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Categoria - Outras histórias ‘Seu’ Chico “guardachuveiro” Autor(a): Raymundo Montagna - Conheça esse autor
História publicada em 24/04/2012
Meu avô era um espanhol que trabalhou muito em minas de carvão na Espanha. Era de Almeria. Muito conversador, conseguiu casar-se com a filha do Alcaide (prefeito). Mas era osso duro de roer. Ao saber que para casar na igreja teria que pagar muitas taxas para ter as famosas "indulgências" resolveu:
- “Não me caso na igreja”. - para desespero da noiva, minha avó, a senhora Josefa.

Contava as historias de muitas mortes nas minas. A vida era muito dura. Pois bem resolveram vir para a Argentina onde tinham parentes. Porém por falta de informações, ou destino, sei lá, desembarcaram em Santos e foram plantar café em São Carlos. Após perderem vários filhos, minha mãe "vingou". Aí veio pra São Paulo onde fazia de tudo para sobreviver. Vendia uvas que comprava onde hoje é Avenida Zumkeller, no alto de Santana. Moravam na Rua Claudino Alves, perto do Carandiru.

Como todo espanhol (pelo menos a maioria) falava muitos palavrões. Um belo dia após tomar vinho com um amigo no Jabaquara que consertava guarda-chuvas. Sim, naquele tempo era a São Paulo da Garoa e todo mundo usava esse "aparelho" e também galochas. Resolveu ser "guarda-chuveiro". Muito falador e contador de causos, ficou famoso em Santana. Todos gostavam de ouvi-lo contar suas historias e assim ele ia levando a vida. Muita dureza e muitos filhos. No carnaval vestia-se como "grávida" o que envergonhava minha avó e tias, mas ele não estava nem aí, queria divertir-se.

Como mal sabia escrever, anotava em um papelucho que amarrava nos guarda-chuvas dos clientes: "este é da mulher do cachorro preto", este é da "dona da venda", este é da "louca". Só ele entendia suas anotações.

Quando morreu em 1952 eu estava na aula no Grupo Escolar Buenos Aires, com dez anos de idade e meu pai apareceu na sala e me levou para ver o avô ser enterrado. Senti-me "importante" na escola, a molecada queria saber o que tinha acontecido. No enterro estavam centenas de pessoas, que demonstravam como ele era querido. O velório era em casa e as paredes forradas de panos pretos me davam medo. Durante muito tempo tive medo de entrar naquela sala.

Eu poderia contar muito mais, mas fica para outra vez...


E-mail: raymundo@montagna.com.br
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Publicado em 14/03/2013 Olá Raimundo, acabo de ler o seu texto e fiquei emocionada ; pois nele vários itens estão ligados à minha história familiar. O seu avô ia comprar as uvas no Sítio Guacá , cujo proprietário , Alfredo Zumkeller , é o meu bisavô ! Minha mãe quando criança morou na R. Claudino Alves e também estudou no Grupo Escolar Buenos Aires ( que na época funcionava no prédio da Av Cruzeiro do Sul ( hoje EE Padre Vieira ) pertinho do Terminal Santana . Outro fato marcante do seu texto foi a citação do velório em casa com todo aquele "aparato"; até hoje me lembro do velório da avó de uma colega ! E em 1952 foi o ano em que nasci !!!! Enviado por sonia maria zumkeller - somariaz@ig.com.br
Publicado em 25/04/2012 De fato, Raymundo, a época dos guadachuveiros parecia que garoava todos os dias. Eles desistiram da profissão por causa dos chineses. Hoje vc paga por um guarda chuva menos do que pagaria se tivesse ainda quem consetasse. E tem...
Parabéns, Montagna.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
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