Leia as Histórias

Categoria - Outras histórias Pioneiro Autor(a): Rubens Cano de Medeiros - Conheça esse autor
História publicada em 21/11/2010

Gostoso participar do site que valoriza a memória paulistana. Transporte coletivo é parte de tal memória. Registrar um fato, tão só a ideia.

Não tenho pretensão - nem posso ter - de conhecedor do assunto. Pois jamais trabalhei nos transportes e não tenho formação. Mas gosto, desde moleque. É o que basta para falar. Assim como aprecio fuçar jornais e revistas de arquivo, para conhecer um pouco da São Paulo de antes de mim.

Ônibus elétricos (como também eram chamados quando eu era moleque, anos 50). Até mesmo "eletrizantes", para muitos paulistanos. Macios, não poluentes. Deslizar gostoso! Silenciosos, quando eficiente à manutenção, é claro. Ruídos? O sibilar, nos fios da rede aérea da "castanha" (ou que nome?) de grafite, na ponta das alavancas, captando energia: “zzz...”. E o "trec-trec" dessas mesmas “castanhas”, quando o elétrico mudando o caminho, nos desvios da rede.

Trólebus ou tróleibus, do inglês trolley, não? Ah, os primeiros trólebus da CMTC, hein! Importados. Belos e robustos. Lembro bem de quando moleque e adolescente.

Bem, eu tinha apenas um ano e meio. Foi quando São Paulo ganhou a primeira linha de trólebus, em 22 de abril de 1949. Da Praça João Mendes (defronte ao Palácio da Justiça) à redonda Praça General Polidoro, trajeto curto esse. Inauguração da qual tomei conhecimento pelas fotos em preto e branco da saudosa A Gazeta, da coleção do Arquivo do Estado.

Não obstante nos anos 60, recordo bem, os trólebus ainda saíssem da Praça João Mendes. Contornando metade daquela grande praça para mergulhar numa então estreita Rua Conselheiro Furtado, de paralelepípedos.

Então já em 1958, eu com quase 11 anos, é que vim a deparar com o pioneiro. E fiquei bem impressionado com o belo veículo elétrico. Em alguma rua do centro. O primeiro trólebus brasileiro. Trólebus da "primeira geração", impõem os que dominam o assunto.

Fabricados cá em São Paulo (só podia). Sob licença de americanos: Westinghouse e da grande fabricante de trólebus Marmon-Herrington, de Indianapolis. Li nos jornais e publicações outras. Cara de coach!

Compridos, robustos, confortáveis, de belas e harmoniosas linhas. Informavam as publicações que o pioneiro nascia com índice de nacionalização de 85%. Muito bom para quem não produzia trólebus até então: trólebus Grassi-Villares, o pioneiro.

Àquele tempo, como é do conhecimento, a gente embarcava pela porta de trás. Isso, ao contrário de nos bondes camarões e no Gilda, não? Quando então eram os ônibus dotados de porta de saída de emergência, muitos lembram. Situada oposta à porta de subida. E acionada manualmente, através duma tranca. Nos anos 70, substituída pela janela de saída de emergência. Da qual - quando necessário - para saltar o passageiro terá que ser atleta. Olímpico.

O trólebus pioneiro, de 1958, trazia uma novidade, ao menos para mim, moleque: três portas, sendo duas para desembarcar. Tal qual, aliás, um outro elétrico da CMTC: o lindo trólebus alemão. Eram 50, comprados por Jânio Quadros, novinhos. Diziam em plaquetas o nome deles, fáceis e suaves de pronunciar: Bauart Henschel, Üerdingen e Siemens.

Alemão que acendia a grande luz do freio, traseira, em inglês: STOP! Por curioso, um ex-motorista da CMTC me disse que os Üerdingen "pulavam como cabrito"! Disso não me lembro, eu que viajei várias vezes neles. O Museu dos Transportes tem bela foto de um desses carros alemães, de grandes janelas e portas largas, batida na então garagem da Rua Machado de Assis, ao lado de um trólebus Grassi-Villares.

Vi nos jornais de arquivo que, em 1955, os Üerdingen inauguraram a linha Gentil de Moura. A qual subsiste, hoje mista: operada simultaneamente por trólebus e diesel.

