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Categoria - Paisagens e lugares Corrida de São Silvestre e Cine Belas Artes Autor(a): Rogério Duarte Fernandes dos Passos - Conheça esse autor
História publicada em 14/02/2011
(Um momento de São Silvestre e Belas Artes)
São Paulo é cosmopolita. O imenso para São Paulo é insuficiente. Em assim o sendo, falemos de dois dos inúmeros temas sobre São Paulo.

Em primeiro lugar, a Corrida Internacional de São Silvestre. Eu mesmo corri a São Silvestre. Realizando um sonho, participei das provas 78ª, 79ª, 80ª, 81ª, 82ª e 83ª. Impediu-me de seguir correndo a falta de preparo e contusões. Mas essa é outra longa história...

Para falar da Corrida de São Silvestre, criada pelo visionário jornalista Cásper Líbero (1884-1943), menciono aquele que é um dos grandes profissionais envolvidos na sua cobertura: o jornalista Wanderley Nogueira. Ícone do rádio paulista, esse notável profissional ingressou na Rádio Jovem Pan AM (620 Khz) em 1977. Desde então, com sua expressão e locução perfeitas - somadas ao excelente senso e equilíbrio jornalístico - esse radialista é uma das grandes vozes da emissora, uma de suas expressões sinônimas.

Assim como ouvir o locutor Joseval Peixoto, ouvir o Wanderley Nogueira é associar a sua voz ao trabalho da Jovem Pan. Em uma das ocasiões que corri a São Silvestre, lembro-me do Wanderley improvisado no bagageiro de uma das viaturas da rádio, muito concentrado na transmissão. E nesses últimos dias do ano de 2010, ouvindo-o na Pan, ele nos comentava acerca dos preparativos e dificuldades para a então próxima edição da prova.

Uma das questões abordadas foi relacionada à estrutura, visto que a organização da prova não mais dispunha do terreno na Avenida Paulista nº 1230. O local - onde um dia esteve de pé a Mansão Matarazzo - se fazia necessário para a recepção dos atletas, devolução de seus chipes de desempenho e entrega das medalhas de participação, e, ao que parece, finalmente, nele terá uma construção.

Diante disso, para o futuro, muito provavelmente, a chegada da prova acontecerá não mais na Paulista, mas talvez em outro importante ponto de São Paulo, como o Estádio Municipal do Pacaembu.

E, derradeiramente, Wanderley, com a emoção que lhe é peculiar, relatou uma das transmissões que fez da antiga viatura modelo "veraneio" da Jovem Pan. Da maneira que só ele é capaz de contar, narrou aos ouvintes quando, nos anos 1980 - suponho 1984 - o brasileiro José João da Silva liderava a prova - que ainda era noturna - e, subindo a Rua da Consolação, bem em frente ao Cine Belas Artes, sentiu uma fisgada na perna. O líder diminuiu o ritmo, vendo se aproximar o português Carlos Lopes - atleta possuidor de títulos mundiais e olímpicos -, obviamente vice-líder.

Ao se aproximar de José João, diminuindo as passadas, naquele diálogo e ética peculiar que cabe somente aos grandes desportistas, o luso Lopes disse: "Vai, João!". João, sentindo e definitivamente machucado, retrucou: Para mim não dá mais; vai você". E Carlos Lopes cruzou a Paulista já na liderança e venceu a prova.

Pudera todos ouvir o Wanderley Nogueira: emocionante. Aqui só me resta relembrar.

E eis que, com comentários de José João da Silva, Wanderley Nogueira narrou, na 86ª edição da São Silvestre - como só ele pode - a vitória do brasileiro Marílson Gomes dos Santos, que já havia conquistado o primeiro lugar nas provas de 2003 e 2005.

Para o leitor, essa descrição deve soar estranha, visto que a chegada da prova acontece após a subida da Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, quando se dá a curva à direita para o trecho final já na Avenida Paulista. Isto é verdade. É verdade, também, que o trajeto da prova sofreu modificações ao longo dos anos. Não me recordo se na década de 1980 ou no ano de 1984 a parte final do trajeto se dava pela Rua da Consolação ou pela Brigadeiro. Se estiver errado, me desculpem. Mas a descrição do Wanderley Nogueira é algo que não pode "passar em branco".

Em segundo lugar, falemos do Cine Belas Artes. Mas, afinal, pontuemos: o que a Corrida Internacional de São Silvestre tem a ver com este cinema?

