Leia as Histórias

Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Bairro do Braz e as lembranças do SENAI Roberto Simonsen Autor(a): Rodrigo Alessander Sant Ana - Conheça esse autor
História publicada em 08/08/2010
Minhas primeiras andanças pela cidade de São Paulo se deram entre os meados da década de 90 entre os bairros da Cohab I e o Braz. Estava no início de minha adolescência.

Primeiro compromisso sério com o futuro, a felicidade em saber que em breve estaria com uma profissão, a sensação de que algo promissor me esperava alguns anos adiante, sensação boa, mente de jovem despreocupado, fase da vida de um paulistano que ainda consegue deitar e dormir. Compromisso que me fazia acordar bem cedo, não podia perder o Largo da Concórdia que saía pontualmente às cinco e vinte da manhã, nossa! É impossível não se lembrar de detalhes das manhãs de inverno; saía de casa com duas calças, duas meias, vários agasalhos - bem coisa de paulistano da periferia, pois as roupas que tinha não esquentavam muito.

O trajeto era de uma hora e meia até o Braz. Gostava de sentar no último banco e, como descia no final, todo dia via as mesmas pessoas entrarem e saírem durante um trajeto que cruzava os bairros da Vila Nhocuné, Vila Matilde, Penha, Vila Carrão, Tatuapé e Belém. O mesmo motorista, o mesmo cobrador, mas, mesmo assim, eram raros os cumprimentos de "bom dia!"; coisa de paulistano, aprendendo a ser desconfiado na metrópole.

Lembro-me de uma garota muito bonita que por meses sentava-se ao meu lado, e dia após dia ensaiava o que dizer a ela... Certo dia, ela não apareceu mais, que frustração.

Como era bom ficar olhando pela janela! Ver o movimento das pessoas pelas manhãs, crianças indo à escola, trabalhadores ao batente, senhores de idade com suas carteirinhas ao médico.

O cheiro das manhãs era bem peculiar... Dentro do ônibus posso dizer que não era tão agradável assim, mas lembro-me quando parava em frente à uma padaria na Celso Garcia... Podia ver as pessoas tomando seus pingados e o aroma daquele lugar adentrava no ônibus. Ah! Que cheiro de café, que cheiro de "manhã"!

Ao chegar ao Largo da Concórdia, ia a pé atravessando o viaduto Rangel Pestana, marmita na bolsa, garantia de bom almoço, aliás, que saudade que tenho de comer uma marmita, comidinha da mamãe que na época eu tinha a audácia de reclamar! Talvez certa vergonha, dessas de adolescente. Chegava e ia direto para o pátio, esperava dar o horário de entrada para as aulas teóricas, no intervalo, entre zoeiras e sarros dos colegas, íamos colocar nossas marmitas nos aquecedores. No começo, ficávamos acanhados; depois, até a mistura era compartilhada nos almoços, quando não surrupiada no mesmo momento em que eram colocadas para aquecer. Não esqueço até hoje o aborrecimento de alguns: "Filhos da mãe! Roubaram o meu bife!”. Posso dizer que ter o bife roubado era melhor do que encontrar algo indesejado na hora de abrir a marmita. Uma vez encontrei um pedaço de tijolo. Um colega meu não teve a mesma sorte: encontrou uma barata; pelo menos essa estava morta. Se havia lugar para dar risadas, este lugar era o refeitório.

Na hora do intervalo, serviam uma espécie de "shake" oferecido pela escola. Tinha um sabor incrível, geralmente de banana, mas era tão bom que havia alunos que levavam recipientes exageradamente grandes para forrar a barriga, alguns até passavam mal de tanto tomarem o “shake”.
Às tardes, íamos para as oficinas. Lembro-me com detalhes dos primeiros contatos com um torno mecânico, do cheiro do líquido refrigerante ao encostar ao cavaco quase em brasa da peça recentemente torneada, das morsas nas bancadas, das limas que iam e vinham em busca da perfeição inalcançável.

Havia disputas entre as turmas de Mecânicos e de Eletrônica. Saía cada briga feia, pareciam verdadeiras gangues. Lembro que chegava meio arrebentado em casa, brigávamos por besteira, fazíamos elos fortes, primeiras amizades verdadeiras, aprendíamos a ter coragem, a se virar sem o irmão mais velha; claro que o principal era a escola quem nos dava: a profissão, o ensino sempre fora impecável.

Na hora de ir embora, sempre muita emoção: íamos em bando. Caso algum de nós fosse pego sozinho pelos eletrônicos ou vice e versa, já viu!

Pulávamos o muro da estação de trem, para economizar o passe de ônibus. Tinha um pessoal que ia no sentido Calmon Viana, eu ia com a galera que pegava a linha tronco, sentido Estudantes. Lembro-me da moça do alto falante dizer: "Composição estacionada na plataforma dois com destino à estação Estudanteees...". Era a maior correria, tinha de pular duas plataformas e às vezes me ralava todo, fazia isso só pra chegar a Artur Alvim e poder comprar uma batatinha chips com o passe economizado.

