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Categoria - São Paulo da cultura, gastronomia, lazer e oportunidades Fragmentos. De memória paulistana. Autor(a): Rubens Cano de Medeiros - Conheça esse autor
História publicada em 04/01/2011

I - Meados dos anos 50. Eu, moleque vilamarianense. Da São Paulo ainda fabril. De uns três milhões de paulistanos. Abrindo (ampliando) horizontes para vir a ser metrópole, mais que cidade enorme. E eu via aqueles ônibus, vermelhos, da CMTC. Principalmente na Domingos de Morais. No letreiro: CIDADE. Que, no caso, era a João Mendes. Ou a Sé. Até mesmo o Anhangabaú. Os bondes, estes não. Não falavam CIDADE no letreiro. Era capricho só de ônibus, não?

II - Ônibus aqueles - vim a saber bem depois - que eram mecânica inglesa: chassis, motor e tudo mais. Porém, “encarroçados”, cá em São Paulo pela Grassi. Tradicionalíssima, da Conselheiro Nébias, perto do Palácio dos Campos Elíseos. Já a partir de 1956, vi nos jornais de arquivo, a CMTC os reformou. Botando neles cara nova, carroceria chamada de "padrão". Ônibus que sacolejavam bem. Eu, moleque, gostava.

III - Eu notava a diferença. Que contemporâneos de meus 62 aninhos de paulistanice hão de lembrar. A alavanca de câmbio - "trambulador", que ninguém falava - a daqueles ônibus ingleses; ela não era no chão, como de comum. Era, isto sim, uma alavanca curtinha. Dentro de uma engenhoca situada sob o volante do motorista. Falavam (como se eu entendesse): "câmbio semi-automático". E o que era "câmbio", hein? “Aquele troço que muda a marcha a toda hora”, explicavam. Ah, bom!

IV - Aqueles ônibus de há meio século minha retina ainda grava. Fragmentos. Sessão nostalgia. Eles predominavam em Vila Mariana e região. Onde só dava CMTC (ônibus e bondes). Linhas 11, 12, 47 e 48 é que tinham deles. Linhas tais que a CMTC herdou da Auto Viação Parque Jabaquara em 1947.

V - Pois fuçando jornais de arquivo é que revigorei minhas lembranças fragmentadas pela erosão do tempo. Afora os herdados da Parque Jabaquara, chassis outros foram importados para a CMTC em 1948. Ingleses, entretanto com o volante já do "nosso" lado. Ao contrário de nos caminhões de mesma marca os quais, em Congonhas, tinham o volante do lado direito e abasteciam as aeronaves - Real, Vasp, Panair, Varig... - caminhões amarelos da Shell. Muitos lembram.

VI - Daquele tipo de chassis ingleses, muitos foram “encarroçados” pela mesma Grassi – curioso lembrar como memória - para um ônibus "especial". Chassis de grades do radiador e aros das rodas dianteiras inconfundíveis. Tais ônibus diferentes eram assim: de motor dianteiro, a frente não era reta; era seccionada. O assento do motorista ficava mais à frente, isolado do "salão" como que numa caixa de vidro (janelas). O farol esquerdo embutido na lataria. A frente, do lado direito, é que era recuada! O farol, desse lado, sobre o pára-lamas, tal qual um caminhão! Coisa de inglês... Comuns no Rio de Janeiro; o carioca os apelidou de "Camões": um olho só! É claro que tais ônibus não tomaram o caminho para as Índias, mas, por certo, rodaram - e muito - por ruas e bairros nunca dantes navegados...

VII - No abissal de minha memória. Uma fugaz lembrança daquele tempo longínquo. Eu tomando um "Camões" da CMTC, ponto final do 48-Paraíso. Se é que a CMTC os teve! Talvez, até seja um equívoco meu, uma "alucinação" de nostalgia (inofensiva). Contemporâneos de mim que gostam de ônibus antigos: estarei inventando? Confirmem - ou ao menos não me deixem mentir sozinho... Para mim, mesmo que não verídico, eu andei no "Camões": da CMTC.

VII - Velhos coletivos ingleses. Rodaram muito. Resistentes. Descaracterizados, por sucessivas reformas nas oficinas da CMTC. Menos o sacolejo. Ajudaram a CMTC a fincar suas raízes. Até meados dos anos 60 - quando da última "versão" - rodaram numa linha específica.

IX - Os carros derradeiros, daqueles ingleses, faziam a linha Santana-Jabaquara. Percurso exatamente aquele o qual, sob o chão, viria a cobrir a primeira linha do Metrô! Com a diferença de que, na zona norte, o metrô pega a Cruzeiro do Sul, enquanto aqueles ônibus subiam e desciam a Voluntários da Pátria. Linha, então, operada simultaneamente por CMTC e Viação Nações Unidas. Aquela, com os veteranos carros ingleses, esta com os então novíssimos monoblocos Mercedes, os belos Super B. Com o alvorecer do Metrô, a linha de ônibus evaporou.

