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Categoria - São Paulo da cultura, gastronomia, lazer e oportunidades O Pé de Louro Autor(a): Paulo Lorenz - Conheça esse autor
História publicada em 12/09/2010
Uma vez ouvi algo incomum de um estrangeiro que visitava São Paulo pela terceira ou quarta vez. Disse ele que conhecera antes o Rio de Janeiro e Curitiba, que são lugares lindos, encantadores, mas que havia alguma coisa diferente em São Paulo que o tinha atraído. Ele teve a rara percepção de notar que na maioria das vezes, a beleza de São Paulo está escondida. São Paulo é cheia de pequenas portas que atravessam corredores que levam a lugares incríveis. Fachadas de prédios nos mais diversos estilos arquitetônicos que se envergonham por trás de esquizofrênicos letreiros luminosos. Parques e pequenas porções de mata intacta em lugares improváveis.

Apesar destas características e muitas mais, de metrópole afogada na correria e no caos, cada bairro acaba ganhando sua identidade, tornando-se um pequeno recôndito que ainda guarda histórias pitorescas e situações inusitadas, típicas de pequenas cidades.

Naquele domingo acordei às oito da manhã com a campainha de casa tocando frenética e insistentemente. Pensei quem poderia ser àquela hora. Que coisa mais desagradável. Oito horas da manhã, e o sujeito não desistia de tocar. Já estava amaldiçoando uma possível testemunha de Jeová ou algum outro tipo de religioso com vocação beneficente. Tentei o velho truque do travesseiro cobrindo a cabeça, mas não funcionava. Eu já havia sido acordado. Levantei-me, cabelo em pé, e me considerando um injustiçado por ter sido subtraído do meu sono sagrado num domingo, olhei pelo postigo da porta da frente. Uma Kombi do tipo picape parada em frente à minha casa com dois sujeitos do lado de fora. Olhei com atenção, e certo receio. Pareciam dois personagens saídos de histórias do Jeca Tatu. Chapéu de palha, blusa xadrez e a inconfundível marca registrada do capiau genuíno: calçavam borzeguim.

- Bom dia sinhôôrrr - disse um deles com aquele erre arrastado dos cafundós de Piracicaba e o bom humor inabalável do caipira.
- Bom dia - respondi - Pois não?
- Então, senhor, nóis conhecia o antigo dono da casa que o senhor mora.
- Sei.
- A casa do senhor não é assim e assim?
- É, e daí?
Entre uma mordida e outra num galho de mato ele falou:
- O senhor não tem um pé de louro lá no fundo do seu quintal?
- Tenho - respondi ainda desconfiado.
- Então, senhorr, nóis vinha todo ano podá o pé de louro. Já faz uns três ano que nóis num vem. Deve tá precisando de uma poda, tá não?

Não sabia muito bem o que fazer naquela hora. Minha desconfiança começou a migrar para o lado da simpatia incauta. E a verdade é que o pé de louro já estava precisando de uma poda. Minha mulher dormia, e meu cachorro me olhava com a mesma incredulidade que eu encarava aquela situação. Resolvi arriscar:

- E quanto o senhor vai me cobrar pra podar o pé de louro?
- Cobrar??? - me pergunta o matuto surpreso - Nós é que vamo pagá o senhor pelo tanto de fardo que nóis tirá do seu pé. Sua árvore deve dá hoje uns dois fardos.

Aquilo não fazia o menor sentido... Um sujeito que você nunca viu, toca a sua campainha às oito da manhã de um domingo querendo pagar pra podar um pé de louro que está escondido no fundo da sua casa.

- E quanto você vai me pagar?
- Me deixa ver com o irmão - um olha pro outro que faz um gesto de jogo de truco - Trinta real tá bão?

Sem pestanejar aceitei. Na mesma hora em que dei a positiva, uma série de movimentos coordenados arrancaram de dentro daquela Kombi alguns instrumentos de poda, escada, fardos de pano e um cantil. Os dois se dirigiram rapidamente para o fundo da casa, onde se encontra o pé de louro.

