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Categoria - Paisagens e lugares Lembranças do Liceu Coração de Jesus Autor(a): Ricardo Luiz Ramacciotti Armando - Conheça esse autor
História publicada em 22/11/2010
Foi no conturbado mês de março de 1964 que iniciei minhas aulas no Liceu Coração de Jesus. Alheio à situação do país, estava preocupado em saber como seria estudar num colégio tão grande, com novos colegas e novos professores. Como seriam eles? Havia certa sensação de medo do desconhecido e carrego tal sensação ainda hoje para tudo o que for novo, diferente.

Havia iniciado minha vida letiva em 1961 no Externato Assis Pacheco, pequeno colégio particular nas Perdizes, perto de casa, onde os meninos estudavam pela manhã e as meninas à tarde. Agora no Liceu, seriam somente meninos e padres; sequer havia professoras, podendo ser considerado um verdadeiro "Clube do Bolinha".

Nada disso importava. Era até bom, pois nunca havia estudado em escola mista e não teria que ter aquela sensação do desconhecido. Mas o que me alarmava era ter que frequentar as missas todas as manhãs antes das aulas. Apesar de ser neto de italianos e consequentemente de família católica, não tínhamos o hábito de assistirmos à missa. Enfim, uma nova realidade se iniciava em minha trajetória de vida, e como essa foi importante!

Para começar, era Semi-Interno e o dia se iniciava às 07h e terminava às 17h. Parecia assustador, mas praticamente toda minha vivência como pré-adolescente e adolescente se passou por entre inúmeras colunas romanas, intermináveis pórticos, muitas escadas e um corredor de salas de aula que mais parecia uma ala hospitalar.

Pela manhã: missa; sala de estudos; lanche matutino; depois, o almoço; o tempo ocioso (pelo menos para mim); e, logo depois, as aulas. Como nunca me interessei por esportes, à exceção de natação, que não tinha no Liceu, tanto as aulas de ginástica como a possibilidade de jogar futebol, vôlei ou basquete eram momentos entediantes.

Havia o teatro, onde muitas vezes éramos surpreendidos com a ausência de uma ou duas aulas para assistirmos a jurássicos filmes religiosos ou filmes de faroeste. A simples ida ao teatro me encantava e me fez vir a pertencer ao grupo musical dos "Pequenos Cantores", que, por mera ignorância infantil, nos sentíamos superiores ao grupo similar e mais jovem chamado "Canarinhos Liceanos".

Passei a participar ainda dos desfiles cívicos, marchando em um impecável "Uniforme de Gala" e me sentia um "Príncipe de Gales" em uma parada pelas ruas de Londres.

Aí vocês me perguntam: “Tá, e os estudos?”. Aí eu respondo: era um aluno médio com algumas matérias em que eu "fechava" as notas e a consequente aprovação já em outubro. Em outras, eu ficava para exame e até de 2ª Época, precisando de muita nota que, por duas vezes, não consegui e reprovei... Reprovei devido à matemática, é claro! Sempre fui notoriamente um ser “anti-exatas” e os meus grandes dotes eram a História, a Geografia, o Português e o Inglês, que, nessa ocasião, já dominava.

Nos idos de 1967/1968, fiz amizades estranhas para um adolescente normal. Aproximei-me de um colega negro (coisa rara na escola), de um libanês que mal falava português, de um colega gay (sósia de Barbra Streisand) e de um armênio com paralisia infantil, mas abarrotado de cultura!

Lembro-me bem que ainda em 1968 li uma versão pocket book de "Hamlet", de Shakespeare, com diálogos cênicos ao invés da estória como um todo e fiquei louquinho para encenar no teatro da escola. Fiz de tudo e falei com todos os padres possíveis e imaginários, mas não consegui, porque não era permitida a participação de meninas e eu achava um absurdo ter que travestir um menino para os papéis femininos, pois eu queria uma peça para o público externo e não para um momento de deleite pessoal. Fiquei na frustração.

O ano de 1971 foi meu último ano. Quando encerrei os exames em dezembro, me senti "livre" e não queria mais lembrar do "tempo perdido" da minha adolescência, ainda que uma vez mais o assombro do futuro incógnito tomou conta de mim.

Os professores mais marcantes? Da fisionomia me recordo de todos, absolutamente todos, mas seus nomes, nem tanto. Fessina, Chediak, Dante, Paulos (o abominável japonês de Matemática e o tranquilo de Inglês, que acariciava o cavanhaque), Daniel (padre português que lecionava Francês), Rusziska (o polonês das Ciências) e tantos outros.

Os padres mais marcantes? Romano, sem sombra de dúvida o mais carismático de todos; Pavanello, sempre impecável; João (piano); Jonas; além de um padre polonês bem velhinho que não largava a latinha de rapé e quando faleceu estivemos na igreja (N.S. Auxiliadora) para a missa de corpo presente. Meu primeiro cadáver e meu primeiro desmaio! Legal, não?

Estive no Liceu para "sapear" as instalações faz uns cinco anos... Tudo está tão diferente! Menos as inúmeras colunas romanas e os intermináveis pórticos.

Hoje leio nos jornais que querem revitalizar a área e reutilizar o teatro para fins comerciais. Achei ótimo, pois entre tantas coisas que já fiz na vida (funcionário público estadual, funcionário de empresa aérea, tradutor, intérprete, guia de turismo, escritor de contos e dramaturgia, ator de teatro), adoraria poder finalmente montar uma peça não com meninos travestidos, mas com elenco adequado. E não seria Hamlet! Talvez algo meu, de minha criação.

De todos os momentos que ali passei, insegurança, felicidade, frustração, conquista do inatingível, decepção do menos óbvio, as realizações e a liberdade final... Ficam grandes lembranças de um aprendizado de vida único e sem replay, eterno e encantador.

E-mail: ricardo.armando@uol.com.br E-mail: ricardo.armando@uol.com.br
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Publicado em 23/11/2010 Ricardo, excelente o seu estilo de escrever. Gostei! Parabéns! Enviado por asciudeme joubert - asciudeme@ig.com.br
Publicado em 23/11/2010 Você foi um privilegiado. Uma formação impecável que fez de você o homem que imagino que é- erudito, sofisticado, criativo e muito verdadeiro. Espero que sua peça saia do terreno da imaginação e se torne real. Um abraço, Enviado por Trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
Publicado em 22/11/2010 Ramacciotti, bela sequencia histórica de uma pincelada de sua vivencia.Tenho certeza que o período vivido serviu para dar maior consistência estrutural a sua vida.Dai para frente as conquistas cultural e profissional se realizaram com os pés no chão e evoluiram.Parabéns,Trecho histórico bem elaborado.
Meu sogro Francisco D.Trivinho foi professor no Liceu e elogiava a plêiade de bons alunos que o Liceu agasalhava.
Fábio
Enviado por Fabio Belviso - fabio.belviso@ig.com.br
Publicado em 22/11/2010 Oh salesiano, esqueceu do ping-pong. Bem vindo! Enviado por Pedro Cardoso - piparoda@gmail.com
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