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Categoria - Personagens Dona Leonor Mendes de Barros Autor(a): Ivan Consolmagno - Conheça esse autor
História publicada em 07/07/2011

No ano de 1964, aos cinco anos de idade, fui vitimado por uma inflamação de garganta, que, complicando, evoluiu para uma nefrite, custando-me doze anos de tratamento e privações.

Deveria permanecer em repouso absoluto, coisa pouco viável para alguém daquela idade, pelo que, decidiu-se pela minha internação, no Hospital do Servidor Público Estadual, no bairro do Ibirapuera. Da janela de meu quarto, a paisagem era uma mata sem fim, escura e densa. Ao longe, via-se a pista do aeroporto de Congonhas.

Um enorme bonde, vermelho, apelidado de "camarão" trafegava pela via que hoje é a Av. Ibirapuera, fazendo estremecer todo o edifício. Ao final das tardes, olhava aquela mata, como se ali vivessem monstros, bruxas e índios canibais. Ali, sentia-me só e abandonado.

Desesperava-me vendo os meses passando e nada de alta. Sete meses se passaram, recebendo a visita de meus pais três dias por semana: as quartas, sábados e domingos, por uma hora.

Mas a alta veio, afinal. Recebi a notícia como um presidiário que recebe a condicional. Mal consegui dormir na véspera e, quando amanheceu, ansiando pelo médico que assinaria a alta, percebi algo estranho: estava com o corpo coberto de bolinhas vermelhas que coçavam como uma praga. Contraíra catapora e escarlatina, de quebra.
-"Esse menino precisa ir para o isolamento", foi a sentença decretada pelo medico que deveria dar-me alta, onerando em mais um mês meu suplício.

Esconjurando a sorte ingrata, fui levado ao décimo quinto andar, para um quarto isolado, onde via meus pais por uma janelinha na porta, precisando subir numa cadeira para alcançá-la. Revoltado, briguei com Deus, e virei o crucifixo para o lado da parede, indo dormir sem rezar, remoendo meus infortúnios. Mas o remorso não me deixou dormir. Cheio de arrependimento, arrumei o crucifixo e pedi perdão. Mas o tempo passou, sarei da escarlatina e pude voltar ao meu antigo quarto, porem, com a alta suspensa.

O inverno no Ibirapuera era glacial e certa noite, morrendo de frio, procurei em vão um cobertor extra. Nada. Pedi inutilmente a uma jovem enfermeira, que negou-me, categoricamente alegando que o lençol que dispunha, era mais que suficiente. Encolhi-me na cama e, desesperado, chorei convulsivamente, o que a irritou mais ainda, ameaçando-me deixar sem coberta alguma, caso não parasse com a cantilena.

Tentei dormir, mas o frio era tirano. Súbito um ruído infernal, parecendo o rugir de mil feras, e uma profusão de luzes azuis e amarelas despertaram-me totalmente. Julguei que fosse o próprio satanás, que ali tinha vindo arrastar-me para as profundezas, cobrando-me do pecado que cometera com o crucifixo. Não era. Era um helicóptero aguardando autorização para pousar no heliporto do hospital.

Momentos depois ouvi ruídos de vozes no corredor e uma multidão liderada por um homem alto, de terno e gravata, de formidável nariz e barriga considerável entravem no meu quarto. O homem do nariz olhava a prancheta nos pés de minha cama, como quem entendia aqueles garranchos médicos.
- "É o Dr.Adhemar de Barros", informou-me uma senhora da comitiva.
Pensei comigo:
-"Outro médico a essas horas?".

Vendo meus olhos vermelhos de tanto chorar, o senhor do nariz apanhou-me no colo e perguntou:
-"Por que está chorando?".
Toda a revolta, saudades de casa e de meus pais vieram à tona e ao invés de falar, chorei compulsiva e dolorosamente. Desconcertado, enxugou minhas lágrimas com as mãos, e passou-me para o colo de uma senhora de ar bondoso que estava com ele. Era sua esposa, Dona Leonor.

Contei-lhe minhas misérias, e ela olhava-me com ternura de mãe, dizendo que iria dar-me um presente. Jamais soube o que houve com a enfermeira. Não tornei a vê-la.

No dia seguinte, estava em casa, afinal! Junto com minha trouxa de roupas, havia uma cesta de flores e um cartãozinho assinado:
- "Pra você, com carinho. Adhemar e Leonor Mendes de Barros."

Dona Leonor foi uma das melhores almas que conheci em minha vida!


