Leia as Histórias

Categoria - São Paulo da cultura, gastronomia, lazer e oportunidades O viaduto que não era. E o abrigo. Autor(a): Rubens Cano de Medeiros - Conheça esse autor
História publicada em 06/12/2010

Compartilhar das narrativas do site: é o objetivo, agradável. De algum modo, atrelar vivência pessoal a algo da memória paulistana. Recordar por recordar: sem pretender, porém, fazer oposição às mudanças. Assim, relembrar, por exemplo, os bondes - tradição paulistana. Como é sabido mesmo de quem não os alcançou, marca indelével da Paulicéia.

Para nós, então paulistanos, mais para proletários, o bonde era uma ferramenta do dia a dia. Imprescindível, pois uma condução menos cara (que o ônibus). Eram os bondes do trabalho, da escola, do passeio, do cinema, do futebol, dos parques de diversões, dos cirquinhos de bairro...

Nos anos 30, 40 e até mesmo 50 - quando muitos bairros eram ainda desprovidos de linhas de ônibus, eram os bondes a "salvação da lavoura". Não obstante, em muitos casos, que a pessoa ainda tinha que caminhar bastante...

Caminhar? Meados dos anos 50. Eu, moleque - que dificilmente saía além-Vila Mariana - eu às vezes acompanhava minha mãe. Quando de ela ia comprar roupas para revender (caminhando bastante). "Freguesas" de inevitáveis calotes. Espalhadas por Cambuci, Brás, Jabaquara, Santo Amaro... Nisso, o bonde sempre dando suporte. Ai de nós sem ele... Domingos de Morais, perto da inesquecível Panificadora ABC, de ares europeus. Esquina de José Antônio Coelho, em cujo quase final a gente morava. Uma subidona de 800 metros até a Domingos. De sorte que, no rumo da "Cidade", era tomar um bonde: qualquer que fosse, das linhas 23, 27, 66, 101, 102 ou 103 - exceto o 104, que esse disparava para São Judas Tadeu (amém!).

Muitos lembram. Parada de bonde: a indefectível presença da placa, presa à fiação, lá no alto. Em frente à Drogasil. De tão grande, à época, comparada ao comum das demais farmácias, era chamada de "Drogaria". Ponto de parada ao lado da Travessa Tamoio. De casas todas iguais, mudou de nome com o tempo. A "rua", não. Continua Tamoio. Já nos anos 50, lugar de lojas. E de sobradões de portas altas, de cujos pés brotavam escadarias. Contemporâneos de mim lembram: àquela época, comuns na Vila Mariana (e noutros) casas térreas que davam para a rua. Com porões adjacentes. Os quais a gente notava devido às grades de ventilação, não? Coisa de 50 anos...

Sim, mas e a hora de voltar? Voltássemos à hora do rush, hein? Entre 17 e 18 horas! Sufoco! O então "abrigo de bondes" da João Mendes - de onde os bondes retornavam - inclusive os Gilda da linha 36 - aquele abrigo ficava apinhado que só! Sim, aquele abrigo ainda (jaz) em pé. À frente da Panificadora Santa Teresa. E, num canto, a Igreja de São Gonçalo. "Restaurado" (sic) pela administração (a última) de Jânio Quadros (creio). Para mim, abrigo que de singelo e bonito, restou feioso. Descaracterizado, roubaram-lhe a originalidade, a personalidade arquitetônica e histórica. Mal conservado. Trambolho. Vilipendiaram a memória.

Pois, naqueles anos 50, àquela hora do rush - ali - embarcar num bonde... Um suplício! Vejam jornais de arquivo: o montão de gente esperando ansiosamente e cansadamente, ao final de uma jornada. Neurose em ebulição. O certo é que, tão logo o camarão abria a porta da frente - fosse o Santo Amaro... Era uma carga de cavalaria - melhor, de infantaria. Afunilando pela porta, as pessoas atropelavam. Não tinha essa de "preferencial"! Só faltava um golpe de baioneta no afã de atingir um lugar. Nos bancos de madeira. Ou nos de (imitação) palhinha, do Gilda. Com os bondes abertos, quase igual. Moleque, eu me assustava: pisão, empurrão, safanão. Nem por isso eu deixava de gostar dos bondes. Acho que até o abrigo tremia...

