Leia as Histórias

Categoria - Outras histórias Domingo é dia de ir pra casa dos avós Autor(a): Rodrigo Alessander Sant Ana - Conheça esse autor
História publicada em 30/03/2011
Ainda não sei explicar a vocês o porquê de eu ser uma pessoa tão ligada às lembranças, parece até que não vivo o presente como deveria, mas acredito que se tenho boas lembranças, foram devido às situações presentes inesquecíveis.

No futuro, quero continuar a escrever sobre meu passado. Fato é que tive uma infância muito rica, observando por vários aspectos, pois lembranças temos não só de coisas boas, porém, me reservo a lhes contar os momentos que me fizeram acreditar, que viver vale muito a pena.

As primeiras recordações que me vêm à cabeça são dos primeiros momentos em nossa casa nova lá na Cohab 1 de Itaquera. Eu era muito pequeno, mas foi uma fase muito marcante e intensa. Sabem aquelas primeiras recordações que você tem da sua infância, aquelas em que você não consegue ter tanta certeza, nem muito menos os detalhes, mas consegue ter um apanhado de sensações que não sabe explicar quando sua mãe ou seus avôs começam a contar? Alguns dizem que é impossível, que devo estar inventando, mas faço o desafio a qualquer um, basta um pouco de esforço. Vamos tentar?

Tente se lembrar do que te deixava bastante excitado nos seus possíveis três anos de idade. Seria brincar ao redor da mesa da copa com seu irmão mais velho, suas intrigas, ou acompanhar sua mãe ao retirá-lo da escola ao fim das aulas. Seriam os momentos de intensa alegria nas brincadeiras com as panelas da sua mãe ou com os cobertores colocados na sala para montar barracas com auxílio das vassouras e rodos de limpeza, ou até as brigas por um mero pedaço de doce, ou simplesmente pelo desafio em terminar a refeição primeiro. Ou até aquela visita inesperada de seus tios ou avós, se fossem com os primos, melhor ainda. Deu pra viajar um pouco e vasculhar as riquezas de seu baú?

Mas de lá do fundo deste enorme baú, todos sabem, tem uma tradição, e das melhores de se lembrar: final de semana é dia de ir pra casa dos avós! Claro que nossos finais de semana não se resumiam a isso, por vezes íamos visitar também outros parentes; dependendo da fase, ficávamos em casa e éramos visitados; algumas vezes no verão meu pai arriscava uma praia no litoral sul, mas na grande maioria das vezes e a que me refiro aqui, foi na minha fase de bem pequeno.

Os sábados já eram bastante excitantes, bem cedo começava o preparo. Lembro-me que minha mãe gostava de deixar nossa casa em ordem, apesar de que tínhamos uma cadelinha poodle chamada Biúca que às vezes não ia com a gente, e quando voltávamos, apesar de minha mãe enrolar os tapetes e tirar as coisas do alcance daquela danadinha, não tinha jeito, a casa bagunçava toda.

Aproveitávamos bem o final de semana... Costumávamos sair aos sábados à tarde e ir primeiro à casa de minha avó paterna Joana, nos quais costumavam ser bastante agitados por conta da grande quantidade de filhos e netos que ela tinha. Era um grande encontro, costumávamos jantar lá, todos ficavam até tarde acordados, muitos tios e primos, muita diversão.

Meus avôs paternos já se foram, que Deus os tenha, esta foi uma fase de muito contato com todos da família de meu pai na qual me recordo muito bem, inclusive do caminho que fazíamos de carro. Eu era bem pequeno, mas acreditem que depois de adulto, ao passar nestas ruas, me recordava precisamente.

Nós morávamos na zona leste de São Paulo, eles no bairro de Cidade Ademar, zona sul de São Paulo, e me lembro quando passávamos na Avenida 23 de Maio... Em sua descida, avistávamos o obelisco do Ibirapuera ao fundo, e no lado esquerdo, um restaurante no formato de um barco enorme (hoje lá existe um bingo desativado). Lembro precisamente quando passávamos pelo aeroporto (pois comentávamos, tentando ver os aviões), depois pegávamos o acesso para a Avenida Vereador Vicente Rao em direção à Avenida Cupecê. Parece mentira, mas quando adulto, morei e estudei lá perto e passava nestes lugares e me recordava como se fosse um Dejavú. Eu tinha apenas cerca de três a quatro anos de idade.