Certa vez, perdi um colega chamado Marcelo, que morava em São Miguel, que Deus o tenha. Ele era gordinho e na hora de pular uma das duas plataformas o trem o pegou... No enterro, todos diziam: "Malditas batatinhas!". Dei até um tempo nessa de pular o muro, ficava recordando a imagem dele, era horrível! Só não consegui dar um tempo nas batatinhas...

Mas de todo este tempo no SENAI lá do Braz, muita coisa aprendi, principalmente a de saber se virar um pouco sozinho nas andanças desta metrópole, de saber viver em grupo, respeitar os colegas e meus limites.

Lembro de nomes e fisionomias de praticamente todos os colegas e professores. Foi uma fase inesquecível que marcou o início de minha etapa adulta. Nunca mais os vi. Apesar de ter seguido outros caminhos e outra profissão, pois hoje sou Enfermeiro, guardo com muito carinho as primeiras andanças e encontros nesta fantástica cidade que é São Paulo.

As batatinhas chips, pelo menos aqui em Artur Alvim acabaram saindo de moda.

E-mail: rodrigo.enfo@gmail.com E-mail: rodrigo.enfo@gmail.com
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 09/11/2014

Impossível ler sua história e não se identificar... estudei nessa mesma época, em meados de 90, e a oratória seria praticamente a mesma, eu era do técnico, famoso HP, os "manos do quinto andar"... Realmente dá muitas saudades, também perdi um amigo nessa época. ele gostava de dar uma surfada no ônibus e um belo dia encontrou um fio de alta tensão a frente... As brigas no nosso caso eram com todo o CAI (curso de aprendizagem), por aí você pode imaginar, era briga todo dia... mas no final das contas era muito bom, tive verdadeiros irmãos nessa época, se eu soubesse que esse tempo faria tanta falta para mim, nunca teria desejado que acabasse rápido, francamente as lágrimas chegam perto de cair do rosto, braços amigo.

Enviado por Miguel Santos - msprimeiro@hotmail.com
Publicado em 30/04/2013 Sim fiz parte da fanfarra do Jardim Penha nos anos 1973 eu fazia parte das bandeiras Paulista me lembro da 1ª vitória em 1º de maio em Ermelindo Enviado por Carlos Roberto da Gama - Carlos.Roberto.gama@uol.com.br
Publicado em 02/08/2012 Fico contente em poder lembrar do mestre Sr bene,toquei de 74 a 78 fui quato vezes campeão nacional e não esqueço as musicas que tocavamos,aproveito este espaço para homenagear o mestre BENE Enviado por Carlos Jorge Sanches - carlosanches1961@hotmail.com
Publicado em 02/08/2012 Fico contente em poder lembrar do mestre Sr bene,toquei de 74 a 78 fui quato vezes campeão nacional e não esqueço as musicas que tocavamos,aproveito este espaço para homenagear o mestre BENE Enviado por Carlos Jorge Sanches - carlosanches1961@hotmail.com
Publicado em 08/06/2011 Eu também faço parte dessa turma, só que em época diferente. Me formei em 1970, toquei na fanfarra com seu Benê, disputei uma final de futebol de salão contra a ferramentaria, pois afinal eu era do quarto grau da elétrica, ainda me lebro que disputamos duas partidas, pois a primeira não houve vencedor e infelizmente perdemos na segunda; perdi um gol feito no final do jogo e o professor Candido Soler Neto o famoso Fubá, me jogou um ovo dentro da quadra rssr. Bons tempos aqueles.
Também jogava ping-pong e tudo mais, mas só pra quem tinha média nas matérias.
Enviado por Natal Marengoni Júnior - natal.junior53@hotmail.com
Publicado em 09/05/2011 Poxa respondendo ao comentario abaixo toquei tambem em fanfarra ministrado pelo mestre negro sr bene poxa que saudade era no ginasio do jardim penha Enviado por Juarez Lacerda - jjlacerda@hotmail.com
Publicado em 07/09/2010 Eu estudei no SENAI Roberto Simonsen e a gente tinha pela manhã e a tarde café. Aliaz era só leite gelado e pão. O almoço era fornecido pelo SESI, a gente pagava uma taxa não muito cara e comia no refeitorio,quem ajudava a servir a comida não pagava. E eu era um deles. Tinha tambem jogos de ping pong, nas duas horas de alomoço e campeonato de basket. e shows nas sextas feiras. Enviado por Mário Lopomo - mlopomo@uol.com.br
Publicado em 07/09/2010 Estudei no SENAI no curso de joalheria. Fui uma negação e nem completei o curso mas. fiz muitas amizades com o pessoal da tornearia e da marcenaria e participei da fanfarra com o professor Bené. Isso foi na década de sessenta. Bons tempos aqueles na Escola Roberto Simonsen. Abraços Enviado por nelson de assis - nel.som55@yahoo.com.br
« Anterior 1 Próxima »