Mas menos mal! Que verdadeiro “milagre” ocorria naquele abrigo! À hora do rush! Quem sabe? Intervenção de Santa Teresa? Ou de São Gonçalo? Ou de ambos, compadecidos daqueles paulistanos ávidos pelo retorno ao lar, não? Milagre.

Eis que, emergindo na curva da Rodrigo Silva, aproava para o abrigo um bonde "auspicioso". De trajeto que seria bem mais curto, iriam menos lotados. Quem sabe, daria até para sentar. Bondes de linhas "auxiliares", falavam. Havia várias. Caso da linha Osvaldo Cruz. Que então fazia o balão naquele logradouro perto da Sears. Na praça onde o índio de bronze - encarapitado numa pedrona - incansavelmente mirava a lança para um peixe fictício - no laguinho de verdade. Um outro bonde salvador: que ia se recolher à gare, a Estação de Vila Mariana. E que no curto percurso, mesmo assim angariava passageiros. Até um derradeiro ponto, à porta da bela loja de magazines A sensação. Cujas vitrinas de brinquedos eu devorava com os olhos. Todos os dias, ao sair do "grupo escolar", o Marechal Floriano. Brinquedos de madeira, de lata, de ferro; de dar corda, elétricos. Ali, tão perto do coração e tão longe do bolso. Nomes que alegravam os olhos: Estrela, Atima, Trol, Metalma... Saudade.

Bondes "milagrosos", mesmo! Os "auxiliares". Abstinham-se de recolher os muitos passageiros que iam além. Além Rodrigues Alves, além Sena Madureira. E eu torcia por um deles!

Lá por volta de 1958 - eu com 10 para 11 anos - um troço me intrigava, no percurso dos bondes. Era o "viaduto que não era"! Era, isto sim, um bonito quão extenso paredão. Uma concessão a mim, leigo, se mal me expresso: um grandioso "muro de arrimo". Tratado como viaduto.

Pessoal do meu tempo lembrará: Viaduto Santana do Paraíso. Da Doutor Siqueira Campos até a Castro Alves. De um lado, edificações. O grande quartel da então Força Pública, esquina de José Getúlio, atual Antônio Prudente. Do lado oposto, o belo gradil de ferro em toda extensão - separando a calçada do espaço, em cujo final - para além das casas - o matagal por aonde viria a passar a 23 de Maio.

"Viaduto" por quê? Não transpunha vale nem rio, nem buracão; não unia morros; não era ponte... Esclareça, prezado engenheiro ou arquiteto dos anos 50: por que "viaduto", aquele? Pois "em cima" era o próprio chão da Vergueiro. A qual começava ali para desaguar, como hoje, nove quilômetros adiante, na Anchieta. Embaixo, contemplada pelo belo paredão (de pedras?), a própria Rua Santana do Paraíso. Com as casinhas e a fábrica de chocolates Sönksen, das deliciosas balas azedinhas, não? Rua que, com o brutal alargamento da Vergueiro, restou um beco. Vergueiro e Consolação: exemplos de ruas que se tornaram avenidas. Embora nas certidões de nascimento ainda sejam ruas. Que se consolem. Numa região em que a paisagem profundamente modificada com as gigantescas obras do metrô, resistiu a escadaria de Santo Agostinho. Do Colégio e da Igreja. Pudera: escadaria de corpo e alma de granito...