Trólebus Grassi-Villares, o pioneiro. Carroceria da Grassi, montada na Vila Leopoldina, creio. Motores elétricos produzidos pelas Indústrias Villares, do Cambuci. Westinghouse e Companhia Paulista de Material Elétrico completavam o consórcio que produziu o belo veículo. Tais trólebus foram produzidos de 1958 a 1961, como consta dum painel do Museu e da internet. Dez (incluindo o protótipo) para a CMTC, e outros oito para a CTA, da "morada do sol", linda Araraquara. Os da CMTC, reformados, rodaram até os anos 90, eu acho. Um deles remanesce na coleção do Museu. Razoavelmente original.

Pois ao lado desse trólebus da coleção do Museu, lá está um painel de fotografias com legendas. Que conta a maratona do protótipo Grassi-Villares (a data é três de maio de 1958): o elétrico fez uma inusitada viagem. Para o Rio de Janeiro, é claro, pela Dutra! Não sei porém que tempo levou. Acoplado que fora a um trailer, um gerador sob dois pneus. Gerador elétrico de 600 v, para o trólebus andar - com as alavancas baixadas, viajando de carona! Trólebus na Dutra: história "de pescador"? Claro que não. A primeira das fotos mostra a partida do veículo, da porta da Villares, na Alexandre Levi. Muitos lembrarão daquela fabricona quase ao lado do prédio de tijolinhos vermelhos da Mesbla, Avenida do Estado.
Exteriormente no alto de uma parede, a referência: um círculo formado em alto relevo por letrinhas vermelhas, "Elevadores Atlas" - no centro, um grande "A". As outras fotos mostram o trólebus na Dutra e em lugares do Rio de Janeiro. Certamente granjeando a admiração e a curiosidade do povo, veículo moderno e bonito que era. E o Presidente Juscelino o inspecionando, no Catete. Diz a legenda, o Presidente reconhecendo-lhe a qualidade.

Só que lá, no Rio de Janeiro, os trólebus não seriam iguais àquele da demonstração, não. Seriam outros 200 adquiridos tempos depois na Itália. Um dos quais, no desembarque, no cais do Rio, despejou-se no mar! Maldade do guindaste? Quem sabe... Aquele protótipo Grassi-Villares, ele retornou a São Paulo. Para a CMTC. Nos anos 70, eu trabalhando em Araraquara, andei nos Grassi da CTA. Época em que os ônibus urbanos de lá eram todos trólebus.

Aquele trólebus Grassi-Villares do Museu é a testemunha de uma conquista, isso ele é. De quando, 1958, trabalhadores brasileiros deram um passo à frente. À época, na consolidação da então emergente indústria automotiva nacional. Tempos em que São Paulo fabricava de tudo! Os elétricos - até então importados - passavam a ser produto nacional. Quando surgiu aquele ônibus estiloso para rodar silencioso e macio nas ruas da cidade, por muitos anos. E cujo maior ruído era mesmo o "trec-trec" dos desvios: perguntem a ele...

E-mail: helena.moitinho@terra.com.br

Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 22/11/2010 Faço minha as palavras do amigo Modesto, para quem não conhece o assunto, vc manda bem no assunto, mas sei o que é gostar de algo, e conhecer amadoramente esse algo... Rubens graças a vc, vou conhecer o Museu, me deu uma curiosidade! Enviado por Ivan Pinheiro - ivan-pinheiro@uol.com.br
Publicado em 22/11/2010 Sempre que me deparo com seus textos logo sei que terei uma verdadeira aula sobre transportes. Sou sobrinha do Gaetano Ferolla ( o do Museu) e fico o dia todo lembrando-me dele e de suas peripécias para fundar o dito cujo. Um sobrinho está preparando um texto. com fotos, etc, sobre o nosso tio e o museu dos transportes . Irá postá-lo em nosso site e você, na certa, vai gostar. Um abraço, Enviado por Trini Pantiga - trinesp@ig.com.br
Publicado em 21/11/2010 Detalhadíssima narrativa sobre transportes urbanos. Em se tratando de alguém "que não entendo do assunto", Medeiros, vc brilha como um Twin-coach", lembra? o ônibus tinha uma suspenção que nem o melhor automóvel nacional possuia. Parabéns pela crônica, Medeiros.
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
« Anterior 1 Próxima »