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Categoria - Outras histórias Porque esquecer? Autor(a): Newton Sismotto - Conheça esse autor
História publicada em 26/12/2011

Reunião de família. Para comemorar a vinda dos imigrantes italianos ao Brasil, todo ano comemoramos a data de desembarque do “nonno” como referência, segundo consta nos registros do Memorial da Imigração.

O local escolhido este ano foi o salão de festas do Instituto Cristóforo Colombo, no Ipiranga. A entrada do orfanato era uma rua de terra, à esquerda havia um barranco com campo de futebol de terra, rodeado de eucaliptos e à direita havia um bosque com predominância também de eucaliptos e uma mina de água que transformava tudo em uma espécie de brejo, sombreado e repleto de pássaros. Havia no final da rua, um roseiral muito bonito e quadras de futebol de salão ao ar livre. A greja pouco mudou. Hoje a rua é asfaltada ladeada por muros altos, o roseiral quase nem existe e as quadras de futebol são cobertas e cercadas por paredes altas. Onde havia o campo de futebol de terra, hoje faz parte do Aquário Municipal. È a pressão íctio-imobiliária.

Não é nenhum salão de festas da Daslú, longe disso, mas o lugar simples, agradável, com um jardim em frente, e a Igreja do lado.

Marcada a missa, domingo às 9 horas, só apareceram dois representantes e o padre vendo a "igreja lotada", depois da solenidade, com um ar de constrangimento, disse a uma delas: - "É eu sei, as pessoas vão ficando idosas e morrendo, a família vai diminuindo, né?" - santo padre.

Desconto dado aos membros idosos, à classe trabalhadora e às crianças que nunca gostam de levantar cedo, começaram a chegar os primeiros componentes. Santo sacrilégio. Tudo arranjado um dia antes com toalhas nas mesas, vasos de flores, geladeira lotada de bebidas não alcoólicas onde acrescento duas garrafas de vinho, uma do Veneto, música italiana e documentos de todos os tipos, desde os mais antigos da península, datados de 1700 e alguma coisa até os mais recentes.

Aí começam os encontros e desencontros.

Um conta que estava sentado com o neto em determinado lugar quando o neto disse:
-"Vô, como esse cara aí do seu lado é parecido com o senhor" - ele vira de lado e dá de cara com o irmão. Abraços.

Outro reclama que mandou 100 euros para um padre de uma igreja em Vigardolo na Itália em troca de um de um documento e o padre nunca mais deu notícias. Santo esquecimento.

Uma mulher se aproxima do grupo no qual eu estava conversando, cumprimenta, troca com beijinhos com todos e saí. Pergunto ao meu primo quem é essa senhora simpática. Ele diz:
- "Tá louco? Essa é minha irmã".
Um familiar que está fazendo quimioterapia é esquecidamente convidado para tomar um copo de vinho cuja oferta foi educadamente recusada.

Já outro, há alguns anos atrás passou o dia inteiro em minha casa onde jantamos juntos e no encontro cumprimenta minha esposa dizendo:
- "Ah, muito prazer em conhecê-la" - como se nunca a tivesse visto.

Ela reclama comigo, não dou a menor importância e explico ser um fato absolutamente compreensível (também pudera, diante do meu antecedente).

Uma pessoa que trabalhou com minha prima me disse que suas filhas iriam casar. Eu disse para minha esposa, que disse para minha tia, que disse para uma cunhada, que disse para o tio, que disse para um primo, e foram todos perguntar onde seria a festa, para surpresa da protagonista.

Outro que se aposentou como escrivão de polícia, em uma época em que não havia computadores, dá o seu ponto de vista sobre a violência da marginalidade e da esquerda em épocas remotas. Os anos de chumbo.

Subitamente ouve-se um grito no salão, era um irmão mais velho tentando falar com o mais novo com problemas de audição, ambos com mais de 80 anos.

Uns viajaram mais de seis horas para comparecer, outros vieram do interior de São Paulo, outros vieram a pé mesmo.

E assim se passa o domingo simples e agradável com encontros e desencontros de familiares, sob chuva, muita risada e os assuntos postos em dia.

Como dizia o missionário Deliso Villa:

“Le radici sono come una sorgente
che tira l´acgua al profondo,
qualcosa su cui si construice l´uomo
e la sua personalitá.

Perchè dimenticare?”


E-mail: newton_sismotto@hotmail.com


 

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Publicado em 20/01/2012 Não foi para Vigardolo, foi para Cavazzale.
Alguem por aí, peça para ele contar a aventura que fez quando saiu de bicicleta de Bertióga e não sabia onde tinha ido parar no fim do dia. A esposa teve que ir procurálo, só para depois matá.lo, de raiva. Mas ele já está bem melhor, até escrevendo memórias.
Enviado por Wilson - cismotto@ig.com.br
Publicado em 27/12/2011 SISMOTTO:A delícia do reencontro das gerações!Conheço e viví muito esta história. Tantos tios e tias, primos de primeiro grau, segundo, terceiro,... oitavo. Tios surdos, tios esquecidos que a toda hora perguntavam "quem é voce"? Uma delícia de sons de vozes calabresas, napolitanas, sicilianas - que juravam falar português sem sotaque. Meus Deus, que falta me fazem!
Adorei seu texto e lembrança! Valeu! Abração, Natale
Enviado por Wilson Natale - wilsonnatale@gmail.com
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