Os domingos ficavam reservados para visitar os avôs maternos que moravam em São Bernardo do Campo, bairro do Taboão, terra natal de minha mãe, onde tenho a maioria das recordações de minha infância juntamente com os avôs no qual mantive maior contato: Dona Madalena e Sr. José.

Lembro-me que, na maioria das ocasiões, chegávamos para o almoço, mas muitas vezes também pousamos por lá, era quando acordava cedo e ia comprar pão com meu avô... Quando não dávamos uma esticada até a feira de domingo, ele gostava muito de andar a pé, conhecia muita gente no bairro, tinha muito orgulho de mostrar os netos para todos, que Deus o tenha.

Lembro dos almoços, da comida de minha avó, das caipirinhas e do vinho de galão de meu avô, sem falar nas rapaduras que não podiam faltar naquela casa. Que saudade dos Natais em família, das Páscoas, aos poucos fomos deixando de ter estes costumes e nos afastando, fomos crescendo e naturalmente nossos interesses foram mudando, sem falar em situações que acabam afastando as famílias naturalmente e que só depois de adultos acabamos compreendendo.

Acredito que a família é a maior riqueza de toda uma sociedade, pois ela é responsável por toda esta bagagem que carregamos, sejam boas ou ruins, e desta forma acredito que todo relacionamento familiar deva ser construído sob alguns pilares que sustentarão a união por muito tempo ou senão para sempre: o respeito, a verdade e a compreensão. Depois deles facilmente virá o amor, a confiança e o sentimento de que toda família estruturada proporciona, a segurança. Imagine uma criança que não teve este privilégio.

Imagine se você não tivesse guardado em sua memória o que têm hoje, ou se suas lembranças fossem traumas. Bem, não quero filosofar demais e perder o foco deste texto, pois sabemos que o caráter de todo ser humano se constrói mais ou menos desta forma. Relações falsas são prejudiciais e, em vez de nos trazer boas recordações, nos causam traumas, a nós e aos nossos pequenos.

É nisto que eu acredito, de tal forma que um dia, resolvi me separar depois de quase sete anos de casado, nos quais foram de muito sofrimento e desentendimento, mas quem mais sofria eram as crianças que vivenciavam uma situação diária de dor, vendo os pais discutirem sempre. Foi um trauma sem proporções para meu filho ver o pai sair de casa aos seis anos de idade, mas não se compararia aos traumas diários de ver seus pais se desrespeitando.

Justamente nesta fase na qual temos tantas lembranças, hoje tento dar o máximo de mim para o meu filho, realizar coisas que nunca realizei com meu pai, fazer com ele e para ele tudo aquilo que meu pai jamais pensou em fazer para mim, dizer diariamente que o amo, lhe abraçar, lhe beijar, ensinar valores familiares, a respeitar o próximo, seja quem for. Investir tudo, tudo mesmo (claro que dentro de minhas possibilidades), a torná-lo um ser humano melhor do que eu e meu pai fomos.

Hoje o Daniel já está com dez anos e já é quase um rapaz; é um menino muito inteligente, muito sagaz e carinhoso. Tenho muito orgulho e não sei expressar o quanto é o tamanho de meu amor por ele. Sei que no fundo ele ainda sofre pela minha ausência, sempre que estamos juntos aproveitamos ao máximo, sempre tento aproveitar nosso pequeno tempo para muitas conversas, ele até me acha meio chato e rigoroso, mas sinto o quanto me ama. Jamais abrirei mão de nossos momentos, pois deles ainda terei muito que lembrar também e escrever.

É... A vida passa muito rápido. Nossos avôs se vão, agora os avôs são nossos pais, amanhã seremos nós. O que fica é a lembrança, seja boa ou ruim. É preciso saber viver, aproveitar, curtir, amar, não mentir e enganar. Ser feliz é impossível, pois felicidade só existe quando percebemos que um dia fomos felizes, o que existe é a busca. Que esta busca seja feita de boas recordações.

