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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas A casa da Conselheiro Ramalho Autor(a): Regina Iaconis - Conheça esse autor
História publicada em 19/01/2011
Sou descendente de uma família de italianos, e passei a minha infância no Bixiga.

Que saudade da vida naquela casa da Conselheiro Ramalho, entre a Doutor Ricardo Batista e Rua São Domingos, onde eu nasci e onde meu pai também nasceu.

A casa foi herdada por minha avó Antonietta, construída por seu pai, Vicenzo Galbo, que veio da Itália com sua família, por volta de 1893. Era uma casa enorme, com o pé direito alto, vários quartos, para acomodar o grande número de filhos e um quintal bem grande. Na sala, cheia de cristaleiras de vidro com taças e copos à vista, tinha uma mesa bem grande, onde todos faziam as refeições juntos. Todos os cômodos eram espaçosos. Tinha um porão que ocupava toda a extensão da casa e um assoalho de madeira que era encerado pelo menos duas vezes por semana (no silêncio da noite, rangia assustadoramente quando alguém caminhava por ele - ninguém passava despercebido). Mas o que tinha de melhor, mesmo era o quintal. Um quintal enorme, com um galinheiro no fundo e uma horta, onde tinha pé de goiaba e de romã.

Quando eu nasci, minha avó já era viúva, e meu pai, por ser o filho caçula de oito irmãos, não podia deixá-la sozinha.
É estranho hoje, eu dizer que sinto saudades daquela casa. Achávamos, na época, a casa velha, cheia de coisas antigas. Eu e minha irmã Yara, sonhávamos em mudar para a casa que meu pai havia comprado na Praça da Árvore, mas cada vez que isso era mencionado minha avó amarrava um lenço na cabeça e não saia da cama, dizendo que estava doente, em seu dialeto siciliano misturado com português.

Só mesmo depois de muitos anos, viemos reconhecer o quanto fomos felizes naquela casa, brincando naquele quintal, soltando nossa imaginação.

Uma vez, num dia de muito calor, eu minha irmã e duas primas, que estavam nos visitando, resolvemos fazer uma piscina, e cavamos um enorme buraco destruindo toda a plantação tão bem cuidada. Achávamos que seria só cavar, encher de água e pronto, teríamos uma piscina. Ficamos uma semana de castigo sem poder brincar no quintal. Hoje em dia as crianças não são mais tão ingênuas.

Morei ali até os dezenove anos, quando enfim fomos para a Praça da Árvore, mas a lembrança daquela casa, que abrigou três gerações de nossa família está sempre presente em meu pensamento.

Recentemente minha irmã passou por lá e tirou várias fotos da fachada dela. A casa continua quase igual. Só fizeram uma garagem no lugar onde antes era o porão.

Sinto muita saudade de lá, e das pessoas com as quais convivíamos. Onde estarão todos eles?


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Publicado em 19/01/2011 Uma moradia sempre deixa marcada sua soberania sobre nossos sentimentos, nossa memória. Associamos sempre (e, não podia ser diferente)nossa felicidade nas paredes, divisõe e áreas de lazeres. Linda crônica, Iaconis, parabéns.
Modesto
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 19/01/2011 Regina, tenho certeza de que passei diversas vezes pela casa em questão, embora preguiçoo como sou, muitas das vezes eu subi a Conelheiro e entrei na Ricardo Batista para sair na Major Diogo e ir para casa que era no 307, evitando o resto daquelaladeirinha bandida.
Quem sabe numa dessas vezes eu te vi no portão ou por perto.
Nossas memórias, depois dos anos passarem, voltam cada vez mais emocionadas.
Gostei de ler teu texto.
Miguel
Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 19/01/2011 Regina, que bom poder comentar um texto seu!
Lembra-se, já fez um comentário em um dos meus textos.
Que infância boa, não é mesmo! Que sorte que a casa continua, porque hoje esse tipo de casa é raridade e eu as admiro muito, onde vou fotografo, todas que estão no meu caminho. Felicidades. Niderce Teresa
Enviado por Niderce Teresa - niderceteresa@bol.com.br
Publicado em 19/01/2011 morei na 13 de maio e tinha um amigo na dr.ricardo batista. conheci bem o bixiga. o sobrenome iaconis me fez lembrar da cleide a artista. gostei da narrativa da regina. Enviado por turan bei - turanbei@hotmail.com
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