- Esse pé do senhorrr deve ter uns sessenta ano.

O outro já subindo na árvore com a mesma destreza dos moleques ladrões de goiabas do interior, sacou de uma pequena foice e um mini-serrote e começou a jogar pra baixo, galhos e mais galhos recobertos de folhas. O outro, no chão, num sincronismo que evidenciava aquela prática há muito tempo, ia desfolhando cada galho com a mão calejada e grossa, e colocando as folhas mais largas dentro de um dos fardos. Os galhos iam sendo jogados para um lado e as folhas menores pra outro fardo.

- Nóis conhece quase todas casa onde tem pé de louro aqui na sua cidade - me conta o matusquela - Só aqui no seu bairro tem cinco.

- E o que você faz com tudo isso?
- Depois nóis separa em maço de cem folha e vende no Ceasa – prosseguiu - Outro dia nóis tirou vinte e sete fardo de louro de um pé numa casa ali perto do Butantã. Aquela árvore lá deve ter chegado com os portugueses... Hahaha.

Riram os dois, e acabei por rir junto.

Terminaram o serviço, e com a simplicidade interiorana, sentaram-se debaixo do pé de louro - agora careca - tomaram goles revigorantes da água do seu cantil e acenderam um cigarro de palha. Num gesto puro e natural, me ofereceram um palheiro. Dei um trago, por cortesia, ao que tive a sensação de que meu pulmão iria colapsar. Novamente, riram os dois. E ri eu. Pegaram suas coisas com a mesma sincronia, jogaram os dois fardos na caçamba da Kombi e me acenaram:

- Até logo senhorrr ! Ano que vem nóis vorrrta! Fica com Deus!

Meu domingo, e uma parte dos meus valores, se transformaram naquela hora e meia em que os dois irmãos podavam o pé de louro da minha casa. Entendi um pouco mais o que significa morar numa metrópole, quando dizem que em São Paulo você tem tudo vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana.

E-mail: paulo.lorenz@gmail.com E-mail: paulo.lorenz@gmail.com
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Publicado em 14/09/2010 O mais interessante de sua narrativa, Lorenz, é a erudição utilizada pra um tema aparentemente simples mas, que se torna um texto rico em detalhes subjetivos que se destacam com o desenrolar da história. Parabéns, Paulo.
Laruccia
Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 14/09/2010 Bom relato...Emocionante.
Parabéns pelo jeito maravilhoso de contar. São Paulo é mesmo uma grande surpersa.
Um grande abraço.
Enviado por mary clair - clairperon@hotmail.com
Publicado em 14/09/2010 Paulo muito bom o seu relato. Raros os pés de louro nas casas da cidade hoje em dia. Mais cômodo realmente comprar um maço na feira. Penso também que você deveria ser mais prudente em consentir a entrada de estranhos no seu quintal! Enviado por Achilles Germano Viadana - achilles_germano@hotmail.com
Publicado em 13/09/2010 "Nóis vorrta e corta,poda seu pé de louro,afinar só fazemos isso"os dois devem ser de Sorocaba(nasci lá),bela história,aqui tdo. acontece.
valeu!
Enviado por vilton giglio - viltongiglio@hotmail.com
Publicado em 13/09/2010 Paulo, como diz o velho ditado: Uma mão lava a outra", podaram o pé de louro e ainda assim vão ter um bom lucro, parabéns pelo texto, abraços, Leonello Tesser (Nelinho). Enviado por Leonello Tesser (Nelinho) - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 13/09/2010 Paulo, como diz o velho ditado: Uma mão lava a outra", podaram o pé de louro e ainda assim vão ter um bom lucro, parabéns pelo texto, abraços, Leonello Tesser (Nelinho). Enviado por Leonello Tesser (Nelinho) - lt.ltesser@hotmail.com
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