E-mail: rodrigo.enfo@gmail.com E-mail: rodrigo.enfo@gmail.com
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 12/04/2011 Eu tenho os mesmos tipos de recordações que vc,
eu cresci na Penha, nos anos 80, também ia até a "TOCO" na adolescência, todo o domingo almoçava na casa da avó (materna) Célia , mas as festas mais legais aconteciam na casa da vovô Leonor (é... meu nome é uma homenagem a esta mulher). Assim como vc, também tive uma infância e adolescência extraordinária, com simplicidade e até algumas dificuldades por conta da imaturidade de meus pais, mesmo assim eu realmente fui feliz.
Enviado por Leonor Denise Caetano - leo-cae@hotmail.com
Publicado em 03/04/2011 Rodrigo, assim como vc. família pra mim é tudo.Meu marido tb fez para os meus filhos as adoráveis cabanas. Panelas ainda bem que eram resistentes e brilhantes. Pelo nome Rodrigo vc deve estar na casa dos 40 certo? Enviado por mirça bludeni de pinho - by_laser@yahoo.com.br
Publicado em 03/04/2011 Favor corrigir, onde lê-se Daniel, leia-se Rodrigo. Grato. Enviado por asciudeme joubert - asciudeme@ig.com.br
Publicado em 03/04/2011 Rodrigo, fiquei emocionado com seu relato. Não tive o prazer de conhecer meus avôs, mas conheci e convivi com minhas avós. Minha avó materna, com quem mais morei por um tempo, nunca saiu do meu pensamento e das minhas preces. Hoje sou avô de 11 netos e tenho três bisnetos. Meu relacionamento com eles é maior que o relacionamento que tive com os filhos, que devido ao meu serviço não podia acompanhá-los. Parabens. Enviado por Hermes C. Figueiredo - hermes.figueiredo@ig.com.br
Publicado em 02/04/2011 História espetacular e belo relato da infância e do valor precioso da vida em todas as fases.Parabéns pelas sábias e honestas reflexões.Muito bom! Enviado por Ana Maris de Figueiredo Ribeiro - anamarisribeiro@ig.com.br
Publicado em 01/04/2011 Sou felizarda por ter convivido com meus avôs paternos (avó até os 11 anos e avô até os 13 anos) e maternos (avó até os 21 anos e avô até os 23 anos). Foram tempos maravilhosos. Minha avó materna fazia a melhor gemada do mundo. Minha avó paterna tinha uma cara brava mas se derretia toda pelos netos. Meu avô materno nos comprava pastel na feira todo domingo e meu avô paterno passava todo dia após o serviço e nos levava bala, mesmo eu já sendo crescida. Sinto muita saudade de todos eles. Enviado por Luciana - luborbaalvares@gmail.com
Publicado em 31/03/2011 Rodrigo, parabéns por seu texto, limpo e claro, falando da família. Sim, o importante é o vínculo familiar que deixamos aos nossos filhos, continue a lembrar de pequenos detalhes que você viveu na sua infância e passe para seu filho.
Só não concordo que você diz, que ser feliz é impossível. Não, não é, a felicidade está em resolver os obstáculos que surgem e seguir adiante. E foi o que você fez, e por isso você é feliz e sempre o será, já que possui a maior felicidade que é seu filho. NIderce
Enviado por Niderce Teresa - niderceteresa@bol.com.br
Publicado em 31/03/2011 Que bom poder recordar da nossa infância desde a mais tenra idade, eu só tenho lembranças da minha dos meus cinco anos em diante, e por mais que eu me esforce não consigo me lembrar de nada anterior aos meus cinco anos. Gostei muito de sua historia, parabéns, mande mais historias e procure ao ler outras historias colocar também seus comentários nelas. Eu adoro comentar e ler os comentários em todas as historias. Enviado por Arthur Miranda - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 31/03/2011 Felizes aqueles que tiveram esse privilégio! Eu, por ser filho temporão, não conheci meus avós, embora minha avó paterna tenha falecido no ano seguinte ao do meu nascimento, em Extrema-MG. Já se foram meus pais e dois irmãos. Ser o caçula mimado na infância tem a sua contrapartida na velhice. Enviado por Tony Silva - silva.luiz2006@ig.com.br
Publicado em 30/03/2011 É Daniel, realmente a vida passa rápido e como. Hoje já sou Avô,(não conheci os meus, só uma Avó) só que os filhos/netos estão em casa quase todos os dias, pois moramos no mesmo
bairro e perto. A casa vira um campo de batalha e temos (espôsa) uma "praga" de um cachorrinho que "arrasa" com tudo e ai de quem por a mão nele. Não consegui atinar a sua idade. Parabéns pela narrativa.
Enviado por asciudeme joubert - asciudeme@ig.com.br
« Anterior 1 Próxima »