"Viaduto" que não era e que terminava onde começava o Cine Paulistano. No qual nunca cheguei a entrar. Só no Leblon, um pouco adiante. E em cuja tela, fins dos anos 50, a marinha inglesa, em cada sessão, acossava o couraçado alemão Graf Spee, lembram alguns? Couraçado que, 72 horas fatídicas de um prazo, quedou suicidado - pelos próprios alemães - nas águas de Montevidéu. Que, como é sabido, na vida real ocorrera uns 15 anos antes. Também pudera: três contra um... Paulistano e Leblon: também tragados pelas águas. Águas da demolição.

Impassível perante pés apressados - que por ela transitam - a escadaria remanesce de meio século. Tempo de uma Vergueiro estreita, "rua" mesmo. Tempo do rush sob o abrigo. Na realidade de hoje - basta constatar - na Vergueiro, a "de cima", à flor do asfalto, carros voam. Talvez querendo até atingir a barreira do som. Ultrapassar. Arrebentando - em torvelinhos e remoinhos - o ar poluído por monóxidos e dióxidos. Na outra Vergueiro, a do subsolo, nela zunem centopéias-gigantes, de rodas de aço. Prateadas, no vaivém norte-sul. Em cujos bojos - no rush, qual sardinhas-em-lata - com pressa igualmente veloz, paulistanos que nem fazem idéia. De que no tempo distante os trilhos eram de ancestrais daqueles trens metropolitanos.

Remoinhos e torvelinhos. Os ventos da "avenida" levam, ininterrupta e incansavelmente, as lembranças cada vez mais para o infinito: viaduto, cinemas, casarões, casas com porões, balas azedinhas. De carona, nesse cortejo, os bondes.

O abrigo dos bondes. Com outra cara - feioso e triste - nada lembra ex-reduto de bondes. Abrigo até ignorado pelo rush, o qual despeja maiores multidões nos pontos de ônibus das cercanias e na estação Sé do metrô. "Abrigo" que não abriga nem a saudade. Saudade que deve ter partido no último bonde. Com a bênção de Santa Teresa e São Gonçalo - numa noite fria, de garoa paulistana que caía como fagulhas de prata...

E-mail: helena.moitinho@terra.com.br

Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 08/12/2010 Rubens, o "buracão" do qual escreví e não dei o nome, chamava-se na ocasião, RUA JOÃO JULIÃO !!!! hoje esta rua, já está "urbanizada"...rsrsrsrsrs - Flavio Rocha Enviado por Flavio Rocha - flaviojrocha@bol.com.br
Publicado em 08/12/2010 Impecável! tão maravilhoso quanto os outros que,
neste site, o senhor já escreveu! Parabéns
Enviado por Lia Beatriz Ferrero Salles Silva - lia.ferrero@hoitmail.com
Publicado em 07/12/2010 Rubens, o maior "buracão" que conhecí (e andei)ficava nestas "bandas" que você relata...saía da rua Vergueiro e ía até a rua Martiniano de Carvalho...dava mêdo "atravessar" aquela "pinguéla" de um lado para outro...quanto às entradas nos "camarões" na Pça.João Mendes e outros locais, pergunto: você já esteve em "hora de pico" na Estação Sé, para entrar no metrô ???rsrsrs (acho que está bem piór!!!) pelo menos, "os motorneiros" dos bondes, eram bem mais atenciosos...no metrô, é o contrário. Abs. Enviado por Flavio Rocha - flaviojrocha@bol.com.br
Publicado em 07/12/2010 Parabens, Rubens. Magnifica cronica, bastante fiel ao que eram aqueles anos 50. Eu morei alí no paredão da Vergueiro, que chamavamos Vergueirinho, cheguei a frequentar o "pulgueiro" Paulistano e o Leblon. Escrevi sobre isso em cronicas que fiz aqui, falando da Turma da Carneiro. Emocionei-me com seus relatos,parabens. Enviado por Gilberto Ramos - gramos-sc@hotmail.com
Publicado em 06/12/2010 Extença recordação do melhor transporte urbano que tivamos na segunda metade do saudoso século XX.
Parabéns, Cano.
Modesto
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
« Anterior 1 Próxima »