti@yahoo.com.br
Publicado em 10/05/2012 Maravilhoooso!!!Acho que nunca vi algo tão bem retratado como você escreveu.Você concorda que os moleques não mudaram e sim os pais é que foram acompanhando a evolução e ESQUECERAM os filhos Minha mãe dizia; Eu costuro,lavo roupa pra fora mas não largo vocês.O resultado,foi ter criado 9 filhos que estudaram,Casaram e todos tem emprego e profissão.Todos cidadãos do bem!!! Enviado por walquiria rocha machado - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 10/05/2012 ESTIMADO NEWTON - A M INHA INFANCIA FOI EXATAMENTE ASSIM, DE ALPARGATAS OU CONGA NOS PES, TINHA TURMINHA DA RUA, CATAVA BAL~
AO, FURAVA O PÉ NO PRFGO, E ESTUDAVA COM O LIVRO "CAMINHO SUAVE" FOI MARAVILHOSO, VIVEMOS A VERDADEIRA INFANCIA,NA SAUDOSA PENHA DE FRANÇA, ABRAÇOS RUBÃO
Enviado por RUBENS ROSA - RROSA49@YAHOO.COM.BR
Publicado em 09/05/2012 Parabéns Newton pelo lindo texto, eu fui uma "moleque de rua". abs Enviado por marisa frediani - marisafrediani@gmail.com
Publicado em 09/05/2012 Oi Newton, me diverti com seu texto. Fui um moleque de rua, daqueles bem encapetados. Parece que estou ouvindo minha mãe dizer: vai já lavar esse pé imundo! rsrsrsrs... Valeu pelas doces recordações! Abraço, bem vindo ao SPMC. Enviado por Hugo Morelli - hugo.morelli@hotmail.com
Publicado em 09/05/2012 Newton, me encaixo perfeitamente nessa história, apesar de sermos de rua a maioria era meninos de familia, essa cultura era devido a não termos os meios de comunicação de hoje principalmente divertimento eletronico, devido a essa prática perdi no mínimo cinco anos de escola e trabalho, mas foi uma experiencia diferente, parabéns ,Estan. Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 09/05/2012 Gostei muito, você retratou a minha infância e a da maioria dos meus amigos nascidos na Freguesia do Ó e por lá viveram até os anos 60. Parabéns estou louco para ler outras mais. Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
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