X - Velhos ônibus ingleses ACLO, da CMTC. O nome, uma sigla. Ônibus dos quais também me recordo, de moleque, na Domingos, sempre cheios. Linha 12-Jabaquara. Tanto que era inútil aquele pequeno letreirinho. Que era para andar "aceso": LOTADO - isso quando não pudesse mais apanhar passageiros. Que o motorista nem acendia. Letreirinho localizado por detrás do pára-brisa, não? Nunca funcionava. Era só "para inglês ver"...

XI - Precisava? Vinham tão lotados aqueles ACLO que a porta de trás – por onde a gente subia - nem fechava. Passageiros em pé nos degraus. Letreirinhos inúteis. Nasceram e morreram mudos. E ninguém nem lhes dava atenção. Sumiram com o tempo. Só a superlotação sobreviveu.

XII - Se não propriamente "memória", pelo menos lembranças pitorescas do transporte paulistano, aqueles velhos ACLO da CMTC. Dos quais, claro, não sobreviveu um. Que a sucata, ela os devorou a todos: a memória do transporte se cansou dos sacolejos daqueles ônibus. Que tentassem sacolejar debaixo de maçarico e marreta... Já a internet... Lá ainda dá para ver. E até matar a saudade, em termos. Pois restam guardados alguns ACLO. Na Inglaterra, no Canadá ou na Austrália. Com o nome dado por outra sigla: AEC. Ônibus pitorescos. Testemunhas da evolução dos desenhos de carrocerias e da mecânica dos anos 30 e 40. Radiadores, rodas e faróis inconfundíveis. De frente reta ou "Camões". Entretanto, a mesma internet não abastece de todo a nostalgia. Porque nenhum daqueles ônibus é o 12-Jabaquara. Nem o 13–São Judas. Muito menos o 47-Vila Clementino ou o 48 - Paraíso. Nenhum deles é um ACLO da CMTC. Mas são fragmentos de memória.

E-mail: helena.moitinho@terra.com.br

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Publicado em 05/01/2011 Quando eu estudava no Brás e morava no Brooklin Novo (1954) pegava sempre o ônibus até o Anhangabaú, e o bonde na Praça Clovis, às vezes com ele andando na Rua Imã Simpliciana, que ligava a Sé a Clovis. O ruim da historia era na volta a tarde quando todos voltavam do trabalho e para pegar o 152 Vila Olímpia, sentado era uma dureza. Mas um belo dia apareceu um ônibus “tamanho família”. Era uma espécie de carreta, com um cavalo mecânico a puxar aquele enorme veiculo cabia entre sentados e em pé, mais de 330 pessoas. Foi apelidado de PAPA-FILA. Quanto às garagens dos bondes, era um labirinto de trilhos, que era difícil de se entender como se fazia para colocar um bonde aqui ou acolá. No Pari Rua (Não me lembro o nome da rua) tinha essa garagem que a partir de 1968 quando os bondes foram aposentados pelo Faria Lima, ficou sendo a garagem dos ônibus da CMTC. O ultimo bonde a circular pela cidade de São Paulo foi o da linha Santo Amaro Praça da Liberdade, passando pela avenida Ibirapuera. Lembro-me de uma molecagem minha em 1958, quando fomos assistir a luta livre da TV Record um sábado a noite na volta coloquei uma bomba daquelas mais forte, no trilho. Quando o bonde passou em cima dela já estávamos a mais de 500 metros de distancia o barulho foi como se fosse um morteiro de guerra. O bonde parou na hora e os passageiros desceram todos apavorados. Entre mortos e feridos salvaram-se todos, completamente ilesos. Antigamente os ônibus que não iam mais circular naquele dia no Letreiro estava RECOLHE, hoje em dia eles colocam PAESE. Enviado por Mario lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 04/01/2011 Mais um trabalho sobre um tema que alimenta vários textos, sempre com informações das mais interessantes. Como todos os trabalhos anteriores, muito bem redigido, espacejado em parágrafos bem compostos, enriquecendo, sobremaneira a narrativa. Parabéns, Cano.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 04/01/2011 Toda vez que me deparo com seus textos já sei que terei uma senhora aula sobre os transportes. Como sobrinha do Gaetano Ferolla do Museu dos Transportes eu sinto também a presença dos meus tios Gaetano e Francisco Ferolla cuja vida girou em torno da CMTC. Obrigada por estes momentos tão saudosos. Um abraço, Enviado por Trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
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