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Categoria - Paisagens e lugares O Bonde de Santo Amaro Autor(a): Ivan Consolmagno - Conheça esse autor
História publicada em 30/01/2012

O Doutor Legardeth Consolmagno, renomado médico oftalmologista do município de Piracicaba, durante a década de 1960, vinha a São Paulo todas as semanas para ministrar aulas na Santa Casa de Misericórdia. Sendo membro da Associação Paulista de Medicina, costumava também, visitar o Hospital do Servidor Público Estadual. Tendo ojeriza ao trânsito da capital, jamais vinha de carro, valendo-se do transporte coletivo. Apreciava sobretudo os bondes, o qual considerava seguro e higiênico, por não soltar fumaça.

A parada do bonde próxima ao HSPE localizava-se onde hoje é a esquina da Rua Pedro de Toledo com a Av. Ibirapuera, pertencia à linha Santo Amaro - Centro, e era muito interessante: contava com uma plataforma de madeira coberta, um escritório e sanitários, parecendo uma estação ferroviária. Uma frondosa seringueira sombreava parte da parada. Era razoavelmente confortável e segura.

Certa vez, em meados de 1969, ao retornar de uma de suas visitas ao Hospital do Servidor, o Dr. Legardeth aguardava o bonde na dita parada, que para sua alegria, estava totalmente vazia. Após dez bons minutos de espera, sua alegria deu lugar à impaciência e, dirigindo-se a um senhor uniformizado, de formidáveis bigodes e ar lusitano que varria a plataforma, quebrando o silêncio da estação, num "rasp - rasp" ritimado e monótono, perguntou:
- “O senhor poderia dizer-me se já faz tempo que passou o último bonde?”
O varredor cofiou os bigodes, como a recordar-se de algo remoto e, apoiando-se na vassoura, pensativo, respondeu:
-“ ‘Taim um tempinho já, sim ‘sinhoire’”!
Agradecendo a informação, o Dr. Legardeth voltou ao seu lugar muito feliz, na esperança de que o próximo bonde, então, não deveria tardar. Mas tardou. Quase quarenta minutos depois, já em desespero, apelou novamente ao varredor:
- “Perdoe-me, amigo, mas o senhor disse que o último bonde havia passado já há algum tempo. Quanto tempo faz que ele passou?”
- “Pois olhe que isto já faz um ano e ‘maio’, mais ou menos, sim ‘sinhoire’”!

O último bonde de São Paulo fez sua derradeira viagem em março de 1968, para tristeza de muitos.


E-mail: corisco15@yahoo.com.br

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Publicado em 01/08/2012 só o ivan para vir com essas histórias engraçadas.admiro a maneira como ele as posta no papel! Enviado por romeo scommegna - romeoscommegna@yahoo.com.br
Publicado em 31/01/2012 Que lembrança badana! Os bondes que deixaram saudade. Tive oportunidade de usufruir desse transporte "higiênico" e me lembro bem dessa parada!
Bela lembrança, belo têxto ...
Enviado por Hefren - hefren.consolmagno@yahoo.com.br
Publicado em 31/01/2012 Caro Ivan, bem lembrada a estória dos bondes, seu
relato nos recordou belas passagens de quem muito
usou esse transporte.
Enviado por Paulo Alves da Silva - pas.lovesil@hotmail.com
Publicado em 31/01/2012 Bárbaro, meu primo, meu pai e a cidade que amo em um único, precioso e conciso. Parábens Ivan pelo texto, ao meu pai por haver completado oitenta e oito anos em janeiro, e esta cidade impar que adotei do funda do coração. Enviado por Estela Ribeiro - Consolmagno - estela@joaoribeiro.com
Publicado em 30/01/2012 Muito boa a informação da plataforma da Pedro de Toledo, e o que representou a Avenida Ibirapuera e a Vereador José Diniz, e que foi desmembrada da Avenida Rodrigues Alves. O irmão do Zé da Farmácia, como era chamado o vereador, o Sr Geraldo Diniz, conhecido como Praça, reside em Santo Amaro. Estamos buscando o máximo de informações sobre o município de Santo Amaro, além de seu sistema de transportes, sendo que a família de Alberto Kuhlmann, responsável pelo Ferro Carril de São Paulo a Santo Amaro, antes do advento dos bondes, tem na educadora Adozinda Kuhlmann uma das mais importantes figuras de Santo Amaro. A professora Maria Helena Petrillo Berardi, fez parte deste grupo respeitável, deixando sua obra como legado em “Santo Amaro, Memória e História: da Botina Amarela ao Chapéu de Couro”, assim como o conhecimento da oralidade local demonstrada por homens como o Dr. Alexandre Moreira Neto, à frente da entidade CETRASA, e a representação jornalística de Armando da Silva Prado Netto, que tinha em seu fiel amigo Luiz Menotti, que atendia carinhosamente pelo cognome Tico, deixndo-nos saudade, o grande ícone de registros fotográficos que muito se orgulha Santo Amaro. Urge buscar novos operários para a messe, e que estão nas universidades defendendo teses para legar a Santo Amaro seu registro historiográfico e iconográfico às vindouras gerações deste “rincão”. Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 30/01/2012 E não é que o "morruga" estava certo ??? rsrsrsrs Assim, valeu a sua resposta curta e grossa..."cada um em sua devida profissão"... Abraços - Flavio Rocha Enviado por Flavio Rocha - flaviojrocha@bol.com.br
Publicado em 30/01/2012 Caro Ivan
Belíssima lembrança sobre os bondes de sampa, de quem sou fá até hoje.
Desfecho muito legal.
Enviado por Luiz Carlos Marques - Luigy - - luigymarks@uol.com.br
Publicado em 30/01/2012 Caro Ivan, meio da década de 50, em 1955/56, eu era ofice boy num escritorio na rua senador feijó e as vezes me mandavam para Santo Amaro entregar algumas encomendas, era o serviço que eu mais gostava pelo fato de viajar no bonde camarão que ía parando nas estaçõezinhas como se fosse um trem, hoje não saberia fazer o mesmo itinerário, abraço, Beira Enviado por Jose Camargo Beira - josebeira@hotmail.com
Publicado em 30/01/2012 Ivan,
parabéns pelo belo texto.

em 1966, recém chegado do interior, eu trabalhava numa loja de calçados na rua Capitão Thiago Luz e uma de minhas funções era buscar o almoço de meu patrão lá na rua Joaquim Távora. Esse trajeto eu fazia de bonde, que ia de Santo Amaro até o Instituto Biológico.
Enviado por Aroldo Ramos da Silva - aroldoramos@gmail.com
Publicado em 30/01/2012 Viajei nesse bonde uma vez, ou melhor, duas (ida e volta). Para ser admitido numa empresa aérea, tive que fazer exame médico na rua da Paz. Isso foi em novembro de 1967. Quatro meses após, aconteceu a última viagem e o bonde, assim como os trens de longo curso, entrou num ramal sem saída. Acho que mais pessoas aguardaram o bonde que não mais apareceu. Parabéns pelo texto. Enviado por joel benega - jbenega@uol.com.br
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