Bem, o Cine Belas Artes, na Rua da Consolação, foi lembrado pelo Wanderley Nogueira por ser o palco da dramática ultrapassagem de Carlos Lopes sobre João José da Silva em uma das edições da Corrida Internacional de São Silvestre, que ainda era disputada à noite, junto com a virada do ano (somente deixou de sê-lo em 1989).

Quando surgiu a sala de cinema em 1943, tínhamos o "Cine Ritz". Em 1958, o nome passou para "Cine Trianon". Finalmente, o Cine Trianon é reformado em 1967, e o nome foi estabelecido como "Cine Belas Artes", com programação ditada pela Sociedade Amigos da Cinemateca. Em 2004, veio o patrocínio cultural do Banco HSBC, e o cinema passou a ser conhecido como "HSBC Belas Artes".

O "noitão" se tornou tradicional, onde três películas em uma única sessão eram exibidas, geralmente com um filme recente, um "cult" e uma surpresa da casa. No final, quase amanhecendo, era servido um café da manhã.

Após 35 anos de funcionamento, aconteceu em 26 de setembro de 2010 o fechamento do Cine Gemini, localizado em uma galeria do nº 807, da Avenida Paulista. E eis que a ameaça que já existia ao Cine Belas Artes desde o ano anterior - infelizmente – e finalmente se concretizou neste janeiro de 2011. André Sturm, dono do Belas Artes, desativará o cinema e restituirá o imóvel ao proprietário Flávio Maluf.

Lembrei-me dos ótimos filmes lá vistos. "Edukators" (no título original "Die Fetten Jahre Sind Vorbei"), filme alemão de 2004 dirigido por Hans Weingartner, foi um deles. Inclusive na sessão em que o assisti, o ator Gero Camilo - que interpretou o "Paraíba" na magnífica produção brasileira "Bicho de Sete Cabeças" (2001), de Laís Bodanzky -, ali estava presente.

Há anos não ia ao Belas Artes. E quando soube de seu fechamento, fiquei com aquela sensação ruim de imaginar que se tivesse frequentado mais as suas sessões, talvez também tivesse contribuído para a continuidade de suas atividades.

Uma pena.

São Paulo é cosmopolita. Alegria e tristeza cabem aos montes em São Paulo.

E-mail: rdfdospassos@hotmail.com E-mail: rdfdospassos@hotmail.com
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Publicado em 04/03/2011 Pois é Rogério, você falando em São Silvestre bateu-me uma saudade do tempo que ela saia às 23,30 hs. e chegava às 24,00 hs. na av. Casper Líbero. Em várias oportunidades, na pça. Marechal Deodoro, pude ver os grandes ídolos passarem a menos de 10 metros. Uma rica lembrança do final dos anos 50 e anos 60. Um abraço, Rossi. Enviado por antonio rossi dos santos - rossi@valoneadv.com.br
Publicado em 22/02/2011 O SR, FLAVIO MALUF DONO DO PREDIO DO CINE BELAS ARTES, NÂO E O FILHO DO MALUF. Enviado por joao claudio capasso - jccapasso1@hotmail.com
Publicado em 15/02/2011 Muito bem escrito, detalhado e interessante este
seu texto. Quantas coisas boas e ruíns acontecem
por aqui... "alegria e tristeza cabem aos montes
em São Paulo"! Parabéns
Enviado por Lia Beatriz Ferrero Salles Silva - lia.ferrero@hotmail.com
Publicado em 15/02/2011 Roteiro emocionante, Rogério, Corrida de São Silvestre e o cine Belas Artes, dois símbolos de nossas recordações. Parabéns, Duarte.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 14/02/2011 UMA CORREÇÂO O CINE RITZ, DA CONSOLAÇAO FOI INALGURADO EM 1943. E AO LADO FOI EM 1956 FOI O CINE TRIANON, OS DOIS CINEMAS TIVERAM UMA VIDA LONGA, DEPOIS O RITZ, FOI A TV TUPI. E HOJE E UMA LOJA. Enviado por joao claudio capaso - jccapasso1@hotmail.com
Publicado em 14/02/2011 Flavio Maluf, que esteve preso junto com seu pai, Paulo Salim Maluf por malversação do dinheiro público, deveria deixar "de graça" o uso do local para a continuação do cinema Belas Artes... - Flavio Rocha Enviado por Flavio Rocha - flaviojrocha@bol.com.br
Publicado em 14/02/2011 O Belas Artes ainda não esta fechado. O Andre Sturm, esta tentando um patrocinio, e proporá um aluguel de 105 mil reias. Pelo menos foi o que eu ouvi hoje no radio. Os cinefilos que façam figa para o negocio dar certo. Enviado por Mario Lopomo - mlopomo@uol.com.br
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