E-mail: corisco1@yahoo.com.br

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Publicado em 01/08/2012 é que o ivan era criança e não tinha bolsos! por isso, a impressão favorável. não podemos nos esquecer que foi com o adhemar que o maluf aprendeu a arte de governar! Enviado por romeo scommegna - romeoscommegna@yahoo.com.br
Publicado em 24/07/2011 Atendendo à solicitação do Sr.Luiz Carlos Pereira, sobre o desfecho da história:
Na verdade, exausto pela emoção, adormeci nos braços de Dona Leonor. Ao amanhecer, vi-me coberto e com meias. Nunca mais tornei a vê-la, nem ao Senhor Governador. Bem como não soube do destino da jovem atendente de enfermagem. Acredito que tenha sido tranferida de setor, por seu despreparo no trato com crianças, o que não a desqualificaria, necessariamente, como profissional competente.
Agradeço aos comentaristas pelas palavras gentis. Por décadas guardei comigo este ocorrido. No entanto, achei oportuno torná-lo público, não por mim, mas pela angelical pessoa de Dona Leonor, engrossando um pouco a lista de "causos" que vem a torná-la um figura lendária para os paulistas.
Fiquem todos com Deus.
Enviado por ivan consolmagno - corisco15@yahoo.com.br
Publicado em 10/07/2011 Que triste recordação, a sua, Ivan, uma criança, passando o que vc passou, deve ter marcado, pra sempre esse episódio. Felizmente a boa alma de Dna. Leonor Mendes de Barros aliviou um pouco sua desdita. Parabéns pelo conteúdo, Consolmagno.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 10/07/2011 Curiosidades: Em razão de ter escrito uma história neste site, com o título: Vamos passear na casa da tia Tuca, lá em Indianoplis, pessoas fizeram comentários, daí acabei descobrindo que dona Leonor Mendes de Barros tinha parentesco com minha bisavó paterna. Maria do Carmo Souza Mendes (1800 e qualquer coisa). Daí descobri também sobre Leão Salles Machado e Ignácio Loyola de Brandão e Adolpho José Machado. Todos parentes, enfim abriu um baú de informações sobre genealogia familiar. Enviado por JCOliveira - tangerynus@gmail.com
Publicado em 09/07/2011 História emocionante, Ivan. Dona Leonor era muito admirada até por Jânio Quadros, inimigo político ferrenho de Adhemar. Jânio respeitava e sempre a elogiava Dona Leonor, dizendo que Dona Eloá, sua esposa, tinha semelhança com suas virtudes. Amigos policiais que trabalharam no Palácio dos Campos Elíseos, embora janistas, sempre disseram que Adhemar como ser humano era melhor e bem do que Jânio. Alguns, inclusive, diziam, que não dava pra comparar. Enfim... - abraços - Pedro Luiz -. Enviado por Pedro Luiz Boscato - plboscato@uol.com.br
Publicado em 08/07/2011 Ivan

Que história emocionante. Triste sim, mas retratou de uma forma surpreendente um encontro marcante. Não conheci Dª Leonor nem dr. Adhemar pessoalmente como você, mas tinha grande apreço pelos dois. Difícil encontrar nos dias atuais pessoas como essas. Fazem-nos falta. Obrigada por compartilhar lembranças tão ricas. Faça-me uma visita em meu blog http://retalhosdeleituras.blogspot.com/ Inajá
Enviado por Inajá Martins de Almeida - inaja.ima@gmail.com
Publicado em 08/07/2011 adorei a historia Enviado por Elizabeth cardoso - bethcardosoenfer@hotmail.com
Publicado em 07/07/2011 Você tem toda razão.Independente do que o marido dela possa ter representado ou não para a política, até porque política, futebol e religião não se discutem, a Dona Leonor era realmente uma alma santa. Enviado por Marcos Loureiro - marcoslour_ti@yahoo.com.br
Publicado em 07/07/2011 Você tem toda razão.Independente do que o marido dela possa ter representado ou não para a política, até porque política, futebol e religião não se discutem, a Dona Leonor era realmente uma alma santa. Enviado por Marcos Loureiro - marcoslour_ti@yahoo.com.br
Publicado em 07/07/2011 Adorei ! Você escreve bem e me deixou com lágrimas nos olhos. Lágrimas por seu infortúnio, lágrimas por D.Leonor e pelo Ademar pois fui ademarista roxa.Aquele " cancro" que veio depois deste foi quem detonou todas as nossas mazelas subsequentes, deixando-nos acéfalos depois de um dos seus delírios etílicos e paranóicos. Que Deus nos abençoe enquanto eleitores para não nos deixarmos iludir por esse tipo de político.A história costuma se repetir como farsa e, infelizmente, há perigo no porvir... Enviado por Trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
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