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Categoria - Outras histórias Lembranças da felicidade dos meninos da Rua Seis Autor(a): Rodrigo Alessander Sant Ana - Conheça esse autor
História publicada em 18/08/2011
Morar em rua de ladeira tem lá suas vantagens. Claro que morar no topo dela e ter de subi-la diariamente, incomodava um pouco. A ladeira da Rua Seis era assim. Uma bela ladeira. Nós morávamos bem no topo. Fomos para lá para e tudo era necessário descê-la. Depois, haja perna na volta. Dos primeiros dias na pré-escola Roberto Victor Cordeiro, aos últimos no colégio Amador Arruda Mendes desci e subi aquela ladeira. O posto de saúde também ficava lá embaixo, tudo na Avenida Silvio Torres. As idas à padaria no pequeno centro comercial em frente às ruas "Três" e "Quatro", sem falar na grande feira livre das quintas feiras, na mesma avenida.

Como eu gostava de ir à feira com minha mãe, lembro-me de que os moradores dos prédios da Avenida Waldemar Tietz utilizavam a ladeira como acesso à feira. Dia de grande movimento na ladeira vulgarmente conhecida como Rua Mário Calazans Machado. Com a construção do grande mercado D'avo no topo da colina, as coisas mudaram bastante. Nada mais de ir ao pequeno centro comercial, tudo era feito no grande mercado, o que facilitou muito as nossas vidas e trouxe uma grande movimentação de pessoas na pacata rua.

Os sábados eram bastante movimentados, o sobe e desce de pessoas e veículos naturalmente aumentou, mas logo nos acostumamos com a nova realidade. Lembro-me de que eu e meus colegas amarrávamos uma linha em uma carteira e a puxávamos quando se abaixavam para pegá-la, era aquela risadaria, também fazíamos isto com palha de aço em formato de um rato, colocávamos no cano e quando as mulheres passavam à tardinha rolava a maior gritaria.

Que saudade dessas peraltices, como minha mãe recebia reclamações. De vez em quando aparecia uma vizinha e falava:
-"Olha, seu menino fica tocando as campainhas das casas, dá um jeito nesse moleque!" ou então:
- "Veja o que seu filho fez com minha conta de água!".

Teve uma vez que em uma senhorinha da esquina veio reclamar que eu havia explodido o muro dela com morteiros de São João... Na verdade foi só um pedaço do muro que caiu. Com o passar dos anos o muro ainda estava lá com o enorme buraco. Percebi o meu grave exagero.

Em ano de Copa do Mundo, era a maior festa. A rua era impecavelmente pintada com os mais lindos desenhos, as guias ficavam em verde e amarelo, assim como as bandeirinhas que trançavam poste a poste, havia até campeonato para eleger a rua mais bonita, inesquecível.

Quem cresceu em casa térrea assim como eu, nos tempos em que ainda era possível permanecer nas ruas, recordará comigo de algumas pérolas deste privilégio. Apesar da ladeira jogávamos muito futebol, vôlei e sem falar nas brincadeiras de rua tão conhecidas, como “Taco”, “Rouba bandeira”, “Garrafão”, “Mãe da rua”, “queimada”, “Pega pega”, “Polícia e ladrão”, “Esconde-esconde”...

No verão ficávamos na rua até depois da forte chuva da tarde que, naquela época vinham pontualmente por volta das 17 horas e durava não mais que uma hora, brincávamos na enxurrada forte que descia a ladeira e nas bicas d'água que desciam como "ducha" dos telhados. Ficávamos até ouvir os gritos das nossas mães. E elas nos recebiam completamente emporcalhados, algumas vezes ralados e com o dedão do pé aberto e sangrando devido às topadas que costumávamos dar de tanto correr na rua com os pés descalços, sem falar na roupa rasgada. Minha mãe dizia:
- "Vai direto pro chuveiro!”

Quem pensou que eu ia me esquecer de uma das principais brincadeiras de uma rua de ladeira se enganou. Imagine uma ladeira asfaltada com cerca de duzentos metros pra se esbaldar na descida. Adivinharam? Ficou fácil! Os primeiros carros de rolimã foram feitos pelo meu pai, até freio ele colocava neles, aos poucos iam aparecendo mais meninos com seus carros cada vez mais customizados. Tirávamos aqueles rachas, quando não fazíamos um enorme trenzinho conectando um carrinho ao outro. Era de certa forma, perigoso, pois atingíamos muita velocidade e quando nos arrebentávamos era pra valer.

Vinha gente de todo lugar, as ruas vizinhas também eram ladeiras lá nas casas da Cohab 1, mas a da Rua Seis era a mais inclinada e emocionante. Minha nossa! Como fazíamos barulho; Aos finais de semana, ninguém conseguia assistir televisão e às vezes éramos recebidos com baldes d'água. A brincadeira só acabava mesmo quando alguém perdia uma unha ou fazia algum machucado mais feio.

Aos poucos com a vinda dos Skates e a melhora das condições com as bicicletas fomos
deixando de lado nossos rolimãs, lembro que até já adolescente, tinha o meu lá em casa todo enferrujado e sem uso, que acabou sendo desmontado e jogado fora.

Felicidade na minha infância foi não ter conhecido o Playstation, o computador, o DVD, o Blue Ray, o Ipod, o celular, o MSN, o Face Book, o Twitter... Ainda nos pegamos perguntando: "Como conseguíamos viver sem estas maravilhas?" A resposta é que viver era uma maravilha, ser criança naquela época era uma maravilha, uma dádiva divina.

Talvez por isso eu viva de tanta nostalgia, a criança da ladeira ainda está aqui dentro de mim... Apenas ofuscada entre as teclas e os LEDS que nos separam. Mas que ainda se maravilha com as lembranças da simplicidade e felicidade dos meninos da Rua Seis.


E-mail: rodrigo.enfo@gmail.com
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Publicado em 20/08/2011 Isso mesmo, naquela época ser criança realmente era pura diversão. Também sinto muitas saudades daquela época, às vezes mato essas saudades fazendo alguns brinquedos c/ sucata para o meu neto e ele curte pra caramba.
Parabéns pelo seu texto que nos remeteu à nossa infância.
Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 19/08/2011 Lindas lembranças. Realmente, quem viveu em casa térrea sabe mesmo o que é felicidade. Fui criada em um casarão de minha avó, rua de terra, muito mato, poeira e diversão, e criei meus filhos em casa térrea e foi tudo de bom. Enviado por trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
Publicado em 19/08/2011 Com uma memória privilegiada, Rodrigo, vc nos deu uma ideia exata do que é ser criança, como é ser partícipe de todas as brincadeiras e vc ainda queria ter conhecimento com os jogos eletrônicos? pra que? ficar sentado diante de um computador, sozinho, sem a participação de amigos, cujas amizades vc tem até hoje. Só ficou, pra mim, um esquecimento: que bairro fica essa bendita rua 6?
Parabéns, Alessander e não esqueça, leia e comente os textos de seus colegas.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 19/08/2011 Parabens, lindo relato. Tempo bom . Que pena que não volta mais. Fomos, ou melhor somos, felizes pelo que tivemos. Enviado por carlos heiffig - carlos.heiffig@terra.com.br
Publicado em 19/08/2011 Parabens rodrigo, lindo relato. Tempo bom . Que pena que não volta mais. Fomos, ou melhor somos, felizes pelo que tivemos. Enviado por carlos heiffig - carlos.heiffig@terra.com.br
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